Noticias médicas

Publicado el 17 de abril de 2025

Atualidades

Avanços em saúde infantil no mundo correm risco de retrocesso, devido a cortes de financiamento

Cortes de financiamento em programas da ONU podem influenciar na assistência vital de 58 milhões de pessoas

No último mês de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou relatório alarmante sobre um possível retrocesso nos avanços em saúde infantil no mundo. O aviso vem em momento de corte de financiamento de programas da ONU por parte de doadores, principalmente dos Estados Unidos. Em comparação a 2024, o orçamento da entidade é 40% menor, o que impacta diretamente os programas de auxílio organizados pela entidade.

Segundo dados publicados pelo Unicef, cerca de 14 milhões de crianças serão impactadas por paralisações em programas e serviços de assistência nutricional em 17 países prioritários. Alexandra Brentani, professora do Departamento de Pediatria e diretora do Centro de Desenvolvimento Infantil da Faculdade de Medicina da USP, ressaltou as consequências que esse corte terá na saúde infantil. “A redução do financiamento externo vai ter como consequência um aumento ainda maior das desigualdades, uma vez que justamente os países mais pobres, que dependem desse tipo de recurso para garantir o oferecimento dos serviços básicos, são os mais afetados.”

Mortalidade infantil

Em 2022, as taxas de mortalidade infantil (crianças até 5 anos) e neonatal atingiram marca histórica, alcançando pela primeira vez um índice menor que 5 milhões de mortos. Contudo, a queda vem desacelerando com o passar dos anos. Desde 2015, a taxa anual de redução da mortalidade de menores de 5 anos desacelerou em 42%, e a redução de natimortos desacelerou em 53% em comparação com os anos 2000-2015. “Só em 2024, segundo o relatório das Nações Unidas, mais de 4 milhões de crianças não conseguiram alcançar o seu quinto aniversário. Em grande parte, essas mortes aconteceram por causas evitáveis. Ou seja, se houvesse acesso a serviços de saúde, acompanhamento pré-natal ou uma assistência adequada durante o parto, essas mortes poderiam ter sido prevenidas”, comentou a professora.

O corte de financiamento está causando uma escassez de trabalhadores da saúde, fechamento de clínicas, interrupção de programas de vacinação e falta de suprimentos essenciais. Além disso, os cortes podem influenciar no monitoramento e rastreamento de crianças vulneráveis. O impacto dessa queda de auxílio financeiro é muito perceptível em países pobres. Alexandra acredita que programas como os realizados pela ONU são essenciais, visto que o dinheiro investido nessas iniciativas auxilia em programas de imunização, nutrição, saneamento, água potável e serviços de saúde materno-infantil, principalmente em países em crise financeira ou humanitária.

Estruturas de saúde de qualidade são imprescindíveis para garantir o atendimento pleno às necessidades básicas de crianças até 5 anos e durante o parto. De acordo com dados publicados no relatório, quase metade das mortes até 5 anos acontece no primeiro mês de vida e 45% dos natimortos tardios acontecem durante o parto. A professora afirmou que a prematuridade tem sido um fator em crescimento para esses altos índices, mas não é o único motivo. “Muitas mortes poderiam ser evitadas por intervenções efetivas, como o acompanhamento pré-natal de qualidade, a assistência qualificada durante o parto e uma atenção à saúde do recém-nascido. O que nós vemos é uma enorme disparidade no acesso a esse tipo de serviço, afetando de uma forma desproporcional as populações mais vulneráveis”, complementa Alexandra.

Urgência de soluções

A crise de financiamento ocorre em momento de necessidades sem precedentes para a garantia da saúde infantil. Níveis recordes de deslocamento, novos conflitos no mundo, surtos de doenças e mudanças climáticas drásticas são fatores que impulsionam essa urgência. Para Alexandra, as pesquisas precisam continuar para garantir formas de enfrentamento a essas novas dificuldades mundiais. Diminuir as desigualdades é fundamental para garantir o acesso a redes de saúde de qualidade às crianças e mães necessitadas de auxílio. “A gente não pode deixar que uma criança tenha mais ou menos chances de sobreviver em função do seu local de nascimento. Isso precisa ser uma prioridade não só para a pesquisa, mas para a gestão pública, para o financiamento e para a comunidade como um todo”, ressaltou a docente. Além das crianças, cerca de 58 milhões de pessoas correm risco de perder a assistência vital de programas realizados pela OMS, segundo dados do Unicef.