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/ Publicado el 15 de abril de 2026

Saúde cardiovascular

American Heart Association atualiza diretrizes sobre padrões alimentares para a saúde cardiovascular

Atualização reforça a importância de padrões alimentares saudáveis ao longo da vida e detalha os principais pilares dietéticos para a prevenção e o manejo das doenças cardiovasculares.

Autor/a: AMERICAN HEART ASSOCIATION

Fuente: Circulation, Dallas, 2026. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001435 2026 Dietary Guidance to Improve Cardiovascular Health: A Scientific Statement From the American Heart Association

A baixa qualidade da dieta é um fator importante para o aumento do risco de morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV). Por isso, a American Heart Association forneceu uma atualização para orientar a otimização da saúde cardiovascular através dos alimentos. Abaixo, a IntraMed Brasil apresenta um resumo do documento.

Foco em padrões alimentares

As orientações sobre padrões alimentares têm como objetivos garantir a adequação nutricional, apoiar a saúde cardiovascular e o bem-estar geral e oferecer flexibilidade para acomodar preferências pessoais. Em geral, os padrões alimentares saudáveis para o coração são compostos principalmente por vegetais e frutas, grãos integrais, fontes saudáveis de proteínas, óleos vegetais líquidos não tropicais (por exemplo, óleos de soja, canola e oliva) e alimentos minimamente processados. Além disso, apresentam baixo consumo de bebidas e alimentos com elevadas quantidades de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio.

Padrões alimentares com maior proporção de alimentos de origem vegetal e menor de produtos de origem animal têm sido associados a menor risco de doença arterial coronariana, bem como a fatores de risco mais favoráveis e perfis metabolômicos mais benéficos relacionados a essa doença.

Adotar padrões alimentares saudáveis para o coração ao longo do curso da vida

As origens das DCVs começam precocemente na vida. O estabelecimento de um padrão alimentar saudável, desde o período pré-natal, é fundamental para a manutenção da saúde cardiovascular ao longo de todo o curso da vida. Por exemplo, padrões alimentares maternos antes da gravidez foram associados ao risco de diabetes gestacional e de distúrbios hipertensivos da gestação.

Além disso, os padrões alimentares nas fases iniciais da vida foram relacionados não apenas a parâmetros cardiovasculares na infância, como obesidade, síndrome metabólica, hipertensão, dislipidemia e diabetes tipo 2, mas também aos padrões alimentares ao longo da vida e ao risco cardiovascular futuro. Assim, recomendou-se adotar um padrão alimentar saudável para o coração para crianças a partir de 1 ano de idade, sendo este um componente-chave de uma trajetória favorável de saúde cardiovascular ao longo da vida adulta.

Características dos padrões alimentares que promovem a saúde cardiovascular

1.      Ajustar a ingestão e o gasto de energia para alcançar e manter um peso corporal saudável

A manutenção de um peso corporal saudável ao longo da vida é fundamental para a otimização da saúde cardiovascular. O excesso de gordura corporal contribui para o desenvolvimento do diabetes tipo 2, da hipertensão e da síndrome cardiometabólica renal, impactando negativamente a saúde cardiovascular.

A ingestão excessiva de calorias associada à prática insuficiente de atividade física resulta em balanço energético positivo e, consequentemente, em sobrepeso e obesidade. As necessidades energéticas individuais dependem de diversos fatores, como idade, sexo, altura, peso, nível de atividade física e estado gestacional ou de lactação. A ingestão energética deve ser ajustada para alcançar e manter um peso corporal saudável.

Crianças em idade pré-escolar devem ser fisicamente ativas ao longo de todo o dia. Crianças mais velhas e adolescentes devem realizar pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa. Os adultos devem praticar, no mínimo, 150 minutos por semana de atividade física moderada a vigorosa.

Uma variedade de padrões alimentares, como a Dietary Approaches to Stop Hypertension (DASH), o padrão mediterrâneo, o pescetariano e o vegetariano ovo/lacto, podem apoiar a saúde cardiovascular e estão alinhadas ao alcance e à manutenção de um peso corporal saudável. Algumas dietas populares para perda de peso podem gerar benefícios de curto prazo, mas apresentam impacto cardiovascular de longo prazo incerto e podem até agravar fatores de risco cardiovascular.

2.      Consumir vegetais e frutas com uma ampla variedade

Vegetais e frutas integrais ou minimamente processados são componentes centrais dos padrões alimentares saudáveis para o coração. Esses alimentos foram associados à benefícios na saúde cardiovascular, incluindo perfis lipídicos sanguíneos, pressão arterial e controle do diabetes tipo 2. Além disso, fornecem nutrientes essenciais e, quando consumidos em sua forma íntegra, em vez de sucos, oferecem quantidades importantes de fibras alimentares.

