A confiança é um elemento central da relação médico-paciente, constituindo a base para um cuidado eficaz e para a própria identidade profissional da medicina. Contudo, evidências indicaram que a credibilidade atribuída pela população aos médicos é relativamente baixa e tem diminuído nos últimos anos. Diante desse cenário, Rotenstein e colaboradores (2026) analisam os fatores que contribuem para esse processo e propuseram estratégias para reconstruir e fortalecer essa relação.
Segundo os autores, a erosão da confiança não pode ser compreendida apenas pelas interações entre médicos e pacientes. Nas últimas décadas, transformações estruturais, como a crescente complexidade dos seguros de saúde, a consolidação de grandes organizações e o aumento das exigências administrativas, modificaram profundamente essa relação. Pacientes passaram a enfrentar barreiras de acesso, longos tempos de espera, consultas breves e processos burocráticos complexos, enquanto médicos convivem com metas de produtividade que priorizam o volume de atendimentos em detrimento da continuidade do cuidado, da escuta qualificada e da construção de vínculos, além de uma crescente carga documental.
Nesse contexto, a confiança emerge como um fenômeno multifatorial, influenciado tanto por características individuais, como experiências de vida, condições de saúde, alfabetização em saúde e predisposição para confiar, quanto pelas vivências dos pacientes no sistema de saúde, incluindo acesso aos serviços, continuidade assistencial, participação nas decisões, questões financeiras e experiências relacionadas às desigualdades estruturais.
Os autores observaram que a confiança não é construída da mesma forma para todos os pacientes. Enquanto alguns valorizam principalmente a competência técnica, outros atribuem maior importância à escuta, ao respeito, à transparência, à tomada compartilhada de decisões e à sensação de serem reconhecidos como indivíduos. Diante disso, familiaridade, conexão e continuidade do cuidado assumem papel central. Muitos pacientes relataram maior conforto quando percebiam que o médico conhecia não apenas seu histórico clínico, mas também aspectos de sua vida pessoal, familiar e profissional. No entanto, evidências mostraram que a escuta ativa nem sempre ocorre na prática, uma vez que médicos frequentemente interrompem os pacientes poucos segundos após o início de sua fala. Paralelamente, a dificuldade de manter acompanhamento com o mesmo profissional favorece a fragmentação da assistência, enfraquece os vínculos terapêuticos e pode contribuir para o desengajamento dos pacientes e para piores desfechos em saúde.
Mais do que um fenômeno interpessoal, a confiança também é influenciada por fatores que extrapolam o consultório. A fragmentação do financiamento da saúde e a dificuldade de compreender coberturas frequentemente geram experiências negativas que os pacientes associam ao sistema de saúde como um todo. Ainda que essas dificuldades não sejam diretamente atribuíveis aos médicos, elas acabam influenciando na percepção dos pacientes.
A desinformação e a informação enganosa agravam ainda mais esse problema. Dificuldades de acesso ao cuidado levam muitos indivíduos a buscar respostas em fontes digitais ou em ferramentas de inteligência artificial. Embora essas tecnologias possam ampliar o acesso à informação e favorecer a educação em saúde, conteúdos produzidos sem contexto clínico podem aumentar a distância entre recomendações médicas e expectativas dos pacientes.
Para enfrentar esses desafios, Rotenstein e colaboradores (2026) propuseram uma agenda de ações em múltiplos níveis:
No plano individual, defenderam que competências relacionadas à construção da confiança sejam desenvolvidas e avaliadas ao longo de toda a carreira médica. Entre elas destacam-se escuta ativa, profissionalismo, honestidade, empatia, compaixão, educação em saúde e capacidade de compreender os problemas dos pacientes em profundidade. Adicionalmente, recomendaram maior atenção à influência de fatores estruturais, como racismo, segregação socioeconômica e experiências traumáticas, na construção da confiança.
A tecnologia pode contribuir positivamente nesse processo. Ferramentas de inteligência artificial, especialmente assistentes de documentação clínica, têm potencial para reduzir a carga administrativa, ampliar o tempo disponível para a interação humana e auxiliar os médicos a recordar aspectos relevantes da vida e do contexto dos pacientes.
No âmbito das equipes e dos sistemas de saúde, os autores sugeriram modelos assistenciais que priorizem continuidade, coordenação e conhecimento aprofundado da história, das preferências e do contexto biopsicossocial do paciente. Além disso, propuseram que métricas de desempenho e mecanismos de remuneração passem a valorizar a construção de relacionamentos, a continuidade do cuidado e resultados considerados importantes pelos pacientes. Para eles, a confiança deve ser tratada como um desfecho mensurável, incorporado à avaliação da qualidade assistencial.
