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/ Publicado el 27 de julio de 2022

Julho amarelo

Amostra de sangue seco para o diagnóstico de hepatite B e C

As amostras de sangue seco podem ser uma alternativa ao soro obtido por punção venosa.

Introdução

A hepatite viral é um importante desafio de saúde pública com uma estimativa de 257 milhões de pessoas vivendo com o vírus da hepatite B crônica (HBV) e 71 milhões infectadas com o vírus da hepatite C crônica (HCV).

O diagnóstico dessas patologias pode ser difícil em alguns grupos de ricos, como portadores da doença renal crônica (DRC) em hemodiálise, coagulopatias e HIV, devido à dificuldade de coleta de amostra de sangue por punção venosa, sua localização remota e falta de assistência à saúde. Além disso, a biossegurança é um problema sempre presente considerando amostra de soro, pois o seu transporte e o armazenamento devem seguir as obrigatoriedades da vigilância sanitária.

As amostras de sangue seco (DBS, sua sigla em inglês) podem ser uma alternativa ao soro obtido por punção venosa, o que aumentaria o diagnóstico. Essas amostras são facilmente coletadas por punção digital e podem ser transportadas e armazenadas a temperatura ambiente.

A maioria dos estudos com o objetivo de detectar marcadores de hepatite em DBS empregaram imunoensaios (ELISA), mas recentemente alguns laboratórios substituíram esse método por ensaio imunoenzimático com eletroquimioluminescência (ECLIA, sua sigla em inglês), por ser uma técnica altamente precisa que apresenta um baixo limite de detecção e entrega resultados de maneira mais rápida. No entanto, não havia informações sobre o desempenho do ECLIA para a detecção de marcadores do HBV e HCV em amostras de DBS em populações-chave, como pacientes com coagulopatias, DRC ou HIV.

O objetivo do estudo desenvolvido por Flores e colaboradores (2020) foi investigar a suposta influência da infecção por HIV, bem como alterações fisiopatológicas em indivíduos com coagulopatias (hemofilia e doença de von Willebrand), HIV ou DRC, no desempenho do ECLIA otimizado para a detecção de marcadores HBsAg, anti-HBc e anti-HCV em amostras de sangue seco.

Métodos

Um total de 430 indivíduos com diagnóstico de HIV, coagulopatias e DRC forneceram amostras pareadas de soro e DBS. A técnica ECLIA foi utilizada para a avaliação dos anticorpos HBsAg, anti-HBc e anti-HCV nas amostras de sangue seco (Elecsys anti-HCV II, Elecsys HBsAg II e Elecsys anti-HBc II – Roche Diagnostics) e soro seguindo as instruções do fabricante. No ensaio anti-HCV e HBsAg, amostras com valores amostra/corte < 1,0 foram consideradas não reativas, enquanto para o ensaio anti-HBc, as amostras não reativas tinham ter um valor de amostra/corte de > 1,0.

Resultados

> Pacientes com doença renal crônica

Entre os pacientes com DRC (n = 284), os anticorpos HBsAg, anti-HBc e anti-HCV foram detectados no soro de 4,6%, 39,9% e 16,3%, respectivamente. Em contrapartida, nas amostras de sangue seco os anticorpos foram identificados em 4,9%, 33,6% e 15,9%, respectivamente.

Neste grupo, o melhor desempenho foi observado para HBsAg (sensibilidade de 100% e 99,6% especificidade) seguido de anti-HCV (93,5% de sensibilidade e 99,2% de especificidade) e anti-HBc (79,6% de sensibilidade e 97,1% de especificidade).

A maioria dos pacientes com DRC era do sexo masculino (62,7%), com mais de 30 anos (93,0%) e negros (72,4%). Os comportamentos de maior risco foram: compartilhar cortador de unha/lâminas/escovas de dentes (66,9%), transfusão prévia de plasma ou sangue (63,3%), uso inconsistente de preservativos (74,4%) e hemodiálise até 3 vezes por semana (89,5%).

