Artículos

Publicado el 9 de julio de 2026

Psoríase

Agonistas do receptor de GLP-1 na psoríase: o que dizem as evidências atuais?

Revisão da National Psoriasis Foundation avaliou o papel dos GLP-1RAs no manejo da psoríase e suas comorbidades.

Autor/a: Sheth S, Merola JF, Weber BN, et al.

Fuente: JAMA Dermatol. 2026;162(6):619–630. doi:10.1001/jamadermatol.2026.0859 The National Psoriasis Foundation Primer on GLP-1 Receptor Agonists in Psoriasis:A Review

Introdução

psoríase é uma doença crônica imunomediada associada a comorbidades cardiovasculares, metabólicas, musculoesqueléticas, psiquiátricas, hepáticas, renais e pulmonares. O tecido adiposo atua como um órgão imunológico ativo na doença, secretando adipocinas pró-inflamatórias (como leptina, resistina e alterações na adiponectina) e amplificando os eixos IL-17/IL-23 e TNF-α, que impulsionam a doença cutânea.

A obesidade reduz a eficácia dos medicamentos biológicos, aumenta a gravidade da doença e foi associada de forma independente ao risco de artrite psoriásica. Desafios relacionados ao ajuste de dose pelo peso corporal, depuração acelerada dos medicamentos e ativação imune induzida pelo tecido adiposo contribuem para comprometer a resposta terapêutica. Essa intersecção fisiopatológica posiciona os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1 RAs) como terapias adjuvantes particularmente promissoras para pacientes com psoríase.

Os GLP-1RAs tornaram-se fundamentais no tratamento do diabetes mellitus tipo 2 devido aos seus efeitos metabólicos, que incluem o aumento da secreção pancreática de insulina, a redução da secreção de glucagon e o retardo do esvaziamento gástrico. Esses efeitos promovem a perda de peso, além de contribuírem para a redução do risco cardiovascular. Os GLP-1RAs também apresentam importantes efeitos anti-inflamatórios ao inibir as vias NF-κB, JNK e NLRP3, reduzindo citocinas pró-inflamatórias (TNFα, IL-1β e IL-6) e potencializando a sinalização da IL-10. Esses mecanismos não são relevantes apenas para o diabetes tipo 2, mas também estão envolvidos na fisiopatologia da psoríase.

Evidências emergentes sugeriram que os agonistas do receptor de GLP-1 e os agonistas duplos do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP)/GLP-1 podem melhorar a doença cutânea psoriásica, em parte por meio da modulação imunológica. No entanto, a maior parte desses dados provém de estudos prospectivos, pequenos ensaios clínicos ou análises do coorte. Com base nas evidências atualmente disponíveis, o Conselho Médico da National Psoriasis Foundation realizou uma revisão para avaliar o papel emergente dos GLP-1RAs no manejo da psoríase e suas comorbidades associadas.

Resultados

Os agonistas do receptor de GLP-1 foram associados à redução dos escores do Índice de Área e Gravidade da Psoríase (PASI), especialmente em pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2. Estudos relataram reduções relativas do PASI variando aproximadamente de 40% a 80%, acompanhadas por ganhos paralelos na qualidade de vida. No entanto, a maioria desses estudos foi de pequeno porte (7 a 48 pacientes), de curta duração (≤6 meses) e sem grupo controle.

A semaglutida e a liraglutida foram associadas à redução da proteína C-reativa, da interleucina-6, dos lipídios séricos e da adiposidade visceral. Em pequenas coortes translacionais, a melhora do PASI correlacionou-se com reduções da adiposidade superficial e da densidade de células T γδ na derme

 Os eventos adversos foram predominantemente sintomas gastrointestinais transitórios. Pancreatite e eventos relacionados à vesícula biliar foram raros. Embora as reações dermatológicas aos agonistas do receptor de GLP-1 sejam incomuns, foi observado eventos adversos como penfigoide bolhoso, paniculite eosinofílica, erupções morbiliformes, erupções medicamentosas fixas e hipersensibilidade dérmica. Alguns estudos relataram alopecia como um possível efeito adverso. Além disso, reações no local da injeção foram frequentes, ocorrendo eritema, exantema ou nódulos subcutâneos.

Recomendações para a prática clínica

Para dermatologistas interessados em avaliar os agonistas do receptor de GLP-1 como opção para pacientes com psoríase, Sheth et al., (2026) recomendaram registrar o tipo exato do medicamento prescrito, sua formulação, dose, via de administração, esquema de titulação e a indicação. O peso corporal, índice de massa corporal, hemoglobina glicada (HbA1c), glicemia de jejum, perfil lipídico e medidas relacionadas à psoríase (incluindo PASI, DLQI e sintomas) também devem ser registrados no início e durante o acompanhamento.

É necessário revisar o peso, os principais exames laboratoriais metabólicos e a gravidade da psoríase a cada três a seis meses, além de realizar consultas breves, presenciais ou virtuais, durante cada etapa de aumento de dose. Os pacientes devem receber orientações sobre o início esperado dos benefícios e sua magnitude, bem como sobre contraindicações, possíveis eventos adversos e estratégias para reduzir o risco cardiovascular, hepático e de pancreatite.

A prescrição de terapias com GLP-1 pode ser mais adequada para pacientes com psoríase moderada a grave relacionada à obesidade que desejam perder peso ou adultos com diabetes tipo 2 leve que utilizam um ou dois medicamentos orais. Em casos mais complexos, deve-se considerar o encaminhamento para endocrinologista, cardiologista ou reumatologista. Ademais, ao considerar o uso de agonistas do receptor de GLP-1 em pacientes com psoríase, os dermatologistas também devem abordar fatores de risco modificáveis, como consumo excessivo de álcool e tabagismo.

Em síntese, a revisão sugeriu que os GLP-1RAs poderiam ser utilizados como terapia adjuvante em planos de tratamento de pacientes selecionados com psoríase. Embora o papel exato desses medicamentos no manejo da doença ainda não esteja plenamente estabelecido, existem evidências clínicas demonstrando melhora da inflamação sistêmica por mecanismos dependentes e independentes da perda de peso. Isso resulta não apenas na redução da gravidade das lesões cutâneas, mas também na melhora da qualidade de vida dos pacientes. No futuro, serão necessários ensaios clínicos randomizados de maior porte, envolvendo pacientes com e sem comorbidades metabólicas, para definir de forma conclusiva o papel dos GLP-1RAs no tratamento da psoríase.