Arte & Cultura

Publicado el 8 de octubre de 2021

Histórias de um cirurgião de trauma

2 litros de sangue no sifão

Um trauma torácico fechado com PCR; uma decisão dramática que desafia o niilismo médico

Autor/a: Guillermo Barillaro

4 da manhã

Fui acordado por um grito: cirurgião! Cirurgião!  O grito vinha do corredor escuro do porão, para onde conduziam os quartos em que dormiam os guardas.

Apesar da dor de cabeça e do desconforto instantâneo que experimentei, isso não me impediu de imaginar o que poderia estar acontecendo.

Um paciente muito grave, a tal ponto que o residente não poderia deixar de me avisar.

- Estou indo! – Gritei calçando os sapatos.

Saí para o corredor onde vi um enfermeiro fugindo no escuro, em direção à luz que vinha da sala dos médicos. Comecei a correr atrás dele e atravessei a sala, que estava deserta, mas com a televisão ligada. A escada circular me levou diretamente a uma sala de choque barulhenta, onde havia muitas pessoas ao redor da maca central, aquela onde costumavam colocar as emergências mais importantes.

Carlos 9, Residente 2 e Flaco Madero, Residente 1, estavam inserindo um dreno pleural no hemitórax esquerdo de um jovem pálido e hirsuto, enquanto o intensivista Lucas N. realizava a intubação orotraqueal.

- O que passou? – perguntei.

- Um acidente de moto – respondeu Lucas enquanto fechava o tubo orotraqueal. – ... Ele tinha sinais vitais quando entrou!

O tubo torácico que os residentes haviam inserido começou a drenar sangue vermelho em um fluxo alarmante, como uma catarata, para o frasco de sifão no chão.

2 litros de sangue no sifão.

Quase metade da alma do paciente já estava naquela garrafa inerte.

Um residente de imagem, Ariel, havia se aproximado com a intenção de fazer um ultrassom abdominal, mas peguei o transdutor de sua mão e coloquei no peito do paciente. Vi o coração com poucos batimentos, que parecia em câmera lenta.

Ele estava parando. Somos testemunhas desta parada.

E aquela tigela vermelha em que o sifão se transformou, lá embaixo, no chão, nos diz o que fazer.

Era necessário entrar, massagear o coração e inserir uma pinça para parar esse sangramento torrencial.

E o mais provável que será necessário será pinçar o pedículo pulmonar, para estancar a hemorragia de algum vaso lacerado pela desaceleração.

- Vamos, Carlos, toracotomia!

Tirei a tampa do baú atrás de nós e joguei por cima da tela. Como era de praxe nesses casos, começamos a desdobrar as bandejas dos instrumentos sobre o paciente e rasgar o papel que as envolvia.

- Flaco, coloque um tubo do lado direito! – Disse para Flaco Madero.

- Senhora, chame a hemoterapia e traga-nos seis unidades de sangue 0 negativo! - Disse para uma enfermeira ao pé da maca.

No trauma fechado com parada cardíaca, pode haver outras causas para essa parada, além do choque hipovolêmico. Era um cenário muito mais complexo do que uma parada associada a um trauma penetrante, em que as causas desse colapso costumavam estar no caminho do elemento agressor. Em um trauma contuso de grande magnitude, todos os tipos de lesões podem estar presentes, distribuídas em uma faixa difícil de decifrar na emergência. Entrar naquele tórax era como acelerar em um terreno desconhecido, e isso poderia ter consequências imprevisíveis. Assim, poderia acontecer que fôssemos apenas espectadores, sem poder fazer nada. Mas estava claro que não havia outra opção, se realmente pretendíamos oferecer àquele pobre menino alguma chance remota de sobrevivência.

Longe no tempo estava aquele sentimento de fragilidade, em que vivia o medo paralisante de sofrer frustração.

"Para que você vai abrir? Todos aqueles pacientes com traumatismo contuso e parada cardíaca morrem."

Uma frase niilista que ouvimos muitos dizer e que parecia antecipar a definição do destino. Uma afirmação de outro que inicialmente gerou em nós uma ideia de resignação. Até que o desfile incessante de pessoas traumatizadas que presenciamos naquela jornada acabou mudando aquele medo em nós por outro: o de não fazer tudo ao nosso alcance para ajudar os feridos.

