Arte & Cultura

Publicado el 16 de agosto de 2024

Ciência e saber tradicional

A história dos fitoterápicos no Brasil

Uma fonte importante para novos medicamentos

Autor/a: Julianna Veltri

As plantas medicinais são definidas como toda e qualquer planta que possui substâncias com propriedades terapêuticas, seja em partes específicas ou como um todo, que é utilizada pelo homem com propósitos de cura.

Os primeiros registros sobre a utilização de plantas medicinais são datados de 500 a.C., no qual um texto chinês relatou nomes, doses e suas indicações de uso. Outros registros foram encontrados no manuscrito Egípcio “Ebers Papirus”, de 1500 a.C., que continham informações sobre a utilização de mais de 700 drogas, sendo que algumas dessas plantas ainda são utilizadas, como Ephedra spp., Cassia spp., Panax spp (Ginseng.) e Rheum palmatum L.

Durante a Era Cristã, vários filósofos foram destacados por suas obras. Dentre esses, Hipócrates se destacou por tornar a natureza como guia na escolha de medicamentos (Natura medicatriz). O mesmo descreveu os efeitos medicinais da Papaver somniferum, cujo princípio ativo é a morfina.

Evidências arqueológicas mostram que o uso de drogas vegetais era amplo em culturas antigas. Noz de areca, uma planta aromática que contém substâncias psicoativas, eram mascadas há 13 mil anos por suas propriedades estimulantes. A civilização árabe, no século VII, descreveu o emprego dos purgativos e cardiotônicos de origem vegetal. Culturas americana, especialmente a Inca, Asteca, Maya, Olmeca e Tolteca consignaram á civilização moderna a quina, a ipecacuanha, a coca e muitas outras drogas vegetais de valor terapêutico, até hoje indispensável a medicina moderna.

Boa parte do conhecimento tradicional do Brasil que se tem das plantas medicinais, provavelmente se origina a partir dos indígenas. Diante da escassez de medicamentos empregados na Europa, os primeiros médicos portugueses que vieram ao país foram obrigados a perceber a importância dos medicamentos de origem vegetal. Esses levaram ao mundo ocidental um arsenal terapêutico que até nos dias atuais é indispensável. Dentro da biodiversidade brasileira, alguns exemplos importantes de plantas medicinais são: Ilex paraguariensis (mate), Myroxylon balsamum (bálsamo de Tolu), Paullinia cupana (guaraná), Psidium guajava (guava), Spilanthes acmella (jambu), Tabebuia sp. (lapacho), Uncaria tomentosa (unha-de-gato), Copaifera sp.(copaíba)

No país, a primeira descrição sobre o uso de plantas foi feita por Gabriel Soares de Souza, autor do Tratado Descritivo do Brasil, de 1587. Esse descreveu produtos medicinais utilizados pelos índios. Com vinda dos primeiros médicos portugueses ao Brasil, diante da escassez, na colônia, de remédios empregados na Europa, perceberam a importância das plantas utilizadas pelos indígenas como medicamento.

Desde então, populações de todo o mundo tem usado tradicionalmente, ao longo dos séculos, plantas na busca por alívio, cura de doenças e controle de pragas. Essas espécies têm se tornado objeto de estudo em muitos países e uma fonte importante de produtos naturais biologicamente ativos, que podem resultar na descoberta de novos fármacos. Atualmente, cerca de 13.000 plantas são usadas como fármacos ou para a síntese de moléculas medicinais.

Estima-se que pelo menos 25% de todos os medicamentos modernos são derivados direta ou indiretamente de plantas medicinais, principalmente por meio da aplicação de tecnologias modernas ao conhecimento tradicional.

Para demonstrar a importância do tema, abaixo estão alguns exemplos de substâncias que foram utilizadas no passado e estão na medicina até hoje.