> Pacientes com HIV

Entre as pessoas vivendo com HIV (n = 95), a média de idade foi de 44,1 anos. A maioria era do sexo masculino (61,1%), solteiro (64,8%) e que relataram compartilhar cortador de unhas/lâminas/escovas de dentes (74,5%). A prevalência de anticorpos HBsAg+, anti-HBc+ e anti-HCV no soro foi de 21,0%, 40,0% e 25,5%, respectivamente, enquanto na amostra de DBS foi de 22,1%, 45,6% e 25,5%, respectivamente.

Neste grupo, o melhor desempenho foi observado para anti-HCV (100% de sensibilidade e especificidade) seguido por anti-HBc (97,2% de sensibilidade e 88,9% de especificidade) e HBsAg (85,0% de sensibilidade e 94,7% de especificidade).

> Pacientes com coagulopatias

Entre os pacientes com coagulopatia (n = 51), a média de idade foi de 31,3 anos e as principais características foram: sexo masculino (98,0%), solteiro (66,7%), preto (70,8%), que realizaram transfusão de sangue ou plasma (70,0%) e tiveram hemofilia grave (71,7%). A prevalência de cada anticorpo no soro foi de 3,9% para HBsAg, 31,4% para anti-HBc e 47,1% para anti-HCV, enquanto no DBS foi de 3,9%, 25,5% e 41,2%, respectivamente.

Neste grupo, o ensaio HBsAg demonstrou o melhor desempenho (100% de sensibilidade e especificidade) seguido de anti-HBc (81,3% de sensibilidade e 100% especificidade) e anti-HCV (sensibilidade de 83,3% e especificidade de 96,3%).

Discussão

O teste DBS para HBsAg, anti-HBc e anti-HCV usando ECLIA demonstrou alta sensibilidade e especificidade em todos os grupos. O primeiro anticorpo demonstrou o melhor desempenho em indivíduos com coagulopatia e pacientes com DRC. O terceiro demonstrou maior eficiência em indivíduos com DRC e HIV e a detecção do segundo foi mais precisa em pessoas com HIV. As diferenças observadas podem ser resultado de diferentes prevalências e comportamentos de risco, como exposição múltipla a produtos sanguíneos que possam interferir na eficiência do ensaio.

As prevalências de HBsAg e anti-HCV por soro e DBS foram semelhantes, demonstrando que o ECLIA junto com o DBS pode ser uma ferramenta potencial para o diagnóstico de indivíduos de populações-chave. Em contraste, a prevalência de anti-HBc variou de acordo com mais de 5% entre soro e DBS em todos os grupos avaliados.

Entre os pacientes com DRC, a positividade do HBsAg em DBS ou soro foi associada com o uso infrequente do preservativo demonstrando a importância das campanhas de saúde com foco no uso de preservativo. A positividade do anti-HBc no soro e DBS foi associada ao compartilhamento de cortadores de unha/navalha/escova de dentes e destacou a discussão sobre o papel das manicures na transmissão do VHB. Villar et al., (2014) encontraram uma prevalência de 5,9% de anticorpos anti-HBc em profissionais de beleza no sudeste do Brasil.

A positividade do anti-HCV no soro e DBS foi associada a história prévia de transplante em pacientes com DRC. Um estudo que avaliou o risco da infecção no receptor de transplante demonstrou que isso depende da prevalência e incidência do HCV em uma dada população e outras exposições de risco, como uso de drogas injetáveis, homens homossexuais e tatuagens.

Entre as pessoas vivendo com HIV, a positividade do HBsAg foi associada ao sexo masculino e transfusão de sangue e plasma no soro, e a positividade do anti-HBc foi associada ao sexo masculino usando os resultados de ambos os fluidos. No Brasil, a maioria dos indivíduos HBV eram do sexo masculino (54,5%), provavelmente devido à maior exposição aos fatores de risco, como promiscuidade e uso de drogas.

Conclusão

O estudo demonstrou a utilidade da detecção de HBsAg, anti-HBc e anti-HCV em DBS usando ECLIA em populações de alto risco. Amostras DBS são menos invasivas, mais fáceis que a punção venosa e podem aumentar o acesso ao diagnóstico em grupos os quais são difíceis tirar sangue. Ensaios automatizados como o ECLIA usando DBS aumentam a velocidade do diagnóstico, o que pode ser importante durante surtos em clínicas de hemoterapia, por exemplo.