Decidi fazer eu mesmo aquela toracotomia de reanimação e não deixar para o Carlos, dada a complexidade da imagem de um trauma contuso. Coloquei uma tira de queixo, uma camisa e um par de luvas duplas, fiz gestos mecanizados e frenéticos antes de fazer aquele procedimento. O golpe do bisturi mostrou planos sem sangue, até que entrou na cavidade pleural. Concluí a abertura do espaço intercostal com uma tesoura e, novamente, com o bisturi, cortei as cartilagens costais de ambos os lados da ferida. Coloquei então o afastador intercostal de Finochietto e começamos a ver o interior do tórax.

Nenhuma onda de sangue saiu daquela cavidade. O tubo colocado por Carlos parece ter sido muito eficaz na drenagem de todo o hemotórax maciço. E a drenagem pleural certa colocada por Flaco Madero não teve débito.

Não tem mais sangue em circulação.

Ou ele não sangra porque está em parada cardíaca.

O saco pericárdico não apresentava lesão, assim como o pedículo pulmonar esquerdo. Fiz uma rápida massagem cardíaca para não perder tempo e notei que havia alguns batimentos espontâneos. Peguei o saco pericárdico entre duas pinças e fiz uma incisão com tesoura, para depois estender essa pericardiotomia longitudinalmente. Não havia sangue dentro da bolsa e o coração parecia pequeno e desmoronou. Comecei a massagear com as duas mãos, com a manobra que chamávamos de "palmas do coração", e então percebi que o dorso da mão que ficava embaixo do coração estava fazendo contato com uma massa.

Um hematoma no mediastino posterior.

A aorta descendente está rompida.

Clássica lesão por desaceleração.

Incrível que tenha chegado vivo ao hospital.

Não acredito que o salvaremos.

Porém faremos tudo o que pudermos para salvá-lo.

É necessário grampear a aorta, para estancar a hemorragia. Não fechar a comporta, para a água não transbordar.

- Encha o peito com gaze! Atrás da coluna! Parece-me que a aorta está rompinha ... – disse ao Carlos.

- Progrida o tubo para que entre no brônquio direito, estamos comprimindo o pulmão esquerdo ... - para Lucas.

Como outras vezes, quando fizemos aquela toracotomia no pronto-socorro, um silêncio denso de repente caiu em torno de mim e minha voz dando instruções começou a ser ouvida com mais clareza. Nosso intensivista inseriu mais o tubo orotraqueal, para ventilar apenas o pulmão direito. Essa manobra foi nossa intubação seletiva de emergência quando realizamos uma toracotomia esquerda, e desinsuflou o pulmão desse lado para nos dar mais espaço operatório. Aí Carlos conseguiu colocar o tamponamento de gaze com mais força contra o mediastino posterior, onde eu pensei que estava o foco hemorrágico quase letal.

Após um minuto de massagem, o coração começou a bater por conta própria, enquanto Lucas infundia o lactato de Ringer em um jato através de grossas linhas venosas no membro superior direito e na veia femoral direita.

Agora ou nunca

-Diga que iremos utilizar a sala de cirurgia e que já vamos subir! - Disse a uma enfermeira, ao começarmos a movimentar a maca junto com Flaco e Carlos.

Lucas se dedicava apenas à ventilação e eu levantei os recipientes de Ringer com uma das mãos enquanto empurrava a maca com a outra. Nessa rápida viagem pelo corredor corremos para a técnica de hemoterapia, que ao nos ver mudou de direção e nós acompanhou até a sala de cirurgia, junto com as preciosas bolsas de sangue que carregava. Uma enfermeira estava guardando a porta do elevador e isso nos permitiu chegar à sala de cirurgia imediatamente. Dada a gravidade do caso, a marcha continuou parando na mesma mesa cirúrgica, para onde transferimos o paciente. O anestesiologista Vercauteren e seu residente passaram a monitorar tudo relacionado ao paciente e continuaram com a reanimação, enquanto a instrumentadora Karina C. já arrumava a mesa.

