| Introdução |
A eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública depende da alta cobertura populacional da vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), do rastreamento oportuno e do tratamento adequado de lesões pré-cancerosas. No entanto, a cobertura do rastreamento (CCS, sigla em inglês para cervical cancer screening) nos EUA tem diminuído nos últimos anos, especialmente entre populações vulneráveis, como pessoas sem seguro, residentes em áreas rurais e indivíduos de grupos raciais, étnicos, sexuais e de gênero minoritários.
A autocoleta de amostras vaginais para teste primário de HPV tem se mostrado uma alternativa eficaz a triagem em consultório, com precisão semelhante à da coleta profissional, alta aceitabilidade e potencial para ampliar a cobertura, sobretudo entre pessoas nunca rastreadas. A recente aprovação pela Food and Drug Admininstration (FDA) para uso clínico e a eficácia demonstrada em programas com kits enviados por correio reforçam sua aplicabilidade, embora grande parte das evidências venha de países com sistemas de saúde universal.
Nos EUA, sua adoção ainda requer evidências específicas, especialmente em sistemas de saúde de "rede de segurança" que atendem populações vulneráveis e com baixa cobertura. Nesses contextos, a orientação da paciente pode ser fundamental para superar barreiras como linguagem, baixa literacia em saúde e desconfiança no sistema, fortalecendo a adesão ao rastreamento por autocoleta.
Diante disso, o estudo clínico randomizado Prospective Evaluation of Self-Testing to Increase Screening (PRESTIS) avaliou a eficácia da autocoleta enviada por correio como estratégia para ampliar a triagem entre pessoas nunca rastreadas ou com rastreamento desatualizado atendidas por sistemas de saúde de “rede de segurança” nos EUA.
| Métodos |
Foram incluídas 2.474 participantes, com idades entre 30 e 65 anos, randomizadas em três grupos: lembrete telefônico (TR) com convite para triagem em consultório; TR com envio de kit de autocoleta (SC); e TR com SC e orientação da paciente. O estudo foi conduzido no Harris Health System, que atende majoritariamente populações vulneráveis no Texas, onde a cobertura do rastreamento era de 68,2% em 2020.
Os critérios de inclusão consideraram histórico médico, número de visitas ambulatoriais, ausência de rastreamento recente e adesão a algum plano de saúde aceito pelo sistema. Após o contato telefônico inicial, as participantes elegíveis foram randomizadas por sequência automatizada, sem conhecimento prévio da alocação.
Os kits de autocoleta incluíam swab vaginal, manual de instruções, envelope de retorno pré-pago e materiais informativos. As amostras foram analisadas em laboratório certificado com teste molecular para HPV de alto risco. Participantes com testes positivos foram encaminhadas para citologia ou colposcopia, conforme diretrizes da Sociedade Americana de Colposcopia e Patologia Cervical, com apoio de navegação para facilitar o seguimento. Além disso, aquelas que não retornaram o kit em até três semanas no grupo com navegação receberam uma nova ligação. Em casos de amostras insatisfatórias, um segundo kit foi enviado.
O desfecho primário foi a participação no rastreamento em até seis meses, definida pelo retorno do kit ou comparecimento na triagem do consultório. Os desfechos secundários incluíram a modalidade utilizada, positividade dos testes e conclusão do seguimento clínico, enquanto os exploratórios abrangeram o diagnóstico histológico e o tratamento de neoplasia intraepitelial cervical grau 2 ou superior. A amostra foi calculada para detectar uma diferença mínima de 6% entre os grupos, com 756 participantes por braço, totalizando 2.268 indivíduos.
| Resultados |
As taxas de participação no rastreamento foram significativamente maiores nos grupos com autocoleta: 41,1% (SC) e 46,6% (SC + orientação), comparadas a 17,4% no grupo TR. A autocoleta com acompanhamento apresentou leve vantagem em relação à autocoleta isolada, com diferença absoluta de 5,5%. Considerando conjuntamente os grupos que receberam o kit, a taxa de participação foi de aproximadamente 44%, equivalente a uma taxa relativa 2,5 vezes maior do que com TR, superando inclusive as médias observadas em estudos internacionais.
Entre as participantes que utilizaram a autocoleta, 84,6% completaram a triagem ao devolver o kit. Dessas, 13,8% testaram positivo para HPV de alto risco, e cerca de dois terços realizaram o seguimento clínico — com maior adesão observada no grupo SC com orientação (68,8%).
Três casos de neoplasia intraepitelial cervical grau 2 ou superior foram detectados exclusivamente entre as que utilizaram a autocoleta. Apenas uma participante do grupo SC com navegação relatou evento adverso leve esperado (desconforto leve), sem registro de efeitos inesperados.
Esse desempenho superior ao de outros ensaios pode estar relacionado ao contexto populacional do estudo — mulheres que frequentemente enfrentam barreiras estruturais ao rastreamento tradicional. Além disso, o fato de todas as participantes terem recebido ligação telefônica de um navegador bilíngue com orientações pode ter potencializado a adesão, reduzindo o impacto incremental da navegação adicional.
| Conclusão |
O estudo PRESTIS reforçou a autocoleta como uma alternativa viável e eficaz para ampliar o rastreamento do câncer do colo do útero em contextos de vulnerabilidade. Diante das barreiras estruturais enfrentadas por populações atendidas por sistemas de “rede de segurança”, essa abordagem — especialmente quando combinada a estratégias simples de engajamento — pode contribuir de forma significativa para aumentar a cobertura e reduzir desigualdades em saúde.