3.      Prefira alimentos preparados majoritariamente com grãos integrais, em vez de grãos refinados

Um conjunto robusto de evidências demonstrou que o consumo regular de alimentos à base de grãos integrais, em comparação com a ingestão pouco frequente, foi associado a menores riscos de DCVs, doença arterial coronariana, acidente vascular encefálico, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, além de fatores de risco cardiovascular mais favoráveis, incluindo pressão arterial, lipídios sanguíneos e controle glicêmico.

Ensaios clínicos randomizados de alimentação controlada demonstraram que a substituição de grãos refinados por grãos integrais resultou em melhorias nos fatores de risco cardiovascular. Além disso, dietas ricas em fibras e grãos integrais foram associadas à modulação favorável da microbiota intestinal, à melhora do trânsito intestinal e à redução de citocinas inflamatórias.

4.      Escolher fontes saudáveis de proteína

A proteína é um nutriente essencial para o crescimento, o desenvolvimento e a saúde geral, entretanto, a relação entre a sua quantidade e a saúde cardiovascular é incerta. Assim, as recomendações sobre proteína concentram-se na promoção de fontes proteicas saudáveis para o coração, determinadas predominantemente pelo perfil de ácidos graxos e pelo teor de fibras.

As leguminosas (feijões, ervilhas e lentilhas) e as oleaginosas são boas fontes de proteína e ricas em gorduras insaturadas e fibras. Padrões alimentares com maior consumo de leguminosas e/ou oleaginosas e menor consumo de carnes vermelhas e processadas têm sido associados a menor risco de DCV e de doença arterial coronariana. A disponibilidade de alternativas vegetais à carne pode ajudar a diversificar as escolhas de proteínas, no entanto, é necessário cautela, pois muitas dessas opções são ultraprocessadas e contêm adição de açúcares, sódio, estabilizantes e conservantes.

Em relação ao consumo de peixes e frutos do mar não fritos, estudos concluíram que esses alimentos foram associados a menor incidência geral de eventos cardiovasculares e menor risco de infarto do miocárdio. Essas associações podem ser atribuídas ao seu conteúdo de ácidos graxos ômega-3, à substituição de outras fontes de proteína animal que tendem a ser ricas em gorduras saturadas e pobres em gorduras insaturadas, ou a ambos os fatores. A suplementação isolada com óleo de peixe não demonstrou reduzir o risco de DCV em adultos saudáveis e, em algumas pessoas, pode estar associada a um aumento do risco de fibrilação atrial.

Os potenciais benefícios dos produtos lácteos com baixo teor de gordura ou sem gordura, em comparação com os integrais, ainda não foram totalmente definidos e continuam sob controvérsias.  Entretanto, independentemente do teor de gordura, levantou-se a possibilidade de que o consumo de laticínios fermentados, como iogurte e kefir, que contêm bactérias vivas, possa trazer benefícios cardiovasculares em função das modificações que promovem na microbiota intestinal. No entanto, as implicações clínicas de longo prazo dessas alterações ainda não foram determinadas. Diante das evidências disponíveis, é prudente, no momento, manter a orientação anterior de substituir as principais fontes de gorduras saturadas, incluindo a gordura presente nos laticínios, por fontes de gorduras insaturadas, bem como optar por produtos lácteos sem gordura ou com baixo teor de gordura.

Em síntese, padrões alimentares com maior proporção de fontes vegetais de proteína e menor consumo de proteínas de origem animal foram associados a melhor saúde cardiovascular. Quando houver consumo de proteína animal, deve-se minimizar a ingestão de carnes processadas, priorizar cortes magros de carnes não processadas e reduzir a ingestão total, limitando o tamanho das porções e a frequência de consumo.

5.      Escolha fontes de gorduras insaturadas no lugar das saturadas

Evidências de ensaios clínicos demonstraram que a substituição de fontes de gorduras saturadas por fontes poli-insaturadas e, em menor grau, monoinsaturadas reduz as concentrações de colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDLC), um fator de risco causal para as DCVs.

Gorduras de origem animal (por exemplo, sebo bovino e manteiga) e óleos tropicais apresentam teores relativamente elevados de gordura saturada, enquanto óleos vegetais não tropicais (por exemplo, óleo de soja, canola e oliva) são relativamente ricos em gorduras insaturadas. Evidências demonstraram que a substituição da manteiga por óleos vegetais e pastas predominantemente compostas por gorduras insaturadas reduz as concentrações de LDLC. Evidências limitadas indicaram que essa substituição também foi associada a menor risco de morbidade e mortalidade por DCV.