- Instrumento vascular! Tudo! – disse às pressas para Karina.

- Chame o cirurgião vascular de plantão! – gritei a Fraco.

Celia era a outra instrumentista e começou a oficiar como uma equipe circulante na sala. Colocamos um realce atrás do lado esquerdo do tórax, para melhor acesso ao mediastino posterior. A toracotomia anterolateral de ressuscitação que já havíamos feito não foi a melhor abordagem para essa região, área suspeita de explosão, mas o grave estado hemodinâmico do jovem impediu colocá-lo em outra posição. Trocamos com o Carlos e fomos examinar de perto o tamponamento torácico. Sua cor era rosa, o que sugeria que não estava sendo afetado por um sangramento repentino.

- Verca, como estamos? - … Eu acho que é a aorta rasgada, mas essa embalagem parece eficaz. Vamos levar alguns minutos para você reanimá-lo com sangue e para a gente conseguir mais linhas venosas ... Vamos canalizar a safena na virilha dele.

Vercauteren era enorme e silencioso, uma torre que ficava ao lado da cama do paciente, como se fizesse parte das fortificações defensivas nas quais resistíamos ao cerco de um poderoso inimigo. Um castelo dentro do qual já tínhamos um soldado moribundo. Mas havia algo de grande valor naquela luta: estar junto com o Vercauteren. Porque eu e ele tínhamos a mesma filosofia de trabalho, nos dois lados daquele pano que ficava acima do pescoço do paciente. Nós dois, sem nos falarmos, íamos fazer tudo o que pudesse ser feito e íamos continuar até que os sinais no monitor desaparecessem. Não teria que me preocupar com a ressuscitação ou com que realmente esgotássemos todos os recursos: desconsiderei que isso estaria acontecendo por parte da anestesiologia, enquanto lutávamos em um campo sangrento.

Vercauteren e seu residente colocaram um cateter venoso na subclávia direita, aproveitando o fato de o tórax também estar drenado desse lado. Ao mesmo tempo, colocamos um guia intravenoso diretamente na veia safena na virilha esquerda, uma das minhas abordagens favoritas, dado o grande fluxo de hemoderivados que ela permitia. Com essas duas novas vias, aumentamos o fluxo da transfusão massiva que estava sendo administrada ao paciente, enquanto o residente de anestesiologia solicitava mais unidades de plasma e plaquetas.

Ele estava satisfeito por ter acesso venoso espesso para ressuscitar um paciente quase sem sangue, mas também estava muito preocupado com o tórax. Ele sabia que, à medida que a perfusão melhorava, a pressão arterial também aumentava e a lesão original logo voltaria a sangrar.

Uma bomba com uma detonação inicial e depois outra com detonação retardada.

Voltamos imediatamente para a área de incêndio, enquanto Flaco Madero se trocava após nos comunicarmos com o cirurgião vascular.

- Quem está vindo? - Perguntei a R1.

- Angelicca. – Respondendo-me prontamente.

Respirei fundo e comemorei que Lúcio Angelicca estava vindo. Ele era um excelente cirurgião vascular, tinha muito interesse em traumas e éramos contemporâneos, tudo isso já significava muito quando se tratava de lidar com pessoas gravemente traumatizadas. Somando-se a isso o fato de o paciente ainda estar vivo e de já estarmos falando com ele na sala de cirurgia me deu energia e esperança abruptamente, em meio a uma ação que eu nunca havia empreendido: operar um rasgo na aorta torácica como um resultado de um trauma torácico fechado.

Até a chegada do cirurgião vascular, ganharíamos o máximo possível do que há de mais valioso para aquele paciente: o tempo. E nesse período iríamos o mais longe possível. Senti que estava flutuando acima do homem traumatizado e que tudo isso poderia terminar abruptamente, de um momento para o outro. Mas estava ansioso para agir e ter a situação definida o mais rápido possível.

Nunca vi uma lesão desse tipo operar, o que, por outro lado, era uma raridade em um paciente que chegava vivo a um pronto-socorro: a grande maioria desses pacientes morria nas ruas. Mas eu conhecia as técnicas para reparar esses tipos de ferimentos e havia feito muitas dissecações de cadáveres em meu passado como professor de anatomia. Eu não tinha tanto medo de danos locais causados ​​por trauma, mas sim de um colapso sistêmico iminente. Coloquei-me à esquerda do paciente e instruí Carlos a ficar na minha frente e Flaco Madero à minha direita, para que pudéssemos interagir melhor.

