| Introdução |
A obesidade é um grande problema de saúde e está associada à disfunção cognitiva e a alterações estruturais no cérebro. Além disso, foi relacionada a um aumento de 60% a 90% no risco de desenvolver demência. Ademais, está inversamente correlacionada ao volume e à integridade da substância cinzenta (SC) e branca (SB), respectivamente. Essas alterações cerebrais podem ser induzidas pela redução do fluxo sanguíneo cerebral (FSC).
Para reduzir as potenciais consequências que a obesidade pode causar no cérebro, a perda de peso a longo prazo é importante. A cirurgia bariátrica (CB) leva a um emagrecimento rápido e sustentável e melhora das comorbidades. Além disso, foi associada à melhora na função e na estrutura cerebral. No entanto, os resultados são contraditórios, os mecanismos subjacentes permanecem em grande parte desconhecidos, e é incerto se os resultados são duradouros.
Por isso, Custers e colaboradores (2024) realizaram um estudo com o objetivo de investigar as associações a longo prazo da perda de peso após cirurgia bariátrica na cognição, estrutura e perfusão cerebral.
| Métodos |
Para o estudo de coorte, foram incluídos pacientes do estudo Bariatric Surgery Rijnstate and Radboudumc Neuroimaging and Cognition in Obesity study. Dados de participantes com obesidade grave (índice de massa corporal [IMC] >40, ou >35 com comorbidades) elegíveis para bypass gástrico em Y de Roux e com idades entre 35 e 55 anos foram recrutados em um hospital especializado em cirurgia bariátrica. Os participantes foram recrutados entre setembro de 2018 e dezembro de 2020, com acompanhamento até março de 2023. Os dados foram coletados antes da cirurgia bariátrica e aos 6 e 24 meses após a mesma e analisados de março a novembro de 2023.
Os desfechos primários incluíram peso corporal, IMC, circunferência da cintura, pressão arterial, uso de medicamentos, desempenho cognitivo, volumes cerebrais, espessura cortical e fluxo sanguíneo cerebral (FSC). Os secundários abrangeram citocinas, adipocinas, sintomas depressivos (avaliados usando o Inventário de Depressão de Beck [BDI] e atividade física (avaliada usando o Questionário Baecke).
| Resultados |
Um total de 133 participantes (idade média [desvio padrão], 46,8 [5,7] anos; 112 [84,2%] mulheres e 21 homens [15,8%]) foram incluídos. Em geral, o peso corporal médio, IMC, circunferência da cintura e pressão arterial foram significativamente menores aos 6 e 24 meses após a cirurgia bariátrica. Comparado com o início, o uso de medicamentos para comorbidades foi reduzido aos 24 meses.
No total, 42,9% dos participantes apresentaram melhora de pelo menos 20% na função cognitiva global após a cirurgia. Além disso, a perda de peso foi associada a um menor uso de medicamentos e sintomas depressivos e a uma maior atividade física.
Mudanças cerebrais foram observadas após a cirurgia. O volume e a espessura cortical foram significativamente menores. Várias outras regiões, como amígdala, putâmen, ínsula, giro do cíngulo e córtex occipital, parietal e temporal, apresentaram volumes significativamente menores Não foram observadas mudanças volumétricas no hipocampo, núcleo accumbens, córtex frontal ou WM. A espessura cortical de todas as regiões foi significativamente menor, exceto a do córtex temporal, que foi maior. Além disso, o fluxo sanguíneo foi menor em várias regiões corticais e subcorticais, incluindo núcleo caudado, putâmen, ínsula, córtex frontal e occipital, no entanto, não foi observada uma mudança no córtex temporal, córtex parietal e núcleo accumbens. Notavelmente, o córtex temporal não apenas apresentou maior espessura cortical, mas também uma eficiência vascular maior após a cirurgia. Esses resultados destacaram as respostas vasculares benéficas que ocorrem em conjunto com a cirurgia bariátrica.
Após a cirurgia bariátrica, a saúde geral também mudou, incluindo a redução da pressão arterial, dos marcadores inflamatórios e da leptina e um aumento da adiponectina. Ademais, foram observados níveis mais altos de biomarcadores sanguíneos associados ao cérebro para danos axonais (ou seja, NFL) e neurogênese (ou seja, BDNF).
Scores maiores na pontuação Montreal Cognitive Assessment (MOCA) e em outros testes neuropsicológicos foram obtidas no início do estudo, sugerindo que a obesidade não prejudicou o desempenho cognitivo de forma clínica. No entanto, a cognição melhorou significativamente após a cirurgia bariátrica, com as maiores melhorias observadas na atenção e fluência verbal. Observou-se um desempenho significativamente melhorado em todos os domínios cognitivos aos seis meses após a cirurgia bariátrica, e esses duraram até o acompanhamento de dois anos após a cirurgia. Esses achados sugeriram que as melhorias cognitivas começaram pouco depois da cirurgia bariátrica e foram duradouras. Vários fatores podem estar envolvidos, incluindo remissão de comorbidades, maior atividade física, menor sintomas depressivos e menores fatores inflamatórios após a cirurgia bariátrica.
| Conclusão |
Os resultados indicaram que a melhoria cognitiva foi sustentada em aproximadamente 40% dos participantes aos 24 meses após a cirurgia bariátrica, potencialmente devido à menor inflamação e secreção de adipocinas, remissão de comorbidades, maior atividade física e melhora do humor. Essas mudanças foram refletidas pela estabilização ou aumento dos volumes, espessura cortical e eficiência dos vasos sanguíneos. Em conjunto, esses resultados forneceram novas informações sobre os desfechos a longo prazo associados à perda de peso relacionada à cirurgia bariátrica na cognição e na estrutura e perfusão cerebral, embora os mecanismos subjacentes exatos permaneçam não esclareciso. Estudos futuros devem incluir grupos de controle e outros mecanismos para esclarecer as mudanças cognitivas e cerebrais após a cirurgia bariátrica. Tais podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias para reduzir o risco de obesidade e doenças neurodegenerativas.