6.      Escolha alimentos minimamente processados em vez dos ultraprocessados

Diversos estudos relacionaram os padrões alimentares ricos em alimentos ultraprocessados a diversos desfechos adversos à saúde, incluindo sobrepeso e obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas. As evidências sobre os mecanismos de ação dessa associação são limitadas, possivelmente devido à ampla gama de fatores causais potenciais dentro dessa categoria heterogênea de alimentos.

7.      Minimize a ingestão de açúcares adicionados em bebidas e alimentos

Padrões alimentares com alto teor de açúcares adicionados foram consistentemente associados a desfechos cardiovasculares adversos e a maior risco de DCVs. Revisões sistemáticas demonstraram associação entre o consumo de bebidas adoçadas com açúcar e maior risco de obesidade, diabetes tipo 2, doença arterial coronariana e mortalidade cardiovascular.

Estimativas indicaram que adultos que consomem ≥25% da ingestão energética total proveniente de açúcares adicionados apresentam um risco quase três vezes maior de mortalidade por DCV em comparação com aqueles que consomem <10%.

8.      Escolha alimentos com baixo teor de sódio e com pouco ou nenhum sal adicionado

De modo geral, a ingestão de sódio e de potássio exercem efeitos opostos sobre a pressão arterial, que é o principal fator de risco modificável para mortalidade evitável. O aumento da ingestão de cloreto de sódio (sal) eleva a pressão arterial, enquanto o de potássio a reduz. Em geral, os efeitos da redução do sódio sobre a pressão arterial tendem a ser mais pronunciados em pessoas negras, em adultos de meia-idade e idosos, e em indivíduos com hipertensão e diabetes.

As evidências de um efeito independente do potássio na redução da pressão arterial são consistentes, porém menos robustas do que as evidências correspondentes para o sódio. A AHA apoiou uma abordagem que combina a redução da ingestão de sódio e o aumento da ingestão de potássio para a prevenção e o controle da hipertensão. Essa estratégia pode incluir a redução do sódio no contexto de uma dieta rica em potássio, como aquela com alto consumo de vegetais e frutas, ou a substituição do sal de cozinha comum (cloreto de sódio) por substitutos de sal enriquecidos com potássio, que apresentam menor teor de sódio.

Entretanto, permanecem muitas questões em relação a essa última abordagem, especialmente quanto à relevância dos substitutos de sal em populações nas quais a principal fonte de sódio são alimentos preparados comercialmente e ao risco teórico de hipercalemia em pessoas com excreção urinária de potássio comprometida.

9.      Limite a ingestão de álcool

A relação entre a ingestão de álcool e a pressão arterial (e o risco de hipertensão) parece ser linear e progressiva, iniciando-se mesmo em níveis baixos de consumo.

Com base em evidências mais recentes, as diretrizes de manejo da pressão arterial da American Heart Association/American College of Cardiology de 2025 recomendaram evitar o consumo de álcool para a prevenção ou o tratamento da pressão arterial elevada e da hipertensão. Além disso, também foi recomendado evitar seu consumo para reduzir o risco de determinados tipos de câncer, incluindo o oral, de esôfago, de mama, de fígado e colorretal

10. Benefícios adicionais dos padrões alimentares saudáveis para o coração

Os padrões alimentares saudáveis ao coração são ricos em alimentos e bebidas com alta densidade nutricional, fornecendo vitaminas, minerais e outros componentes que promovem a saúde geral. Seguir esse padrão atende às necessidades nutricionais da maioria das pessoas. Um benefício importante de obter nutrientes por meio dos alimentos, em vez de suplementos, é a presença concomitante de fitoquímicos que podem trazer benefícios adicionais à saúde, além de evitar o risco de consumo excessivo de nutrientes isolados.

Além disso, esse padrão alimentar é rico em fibras, que contribui a função gastrointestinal, fornecendo substrato energético para a microbiota intestinal e desempenhando um papel na regulação da glicemia. O consumo desses carboidratos foi associado a menor risco de DCVs, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. Boas fontes de fibras incluem vegetais, frutas, grãos integrais, oleaginosas, leguminosas e sementes.

Por fim, as dietas saudáveis para o coração são, em geral, compatíveis com padrões alimentares recomendados para a redução do risco de outras condições crônicas, como diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer, doença renal e saúde cognitiva.