Esta abordagem não é a melhor para a aorta, mas nenhuma outra é possível agora.

Vamos, tudo está em jogo aqui.

Expanda o campo, fixe onde termina o arco aórtico, fixe acima do diafragma e entre no hematoma.

— Cizalla!

Dividi o esterno e girei a alça do Finochietto novamente. O campo foi consideravelmente alargado, e então ligamos os quatro fios das artérias mamárias cortadas na seção do osso. Notei arritmias no monitor e silêncio agitado dos anestesistas. Começamos a irrigar o volumoso tampão que havíamos colocado no hemitórax esquerdo com soro quente e a retirar essa gaze aos poucos. Os residentes empurraram o pulmão esquerdo para a direita e pude começar a ver o hematoma mediastinal escorrendo sangue vermelho. Fui ao ápice da cavidade torácica, naquele caminho de saliência onde poderíamos nos interromper a qualquer momento, em busca do primeiro marco que nos guiaria no solo: a artéria subclávia esquerda. Abri a pleura mediastinal na silhueta borrada dessa artéria e a cerquei com uma dissecção em tesoura primeiro e depois com uma alça de silicone para preservar seu reparo. Acompanhei o trajeto desse vaso em direção ao arco aórtico, e então encontrei outras silhuetas mal definidas em meio a uma infiltração avermelhada dos tecidos: o próprio arco aórtico e o tronco da artéria carótida primitiva esquerda. Disseco os tecidos ao redor desses vasos, que aparecem de forma mais definida. Em seguida, coloquei uma pinça Glover angular naquele nível do arco, entre as raízes da carótida e da subclávia. Já tínhamos o controle proximal assegurado, e naquele momento percebi que respirava rápido, que operava com certa coragem e pressa, com medo de que tudo o que vivia terminasse abruptamente. Fui até a base do tórax e os residentes me seguiram com sua separação. Procurei as costas da aorta descendente distal, contra a coluna torácica. Apalpei a sonda nasogástrica que Vercauteren havia colocado no esôfago e localizada atrás de uma pequena aorta, que circulei e reapertei com outra pinça Glover. Esse controle vascular me acalmou um pouco, e lançamo-nos no foco hemorrágico, com uma dissecção que combinava o uso de tesoura e meus dedos. Esse exame drenou sangue e coágulos e acabou revelando um achado brutal: as duas extremidades anfractuosas da aorta descendente totalmente seccionada, separadas uma da outra por cinco centímetros. Algo que ele nunca tinha visto em um homem traumatizado vivo. Admirei por um momento a tenacidade que um hematoma anterior teve para preservar a vida, uma reação defensiva do organismo pela sobrevivência milenar. Achei que deveríamos estar no mesmo nível de luta pela vida, e pedi a Karina uma prótese de dacron para realizar uma interposição como método de reparo arterial. Ele tinha medo de perguntar a Vercauteren sobre como estava o paciente. Ele não queria pensar em nada além de todas as etapas que faltavam para completar a intervenção. E pensar em como realizar cada uma delas da melhor forma e o mais rápido possível foi o nosso refúgio naquela época.

- Vamos lá! Você tem que sair vivo daqui! – Gritei em desespero.

Eu arenguei com os residentes porque precisava de concentração máxima deles para o que se seguiu. Eu vi o que estava ao nosso redor: o número 90 da pressão arterial sistólica no monitor, as bolsas de sangue e plasmas pendurados e vazando, e a bomba de drogas vasoativas funcionando. E como ficamos espremidos no meio de tudo isso. Havia apenas uma direção possível e era para frente. Posicionei a pinça distal mais alto na aorta descendente, desbridou as bordas de ambas as extremidades, cortei a prótese e comecei a passar os pontos entre a extremidade proximal da aorta e a prótese. Usei uma sutura de polipropileno com duas agulhas e comecei do lado oposto, para terminar do nosso lado, mais confortável. Fui passando os fios sem ajustar as suturas, que deixei suspensas com a técnica que chamamos de “paraquedas”, para ter mais espaço para ver melhor e suturar melhor as duas bordas. Ao me aproximar do setor mais superficial da sutura de ambos os lados, comecei a me ajustar a ele e a anastomose proximal tomou forma.