No campo das políticas públicas, organizações médicas deveriam atuar de forma mais assertiva na defesa de reformas que valorizem o tempo dedicado ao paciente e a continuidade assistencial, em vez de priorizar exclusivamente o volume de atendimentos. Os autores também defenderam maior integração entre assistência à saúde, saúde pública e recursos comunitários, além da promoção de sistemas mais acessíveis e financeiramente viáveis.
No espaço público, combater a desinformação passou a integrar o papel dos médicos. Para isso, instituições de saúde e sociedades médicas devem investir em comunicação acessível e confiável, apoiar profissionais engajados nessa atividade e fortalecer o diálogo com populações mais vulneráveis à desinformação e às desigualdades em saúde. Os autores sugeriram ainda a participação médica em discussões sobre determinantes sociais da saúde, incluindo acesso à alimentação, assistência social e cuidados de saúde.
Por fim, o artigo enfatizou que a confiança é profundamente influenciada por desigualdades estruturais. Pacientes economicamente vulneráveis, sem cobertura adequada de saúde, imigrantes ou pertencentes a grupos historicamente marginalizados frequentemente enfrentam barreiras adicionais ao acesso e podem desenvolver desconfiança em instituições que nem sempre atenderam às suas necessidades. Assim, qualquer iniciativa voltada à reconstrução da confiança deve necessariamente enfrentar essas desigualdades e promover acesso equitativo a cuidados de alta qualidade.
Para Rotenstein e colaboradores (2026), a perda de confiança entre médicos e pacientes não é inevitável. Trata-se de um fenômeno moldado por sistemas, instituições e escolhas coletivas. Sua reconstrução exige a combinação de melhores habilidades de comunicação, modelos assistenciais centrados em relacionamentos, uso responsável da tecnologia e mudanças estruturais capazes de fortalecer a dimensão humana que permanece no centro do cuidado em saúde.
Publicado el 18 de septiembre de 2026
Confiança médico-paciente
A confiança como pilar do cuidado
Reflexões de Rotenstein e colaboradores (2026) sobre os fatores associados à erosão da confiança médico-paciente e as estratégias propostas para sua reconstrução nos níveis individual, organizacional e sistêmico.
Autor/a: Rotenstein, L.S. et al.
Fuente: JAMA Intern Med. Rebuilding Trust in the Patient-Physician Relationship
A confiança é um elemento central da relação médico-paciente, constituindo a base para um cuidado eficaz e para a própria identidade profissional da medicina. Contudo, evidências indicaram que a credibilidade atribuída pela população aos médicos é relativamente baixa e tem diminuído nos últimos anos. Diante desse cenário, Rotenstein e colaboradores (2026) analisam os fatores que contribuem para esse processo e propuseram estratégias para reconstruir e fortalecer essa relação.
Segundo os autores, a erosão da confiança não pode ser compreendida apenas pelas interações entre médicos e pacientes. Nas últimas décadas, transformações estruturais, como a crescente complexidade dos seguros de saúde, a consolidação de grandes organizações e o aumento das exigências administrativas, modificaram profundamente essa relação. Pacientes passaram a enfrentar barreiras de acesso, longos tempos de espera, consultas breves e processos burocráticos complexos, enquanto médicos convivem com metas de produtividade que priorizam o volume de atendimentos em detrimento da continuidade do cuidado, da escuta qualificada e da construção de vínculos, além de uma crescente carga documental.
Nesse contexto, a confiança emerge como um fenômeno multifatorial, influenciado tanto por características individuais, como experiências de vida, condições de saúde, alfabetização em saúde e predisposição para confiar, quanto pelas vivências dos pacientes no sistema de saúde, incluindo acesso aos serviços, continuidade assistencial, participação nas decisões, questões financeiras e experiências relacionadas às desigualdades estruturais.
Os autores observaram que a confiança não é construída da mesma forma para todos os pacientes. Enquanto alguns valorizam principalmente a competência técnica, outros atribuem maior importância à escuta, ao respeito, à transparência, à tomada compartilhada de decisões e à sensação de serem reconhecidos como indivíduos. Diante disso, familiaridade, conexão e continuidade do cuidado assumem papel central. Muitos pacientes relataram maior conforto quando percebiam que o médico conhecia não apenas seu histórico clínico, mas também aspectos de sua vida pessoal, familiar e profissional. No entanto, evidências mostraram que a escuta ativa nem sempre ocorre na prática, uma vez que médicos frequentemente interrompem os pacientes poucos segundos após o início de sua fala. Paralelamente, a dificuldade de manter acompanhamento com o mesmo profissional favorece a fragmentação da assistência, enfraquece os vínculos terapêuticos e pode contribuir para o desengajamento dos pacientes e para piores desfechos em saúde.
