| Introdução |
O transtorno por uso de álcool é uma condição cerebral crônica e recorrente marcada por perda de controle e consumo compulsivo. Embora existam diversas abordagens comportamentais e psicológicas disponíveis, as opções farmacológicas são limitadas, com apenas três medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), evidenciando a necessidade de terapias mais eficazes.
Os agonistas do receptor de GLP-1, utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade, têm demonstrado potencial para reduzir o consumo de álcool por sua ação em vias de recompensa cerebral, com resultados promissores em estudos pré-clínicos e evidências iniciais em humanos, embora ainda escassas em pacientes em tratamento.
Nesse contexto, Klausen e colaboradores (2026) realizaram um estudo clínico randomizado em pacientes com obesidade e transtorno por uso de álcool em busca de tratamento, com o objetivo de investigar o efeito e a segurança da semaglutida sobre o alcoolismo.
| Métodos |
O ensaio clínico duplo-cego foi conduzido em um centro único na Dinamarca entre junho de 2023 e fevereiro de 2025. Foram incluídos 108 adultos, de 18 a 70 anos, com transtorno por uso de álcool, obesidade (índice de massa corporal [IMC] ≥30 kg/m²) e padrão de consumo elevado.
Os participantes foram randomizados para receber semaglutida subcutânea semanal (n=54; até 2,4 mg) ou placebo (n=54) por 26 semanas, além de terapia cognitivo-comportamental padronizada. O desfecho primário foi a mudança no número de dias de consumo pesado de álcool, avaliada pelo método Timeline Followback (TLFB), enquanto desfechos secundários incluíram consumo total, craving, parâmetros laboratoriais e medidas clínicas.
| Resultados |
No total, 88 participantes completaram o estudo, sem diferença significativa no tempo até a descontinuação entre os grupos, embora mais participantes tenham interrompido no grupo placebo (14 vs.6).
Na linha de base, a amostra era equilibrada entre homens e mulheres, com idade média de 52,3 anos. Os participantes apresentavam média de 17,2 dias de consumo pesado, ingestão total de 2200,9 g de álcool nos últimos 30 dias, pontuações do Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT) médio de 22,8 e 85% preenchiam critérios para transtorno grave.
A semaglutida promoveu maior redução nos dias de consumo pesado em comparação ao placebo (–41,1 vs. –26,4 pontos percentuais). Além disso, foi superior nos desfechos secundários, incluindo redução do consumo total de álcool (–1550,2 g vs. –1025,9 g), do número de doses por dia (–3,5 vs. –2,1), do craving (–9,2 vs. –6,1) e dos escores AUDIT (–9,9 vs. –6,3).
Houve melhora de biomarcadores relacionados ao uso de álcool, como fosfatidiletanol, gama-GT e volume corpuscular médio, além de benefícios metabólicos significativos, incluindo redução de peso (–11,2 kg vs –2,2 kg), IMC (-3,8 vs –0,7), circunferência da cintura (–12,1 cm vs –3,8 cm) e HbA1c (–0,3% vs 0,0%). Observou-se também melhora na percepção de saúde geral e no componente psicológico da qualidade de vida.
A eficácia foi mais pronunciada em subgrupos com maior gravidade do transtorno. Os eventos adversos foram predominantemente gastrointestinais, mais frequentes com semaglutida, porém geralmente leves a moderados. A adesão ao tratamento foi semelhante entre os grupos, com tamanho de efeito moderado e número necessário para tratar de 4,3. Observou-se ainda correlação entre perda de peso e redução do consumo de álcool no grupo semaglutida.
| Conclusão |
A semaglutida apresentou efeito consistente na redução do consumo de álcool, detectável mesmo com amostra relativamente pequena, com validação pelo biomarcador padrão-ouro fosfatidiletanol. O estudo de Klausen e colaboradores (2026) foi o primeiro ensaio a demonstrar redução de dias de consumo pesado e do risco de consumo em pacientes com transtorno por uso de álcool e obesidade, reforçando o potencial dos agonistas de GLP-1 como opção terapêutica. No entanto, limitações e incertezas de segurança persistem, sendo necessários novos estudos antes de seu uso off-label.