- O que é isso? - Lúcio Angelicca perguntou, inclinando-se para o campo cirúrgico entre Flaco e eu.

- Ruptura da aorta descendente - respondi imediatamente, com certo entusiasmo -por favor, troque-se.

Lúcio olhou para o campo operatório, depois para o monitor, depois para o rosto do paciente e, finalmente, para o tórax aberto novamente. Ele pareceu hesitar por alguns segundos, mas não disse uma palavra e foi se lavar.

Senti uma alegria vaga e transitória com essa apresentação que estava fazendo ao cirurgião vascular. Sempre quis ver esses especialistas assim: na sala de cirurgia, com as pinças colocadas e com o prontuário pronto para tomar decisões sobre o reparo arterial. Mas daquela vez achei que ele não acreditava no que eu estava dizendo.

Durante a lavagem, coloquei outra pinça no meio da prótese e afrouxei levemente a pinça do arco aórtico, para verificar o aperto da anastomose realizada. O sangue jorrou em dois setores e reajustei a pinça.

- Não dá para acreditar, nunca vi um paciente assim ...- O Lúcio já estava em campo, de lupa, e depois fui para o outro lado da mesa, para deixar o local da cirurgia para ele. -... operei apenas duas e 48 horas depois, eles entraram compensados, porque a gente não tinha conseguido tirar a endoprótese ... Como ele está? - Ele olhou para Vercauteren.

- Mais ou menos instável - respondeu o anestesista, que ficava pendurando bolsas de sangue e plasma nos múltiplos acessos venosos que o paciente já possuía.

- Só sangrou em dois lugares, quando soltei a pinça.

—Esta prótese é uma coisa grande ...

- Achei que a aorta estava colapsada e que mais logo teria mais diâmetro - interrompi ele, preocupado com seu comentário.

—Não importa, a gente vai colocar nele ... Há quanto tempo ele tá grampeado?

- 15 minutos, mais ou menos...

Lucio ficou no centro, com Flanco a sua direita e carlos e eu na frente. Otimizados o campo operatório: a separação, a luz e o estágio. Com a experiência do vascular em sua especialidade e com o meu como primeiro auxiliar, a intervenção tomou um ritmo vertiginoso. Procurei não pensar que esse paciente oferecia apenas uma pequena e frágil chance de sobrevivência, que dependia de suas reservas e de nossa perfeição para terminar a operação. E que tudo isso pode desaparecer a qualquer momento.

O Lúcio deu vários pontos na anastomose que eu havia feito e o sangramento parou. Ele mudou-se para o setor distal da prótese e rapidamente confeccionou a outra anastomose. Antes de terminar, ele soltou a pinça proximal e deixou um pouco de sangue escorrer por aquela lacuna. Depois de terminar a sutura, vimos que havia algumas áreas onde o sangue estava jorrando, o que exigiu pontos adicionais. Pensei na coagulopatia visível no terreno vermelho e úmido de toda a cirurgia e na necessidade de colocar uma compressa de gaze. Sempre foi mais difícil e raro tomar a decisão de controlar os danos no tórax do que no abdômen. Ergui os olhos e vi novamente as bandeiras de sangue e plasma erguidas, as bandeiras daquele pequeno exército que havíamos combatido.

- Vamos, dois drenos e feche! Lúcio vai escrever o que quiseres ...

Lúcio afastou-se, tirou a camisa e, olhando atentamente para todos, disse:

—Quero parabenizar todos vocês ... Este caso é extremamente difícil, e o esforço de todos vocês é incrível. Como eles enfrentaram, desde a guarda, e a anestesia, Verca, uma maldita anestesia ...