O curare, proveniente de uma mistura de ervas principalmente das famílias Loganiáceas e Menispermáceas, foi de extrema importância para a evolução de diversas especialidades médicas, como a anestesiologia. Os fragmentos das plantas da qual se obtinha o curare eram colocados com água em uma vasilha e submetidas à cocção. O líquido obtido pós-cocção, contendo os princípios ativos, era filtrado em folhas e depositado em potes de barro, sob fogo brando, para evaporação da água e o aumento da sua concentração, resultando em um líquido de cor escura que era então acondicionado para uso nas pontas de lanças e flechas para pesca, caça e defesa devido ao seu efeito “venenoso” como denominado pelos nativos, ou seja, pelo seu efeito tóxico e muitas vezes letal. A morte pela substância é causada por asfixia, pois os músculos esqueléticos ficam relaxados e então evoluem para a paralisação. Contudo o veneno, somente funcionava no sangue, sendo que o envenenamento de animais não causava efeitos nocivos ao serem ingeridos.

A partir de 1943, o curare começou a ser utilizado como anestésico e, posteriormente, com isolamento do composto d-tubocurarine, também passou a ser utilizado como relaxante muscular. A sua aceitação foi um estímulo à químicos e farmacêuticos a procurarem sintetizar produtos naturais que apresentassem vantagens farmacológicas.

A primeira anestesia a base de curare utilizada no Brasil foi aplicada em 1945 sob o nome comercial Intocostrin, para a realização de uma apendicectomia. Já nos anos 80 surgiu uma série de curarizantes do tipo adespolarizante, pertencentes a duas grandes famílias, os benzilisoquinolínicos e os aminoesteróides, os quais pertencem a 2ª geração de curarizantes, sendo destituídos de efeitos autonômicos, que quando administrados em baixa dosagem, não liberariam histamina.

Atualmente, o curare e seus derivados são utilizados em diferentes áreas de medicina, como no alívio de dores no tratamento da fibromialgia, relaxante muscular e anestésico local empregados na cesariana, anestésico oftalmológico e anticonvulsionantes.

Outras plantas que tiveram seu uso popular foram consagradas, como:

  • Boldo, cancorosa, macela, cavalinha e chapéu de couro e salsaparrilha para dor;
  • Alho e guabiroba para controle do colesterol;
  • Alecrim, cavalinha, erva cidreira, filha de laranjeira e guaco para calmantes e melhora dos sintomas de gripe e/ou resfriado.

Apesar da popularização da medicina ocidental, comunidades ao redor do mundo ainda continuam crendo e utilizando as plantas medicinais como um aliado contra eventuais enfermidades. Isso se deve ao alto custo dos medicamentos, além do medo de consumir produtos os quais não se sabem a origem e que podem apresentar efeitos colaterais.

A Valeriana officinalis, uma planta encontrada na Europa e no norte da Ásia, tem ação similar à dos benzodiazepínicos. Um estudo randomizado, multicêntrico com 121 pacientes demonstrou melhorias na taxa de qualidade do sono com seu uso por 28 dias.

O Peumus boldus, popularmente conhecido como Boldo-do-chile, é uma espécie arbórea originária do Chile. É indicado como diurético, mas também é utilizado para alívio da má digestão, ressaca alcoólica, dores de cabeça, insônia, tratamento para gonorreia, hepatite, distúrbios menstruais, entre outros. Estudos identificaram que a Boldina, seu princípio ativo, é benéfica para doenças cardiovasculares relacionadas a obesidade, redução da pressão arterial, potente ação antioxidante, melhora da função renal e estabilização da glicemia sanguínea.

Popularmente conhecida como erva cidreira, a Lippia alba é uma planta nativa da américa do sul. É utilizada para o tratamento de distúrbios estomacais como cólicas, indigestão, dores, náuseas, espasmos, sintomas respiratórios, resfriado, como tranquilizante/calmante, combate à hipertensão, sedativo, analgésico, distúrbios hepáticos, sífilis, diarreia, disenteria, dentre outros.