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Publicado el 15 de abril de 2026

Obesidade e infecções graves

Obesidade é responsável por 1 em cada 10 mortes por infecções no mundo, aponta estudo do Lancet

Uma análise com mais de 540 mil indivíduos revelou que o excesso de peso não é apenas um fator de risco metabólico, mas um determinante crítico para a gravidade de infecções bacterianas, virais e fúngicas, com impacto direto na mortalidade global pós-pandemia.

Autor/a: Nyberg S., Frank P., Ahmadi-Abhari S. et al.

Fuente: The Lancet, V. 407, p. 951-962, 2026

A prevalência global de sobrepeso e obesidade em adultos continua em ascensão globalmente, gerando preocupações na saúde. Este cenário é agravado pelo aumento da obesidade em crianças e adolescentes, que projeta um crescimento contínuo no ônus de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, neoplasias e multimorbidades. No contexto das doenças infectocontagiosas, a pandemia da COVID-19 evidenciou que indivíduos com obesidade apresentaram um risco significativamente maior de evoluir para formas graves da infecção, resultando em maiores taxas de hospitalização e mortalidade.

A associação entre obesidade e desfechos infecciosos desfavoráveis possui sólida plausibilidade biológica, fundamentada em alterações anatômicas, metabólicas e imunológicas. O ambiente sistêmico em indivíduos com obesidade é frequentemente rico em nutrientes, o que pode favorecer a persistência microbiana, além de apresentar resistência à insulina e hiperglicemia, fatores que sustentam o crescimento de patógenos. Adicionalmente, a inflamação crônica de baixo grau e a desregulação de vias imunológicas comprometem as defesas do organismo. Fatores mecânicos, como a redução da depuração de muco e do fluxo linfático, também contribuem para uma susceptibilidade generalizada.

Apesar dessas evidências mecanísticas e de estudos prévios que associaram a obesidade a infecções respiratórias e cutâneas, ainda há uma carência de uma avaliação robusta sobre o impacto da obesidade em todo o espectro de doenças infecciosas. Para preencher essa lacuna, Nyberg e colaboradores (2026) realizaram um estudo prospectivo que analisou as associações entre o excesso de peso e 925 doenças infecciosas graves, categorizadas por cronicidade e tipo de patógeno, visando estimar a proporção de mortes por infecções atribuíveis à obesidade em nível global e regional.

Para isso, eles combinaram dados individuais de dois estudos finlandeses (Finnish Public Sector e Health and Social Support) e realizaram a replicação dos achados em uma coorte independente do UK Biobank, totalizando uma amostra de mais de 540.000 participantes. Foram incluídos adultos sem histórico recente de hospitalizações por infecções na linha de base, sendo excluídos indivíduos com baixo peso (IMC <18,5 kg/m²), valores de IMC implausíveis (>70 kg/m²) ou dados faltantes. A adiposidade foi avaliada primordialmente através do Índice de Massa Corporal (IMC), coletado entre 1998 e 2010, e os participantes foram classificados em peso saudável (18,5–24,9 kg/m²), sobrepeso (25,0–29,9 kg/m²) ou obesidade, esta última subdividida em classes I (30,0–34,9 kg/m²), II (35,0–39,9 kg/m²) e III (≥40,0 kg/m²). Adicionalmente, foram analisados a circunferência abdominal e a relação cintura-estatura para avaliar a distribuição de gordura.

O desfecho principal foi a ocorrência do primeiro caso de infecção grave, definida como internação hospitalar não fatal ou óbito por causas infecciosas, identificados através de registros nacionais de saúde e mortalidade na Finlândia (até 2012-2016) e no Reino Unido (até 2022). O estudo abrangeu um espectro de 925 diagnósticos distintos, categorizados conforme a cronicidade (aguda ou crônica) e o tipo de patógeno (bacteriano, viral, parasitário ou fúngico). As infecções bacterianas foram subcategorizadas por local (invasivas ou localizadas), presença de sepse, tropismo celular e tipo de patógeno (Gram-positivo, Gram-negativo, micobacteriano ou micoplasma), enquanto as virais foram agrupadas em agudas ou persistentes.