Seu reconhecimento parecia nos colocar no que estava acontecendo e nos deu um breve encorajamento naquela corrida louca para tirar o paciente vivo da sala de cirurgia. Continuamos e fechamos o tórax a toda velocidade. O paciente não apresentava sinais de insuficiência cardíaca ou ventilatória importante naquele ponto culminante. Queria que ele ficasse na UTI o mais rápido possível. Enquanto ele ainda recebia sangue, plasma e plaquetas, preparamos sua saída e mandei Flaco Madero para a UTI para avisar que íamos para lá. Ao voltar, pedi-lhe que ficasse guardando a porta aberta do elevador, para que não perdêssemos um segundo na transferência.

Não encontramos nenhum familiar fora da sala de cirurgia e em poucos minutos chegamos à UTI. Transferimos para um leito e o residente de terapia intensiva passou a regular o funcionamento do respirador e das bombas de drogas vasoativas. Fiquei alguns minutos à beira do leito para monitorar a secreção dos drenos pleurais, que era seromática e abundante. Eu esperava isso e esperava uma coagulopatia rebelde. E angústia e falha orgânica. Toda uma tempestade que já estava chegando. O objetivo de tirá-lo com vida da sala de cirurgia havia sido cumprido. Mas daquele momento em diante, faltou a outra metade, a segunda metade. Se a primeira tivéssemos jogado em quadra e ela tivesse passado de forma volátil e ardente, a segunda experimentaríamos do banco substituto e seria mais lenta e angustiante.

Lucio me tirou de esses pensamentos.

—Che, tive que separar o Verca da terapeuta ... Eles brigaram!

- Que? – Respondi incrédulo.

- Sim, parece que a terapeuta o censurou muito, ele disse que não haviam avisado que o paciente estava chegando ...

Vercauteren era muito quieto, falava principalmente por meio de gestos e ações de efetiva praticidade. Tudo o que ele fazia era cercado por um respeito, e nunca o vira reagir de forma agressiva. Mas imaginei tensões inevitáveis ​​que poderiam explodi-lo, tanto quanto no meu caso. Era impossível não passar por turbulências emocionais naquele ambiente, onde a equipe precisava tomar decisões em instantes e superar obstáculos com pacientes que estavam no limite. Limite de vida ou morte. Depois, cada um tratou a seu modo, e nem sempre assim foi o mesmo, podendo colidir com o dos outros. Foi nesse desafio e naquela luta diária onde um inevitável e silencioso desgaste pessoal estava se formando, que poderia crescer lentamente até emergir de repente à vista de todos.

Passei pela sala do intensivista e vi pela porta entreaberta o médico de plantão, sentado sozinho, com a cabeça baixa e segurando o pescoço com uma das mãos. Eu estava prestes a entrar e falar com ele, mas decidi não falar. Procurei Vercauteren e não o encontrei, nem na sala de cirurgia nem no porão. Eu já ia ligar para ele quando apareceram na tela do celular mensagens de Carlos sobre novas pessoas traumatizadas que haviam entrado. Essa informação me distraiu e mudei minha direção em direção à sala de choque. O fim daquela vigília e do amanhecer nos encontraria na tomografia, vendo as imagens de um casal de jovens que capotou com um carro.

A euforia e a empolgação que senti depois daquela cirurgia aórtica e depois daquela inesperada sobrevivência inicial começaram a diminuir lentamente nos dias seguintes. O paciente começou a entrar em colapso e seus órgãos a falhar. Foi uma espécie de morte lenta em que houve tempo para nos ajustarmos e nos resignarmos. A decepção viria, embora talvez um pouco mais discreta do que se o paciente tivesse morrido no dia de sua internação no hospital. Ele não teve a dureza de uma morte em sala de cirurgia, com seu testemunho direto de que falhamos em controlar o sangramento. O jovem cedeu lentamente de exaustão, e isso foi menos difícil de aceitar.

Naqueles dias de reflexão, sobre os limites das nossas capacidades e sobre o sentimento de derrota, fui surpreendido por um telefonema. Naquela ocasião, outro amigo anestesiologista me disse que Vercauteren havia sido encontrado com quadro grave de descompensação hemodinâmica e distúrbios eletrolíticos. Já tinha acontecido há vários dias, tiveram que interná-lo, depois já o encaminharam para um centro de reabilitação da Capital. A notícia me abalou e não pude expressar uma opinião. Durante vários dias pensei muito no meu velho de plantão e tentei comunicar-me com ele, mas isso não foi possível, nem naquela semana nem nos meses seguintes, visto que tinha estado isolado do seu ambiente de trabalho no âmbito de um tratamento longo e difícil.