Mais do que um fenômeno interpessoal, a confiança também é influenciada por fatores que extrapolam o consultório. A fragmentação do financiamento da saúde e a dificuldade de compreender coberturas frequentemente geram experiências negativas que os pacientes associam ao sistema de saúde como um todo. Ainda que essas dificuldades não sejam diretamente atribuíveis aos médicos, elas acabam influenciando na percepção dos pacientes.
A desinformação e a informação enganosa agravam ainda mais esse problema. Dificuldades de acesso ao cuidado levam muitos indivíduos a buscar respostas em fontes digitais ou em ferramentas de inteligência artificial. Embora essas tecnologias possam ampliar o acesso à informação e favorecer a educação em saúde, conteúdos produzidos sem contexto clínico podem aumentar a distância entre recomendações médicas e expectativas dos pacientes.
Para enfrentar esses desafios, Rotenstein e colaboradores (2026) propuseram uma agenda de ações em múltiplos níveis:
No plano individual, defenderam que competências relacionadas à construção da confiança sejam desenvolvidas e avaliadas ao longo de toda a carreira médica. Entre elas destacam-se escuta ativa, profissionalismo, honestidade, empatia, compaixão, educação em saúde e capacidade de compreender os problemas dos pacientes em profundidade. Adicionalmente, recomendaram maior atenção à influência de fatores estruturais, como racismo, segregação socioeconômica e experiências traumáticas, na construção da confiança.
A tecnologia pode contribuir positivamente nesse processo. Ferramentas de inteligência artificial, especialmente assistentes de documentação clínica, têm potencial para reduzir a carga administrativa, ampliar o tempo disponível para a interação humana e auxiliar os médicos a recordar aspectos relevantes da vida e do contexto dos pacientes.
No âmbito das equipes e dos sistemas de saúde, os autores sugeriram modelos assistenciais que priorizem continuidade, coordenação e conhecimento aprofundado da história, das preferências e do contexto biopsicossocial do paciente. Além disso, propuseram que métricas de desempenho e mecanismos de remuneração passem a valorizar a construção de relacionamentos, a continuidade do cuidado e resultados considerados importantes pelos pacientes. Para eles, a confiança deve ser tratada como um desfecho mensurável, incorporado à avaliação da qualidade assistencial.
No campo das políticas públicas, organizações médicas deveriam atuar de forma mais assertiva na defesa de reformas que valorizem o tempo dedicado ao paciente e a continuidade assistencial, em vez de priorizar exclusivamente o volume de atendimentos. Os autores também defenderam maior integração entre assistência à saúde, saúde pública e recursos comunitários, além da promoção de sistemas mais acessíveis e financeiramente viáveis.
No espaço público, combater a desinformação passou a integrar o papel dos médicos. Para isso, instituições de saúde e sociedades médicas devem investir em comunicação acessível e confiável, apoiar profissionais engajados nessa atividade e fortalecer o diálogo com populações mais vulneráveis à desinformação e às desigualdades em saúde. Os autores sugeriram ainda a participação médica em discussões sobre determinantes sociais da saúde, incluindo acesso à alimentação, assistência social e cuidados de saúde.
Por fim, o artigo enfatizou que a confiança é profundamente influenciada por desigualdades estruturais. Pacientes economicamente vulneráveis, sem cobertura adequada de saúde, imigrantes ou pertencentes a grupos historicamente marginalizados frequentemente enfrentam barreiras adicionais ao acesso e podem desenvolver desconfiança em instituições que nem sempre atenderam às suas necessidades. Assim, qualquer iniciativa voltada à reconstrução da confiança deve necessariamente enfrentar essas desigualdades e promover acesso equitativo a cuidados de alta qualidade.
Para Rotenstein e colaboradores (2026), a perda de confiança entre médicos e pacientes não é inevitável. Trata-se de um fenômeno moldado por sistemas, instituições e escolhas coletivas. Sua reconstrução exige a combinação de melhores habilidades de comunicação, modelos assistenciais centrados em relacionamentos, uso responsável da tecnologia e mudanças estruturais capazes de fortalecer a dimensão humana que permanece no centro do cuidado em saúde.