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Publicado el 19 de enero de 2026

Idosos

Apenas 4 em cada 10 idosos que relatam sintomas depressivos recebem diagnóstico clínico

  • Enquanto 12,2% contam ter sido diagnosticados e 8,1% tomam medicamentos, 15,6% dos idosos relataram sintomas depressivos

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) em parceria com a University College London identificou um importante descompasso entre a presença de sintomas de depressão em idosos brasileiros e o reconhecimento clínico da condição. A análise utilizou dados do ELSI‑Brasil, coletados entre 2019 e 2021, envolvendo 6.872 participantes com 60 anos ou mais, representativos da população idosa do país.

Segundo os pesquisadores, 15,6% dos entrevistados relataram sintomas compatíveis com depressão, como sensação persistente de tristeza, solidão, alterações de sono ou perda de interesse nas atividades habituais. Contudo, apenas 12,2% afirmaram ter recebido diagnóstico médico, e 8,1% disseram fazer uso de medicamentos para o tratamento do transtorno. Considerando apenas os idosos que relataram sintomas depressivos, 62,7% não haviam recebido confirmação clínica, indicando possível subdiagnóstico significativo nessa faixa etária.

O levantamento utilizou duas estratégias complementares: perguntas diretas sobre diagnóstico médico prévio e uso de medicamentos, além de um conjunto de questões sobre bem‑estar, qualidade do sono e sentimentos relacionados ao humor. A comparação entre as duas abordagens revelou discrepâncias importantes, sugerindo que parte dos idosos apresenta sofrimento emocional não reconhecido nos serviços de saúde.

O estudo também identificou fatores associados a maior probabilidade de diagnóstico, como ser mulher, ter menos de oito anos de escolaridade e não praticar atividade física. Ainda assim, os autores destacaram que grande parte dos idosos que vivenciam sintomas não chega a ser formalmente avaliada, o que pode resultar em subtratamento e agravamento do quadro.

Para Jefferson Traebert, um dos responsáveis pela pesquisa, essa lacuna evidencia limitações históricas na forma como a depressão é identificada na população idosa. Ele lembra que, em 2017, estimativas já apontavam que metade dos idosos com depressão não recebia diagnóstico na Atenção Primária. Parte dessa dificuldade se deve à semelhança entre sintomas depressivos — como fadiga, alterações de sono, perda de libido, irritabilidade e queixas cognitivas — e manifestações frequentemente atribuídas ao processo natural de envelhecimento.

Traebert ressaltou que a escuta ativa do idoso deve ser valorizada como ferramenta clínica essencial. Para ele, modelos de cuidado que integrem autorrelato, instrumentos estruturados de rastreamento e avaliação profissional são fundamentais para ampliar a detecção do transtorno. O pesquisador salienta ainda que, diante do rápido envelhecimento populacional do Brasil, a saúde mental precisa ser reconhecida como um componente central do envelhecer com qualidade.

O artigo com os resultados completos foi publicado na Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS (RESS) e reforçou a necessidade de estratégias mais sensíveis e acolhedoras na rotina da Atenção Primária, ampliando o acesso ao diagnóstico e ao cuidado em saúde mental para a população idosa.