Não pensei nas razões que poderiam ter levado a Verca a cair. Só pensei na barreira invisível que havia entre mim e ele por tanto tempo e que me impediu de perceber que algo estava errado. Vira-o trabalhar de muito perto, sempre de maneira incansável e silenciosa, sem reclamar, e celebrara esse fato como uma virtude. Então pensei sobre o que realmente poderia estar escondido por trás dessas imagens que voltaram para mim do passado. Um Natal sangrento, em que operamos o dia todo quatro esfaqueamentos, que ele anestesiou um após o outro, sem se intimidar, trabalhando sem parar, sozinho, sem residentes ao seu lado. Longas noites em que parávamos de operar apenas quando não havia mais pacientes para operar. E tantos outros momentos semelhantes, em que não havia tempo para conversarmos sobre outra coisa que não o trabalho que fizemos.

Eu sabia reconhecer quando a alma de um paciente passava por um dreno pleural. Mas não sabia como perceber que um colega, que eu admirava e amava, estava deixando sua alma naquele ambiente, que estava deixando também mais de dois litros de si mesmo, ali mesmo onde trabalhávamos sem pausa. Eu não tinha essa capacidade, como se toda a nossa atenção e energia tivessem sido sugadas, repartidas, pela obrigação de nos darmos aos pacientes que apareciam por toda parte. No meio daquele redemoinho, eu não tinha empatia e consciência suficientes para ver que meu parceiro não estava mais livre e feliz, eu não tinha capacidade de perceber que estava sendo sequestrado por forças estranhas e poderosas que o estavam levando para longe de tudo.

3 anos depois

10 horas da manhã

Não reconheci o número de telefone que estava me ligando. Achei que poderia ser um paciente conhecido, que estava em pós-operatório, ou uma nova emergência. Atendi a ligação e, quando ouvi a voz, também não a reconheci.

Ele deveria ter me dito quem ele era.

Era Vecauteren.

Foi como se um raio tivesse atingido minha casa naquele momento, eletrificando tudo ao meu redor e a mim mesmo. E que com uma luz muito potente iluminou uma bobina de memórias que passou em alta velocidade.

Sua voz lentamente começou a se parecer com a que eu conhecia, com a mesma serenidade e o mesmo tom baixo. Ele me contou tudo, com a mesma clareza com que eu sempre o vira trabalhar. Que ele estava de volta, depois de uma longa jornada de escuridão e dor. Que ele finalmente conseguiu sair de uma prisão enlouquecedora onde promessas e sofrimento se revezavam. E que havia recomeçado, longe, em outra cidade. Como se precisasse de outro espaço e outro tempo para se reinicializar completamente.

Naquele momento, eu só queria que ele tivesse paz.

Já não me importava mais se ele voltasse a trabalhar comigo, se continuasse a trabalhar fora da área da cirurgia e da anestesiologia, ou se nem mesmo fosse médico. Eu só queria que ele conseguisse de alguma forma aquele bem-estar íntimo, aquela calma que todos nós buscávamos.

Todos.

Lucio, Carlos 9, Flaco Madero, Vercauteren, o intensivista que lutou com Vercauteren, eu.

Todos nós tentamos à nossa maneira. Sempre. Embora às vezes fiquemos cegos e perdemos a noção dos outros. Embora às vezes perdêssemos a consciência de como cuidar de nós mesmos, e depois deixássemos dois litros de nós mesmos em um coletor.


 
  O autor
 
Guillermo Barillaro
Médico. Oriundo de Tandil, província de Buenos Aires
Dedicou sua carreira à área de Cirugía de Urgências e Trauma, tanto na assistência como na docência.

Membro da Associação Argentina de Cirurgia e Sociedade Panamericana de Trauma, e instrutor do curso internacional ATLS (Apoio Vital Avançado em trauma), programa de orientação aos médicos para o tratamento inicial dos médicos traumatizados.