Para a análise estatística, foram utilizados modelos de riscos proporcionais de Cox para estimar as razões de risco (HR) associadas às categorias de IMC, ajustadas inicialmente por idade e sexo, e posteriormente por uma gama de covariáveis basais, incluindo fatores socioeconômicos, estilo de vida (tabagismo, álcool, atividade física) e comorbidades (diabetes, doenças cardiometabólicas e respiratórias, neoplasias e depressão). Além disso, os pesquisadores integraram as estimativas de risco derivadas das coortes com dados de prevalência de obesidade e mortalidade por doenças infecciosas do banco de dados Global Burden of Diseases (GBD). Isso permitiu calcular a fração atribuível populacional (PAF), estimando a proporção de mortes por infecções global e regionalmente atribuíveis à obesidade nos anos de 2018 (pré-pandemia), 2021 (durante a pandemia de COVID-19) e 2023 (pós-pandemia).

Os resultados do estudo, que incluiu 67.766 adultos nas coortes finlandesas e 479.498 no UK Biobank, revelaram uma associação robusta e do tipo dose-resposta entre a obesidade e o risco de infecções graves. Durante o período de acompanhamento, foram documentados 8.230 casos incidentes de infecção na Finlândia e 81.945 no Reino Unido. Em comparação com indivíduos de peso saudável, aqueles com obesidade classe III (IMC ≥40 kg/m²) apresentaram um risco aproximadamente três vezes maior de hospitalizações relacionadas a infecções e de óbito por causas infecciosas. Para qualquer grau de obesidade (classes I a III), a razão de risco (hazard ratio) agrupada para infecções graves foi de 1,7.

A análise de subgrupos e categorias de doenças evidenciou que essa vulnerabilidade foi abrangente, afetando quase todos os tipos de patógenos e mantendo-se consistente independentemente de fatores demográficos ou condições clínicas basais. Entre as 925 doenças analisadas, as associações mais acentuadas foram observadas para infecções da pele e tecidos moles, seguidas por infecções virais, com destaque para as agudas e infecções bacterianas.

Especificamente para a COVID-19, o risco foi 2,3 vezes maior em indivíduos com obesidade. É importante notar que não foram encontradas associações positivas para HIV ou tuberculose, nestes casos, houve inclusive uma tendência de associação inversa ou nula, possivelmente devido à natureza do emagrecimento patológico característico dessas doenças.

O estudo também demonstrou que a variação ponderal ao longo do tempo influenciou o risco infeccioso. O ganho de peso de uma categoria saudável ou sobrepeso para a obesidade aumentou o risco em 1,3 vezes, enquanto a perda de peso foi associada a uma redução modesta na incidência de infecções graves. Além do IMC, outros indicadores de adiposidade, como a circunferência abdominal e a relação cintura-estatura, mostraram resultados concordantes, indicando que a distribuição da gordura corporal também é um preditor relevante.

Por fim, ao projetar esses achados em nível populacional global através dos dados do Global Burden of Diseases, estimou-se que a fração atribuível populacional (PAF) de mortes por infecções devido à obesidade foi de 8,6% em 2018. Esse impacto cresceu significativamente durante a pandemia da COVID-19, atingindo 15,0% em 2021, e estabilizou-se em 10,8% no período pós-pandemia (2023). Em termos absolutos, isso representou cerca de 0,6 milhão de mortes por infecções atribuíveis à obesidade em 2023, reforçando que aproximadamente uma em cada dez mortes por causas infecciosas no mundo pode ser creditada ao excesso de adiposidade.

Em suma, o estudo reforçou que a obesidade em adultos deve ser reconhecida como um fator de risco independente e robusto para hospitalizações e mortalidade por uma vasta gama de doenças infecciosas graves, independentemente do tipo de patógeno ou do perfil clínico basal do paciente. Os dados projetados indicaram que aproximadamente uma em cada dez mortes por causas infecciosas em nível global pode ser atribuída à obesidade, apresentando um padrão de dose-resposta evidente no qual o risco de desfechos graves aumenta progressivamente com a elevação das classes de IMC.

O estudo também destacou o potencial terapêutico da redução de peso na mitigação deste risco. Diante deste cenário, os autores enfatizaram que a obesidade deve receber prioridade nas estratégias de saúde pública voltadas para a prevenção de doenças transmissíveis. Isso inclui a integração sistemática de intervenções de controle de peso baseadas em evidências e a consideração da adiposidade como critério relevante em programas de vacinação para grupos de alto risco, visando reduzir de forma sustentada o ônus global de mortalidade por infecções graves.


Fonte: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(25)02474-2/fulltext