Arte & Cultura

Publicado el 26 de abril de 2023

Uma história que desafia o "princípio da realidade"

O monstro

Narrar uma experiência é buscar sentido naquilo que parece não ter sentido

Autor/a: Yanina Rosenberg

Do corredor ouvi a voz da minha mãe:

–Você sabia que a Nelly quase foi atropelada por uma moto ontem?

Fiquei parado, com as chaves na mão, perplexo. Nelly? Que Nelly? Com quem a mamãe estava falando? Abri a porta e a fechei com um empurrão de meus quadris.

-Mãe, sou eu, cheguei...

Atravessei o hall de entrada em direção à cozinha e no balcão de mármore deixei os saquinhos do supermercado com os brócolis frescos, os bolinhos de chia, os saquinhos de chá verde, os tabletes de resveratrol. Tudo estava limpo e arrumado, embora na pia houvesse alguns copos usados ​​com suas colheres. Toquei a chaleira, que estava fria, e liguei o fogão para fazer chá. Abri a geladeira e já estava guardando o leite de soja quando ouvi:

–Dois segundos antes, e tchau Nelly, acredita?

Fiquei imóvel de novo, a porta da geladeira aberta com seu barulho ao fundo. Ela teria convidado seus amigos da hidroginástica ou do clube de buraco? Fechei os olhos para ouvir melhor porque:

–... merda, eu também posso sair e uma moto me atropelar...

Abri meus olhos novamente para fechar a geladeira antes de entrar na sala.

-Mãe, cheguei.

A sala estava às escuras, exceto por uma parede que recebia raios de luz pela persiana entreaberta.

– Mãe, onde você foi? Sou eu, cheguei... -Levantei a voz porque parecia que ela escutava cada vez menos.

Voltei para a cozinha e pela lavanderia para o pátio, porque mesmo com esse frio é capaz que ela esteja no pátio, e disse:

–Coloquei água para um chá, vamos beber?

Mamãe, que também não estava no quintal, continuou falando:

–... nem motos nem carros... não senhor, porque eu, querida, tenho que estar aqui com você e só com...

Meu coração pulou algumas batidas antes de bombear novamente. Mamãe com... não, não pode ser... mamãe, mamãe estava com quem?

Voltei para casa e fui direto para o quarto dele. A porta estava entreaberta e não havia nada mais para ser visto do que um triângulo da cama e da mesa de cabeceira. Antes de entrar, parei por um momento para ouvir alguns tinidos seguidos de um tilintar de copos. Dei um passo à frente e bati:

-Mãe?

Sem esperar por uma resposta, empurrei a porta aberta. Mamãe estava sentada na cama, com o roupão parcialmente aberto, sozinha. Aproximei-me dela, beijei-a na testa e sentei-me na cama ao seu lado.

–Escutei sua voz, com quem estava falando?

-Eu? Não.

Ela estendeu a mão para os laços de seu roupão e, quando apertou o nó, seus dedos tremiam como os de Parkinson.

-Como você está, mãe? você se sente bem?

-Sim. Sua boca se moveu para um lado, então seus lábios se separaram com um tapa, e continuou: - e os meninos?

- No colégio, como sempre.

- Gostaria de vê-los. Quando você traze-los?

–Esta tarde, eu te disse, não lembra? Agora eu trouxe algumas coisas do supermercado. Tem certeza de que você está bem? Achei que você estava falando com alguém e...

–Você poderia me comprar umas figurinhas e depois eu te dou o dinheiro?

Concordei, mas continuei:

-Caso não se sinta bem eu posso chamar um médico.

Sua boca se torceu novamente.

-Você está louca? Eu estou bárbara... - com as mãos amassou o cabelo, que mais parecia uma penugem amarelada

- Você pode me levar no cabeleireiro?

Balancei a cabeça como se estivesse no piloto automático quando ouvi a chaleira tremer no fogão.

–Coloquei a água, vamos tomar um chá?

Ela assentiu com a cabeça e, quando saí da cama, quando me sentei e virei as costas para ir até a porta, ouvi as molas da cama rangendo de uma maneira estranha. Haveria alguém debaixo da cama? Virei-me rapidamente como se fosse pegar o amante da mamãe em flagrante, mas o que encontrei foi mamãe lutando com os braços para se levantar. É verdade que nos últimos tempos ela trocou sua agilidade por um andar mais lento, mais robótico, mas ainda se recusava a dividir a casa com uma enfermeira, dizia que não seria louca de colocar uma estranha em sua casa, e que sua falta de elasticidade era normal, que seus problemas estavam apenas no calendário. Aproximei-me, ajudei-a a se levantar e voltei para o corredor. Porém, antes de voltar para a cozinha, voltei para o quarto, quase na ponta dos pés para não fazer barulho, como se guiado por um sexto sentido, e vi que mamãe estava correndo para trancar a porta do armário.

- O que a senhora tem aí?

-Nada. Não quero adoçante hoje, por favor.

Eu concordei, mas:

-O que você está escondendo? Ou quem...

Aproximei-me dela, que ainda estava firme com as chaves na mão ao lado do armário.

-Mamãe, por favor, quem você está escondendo aí... olha, se você deixar ele muito tempo trancado ele vai morrer.

Mais uma vez, sua boca torceu. Ela estava olhando pela janela, como se estivesse ocupada com seus próprios negócios, e aproveitei para me aproximar lentamente e tirar as chaves de suas mãos. Dentro do armário, na única prateleira, em cima de tudo, potes de vidro de diversos tamanhos, e em cada um deles uma massa amarelada, de aspecto viscoso e como que feita de gordura, atravessada por um extenso mapa de veios que, como rios de sangue, terminavam em faixas vermelhas de maior extensão. Com uma das mãos cobri a boca, mas depois me virei e, sem chegar ao banheiro, vomitei no carpete. Mamãe agora estava olhando para mim de onde ela estava, perto do armário, com uma expressão que não conseguia decidir entre vergonha e culpa. Quando meu estômago finalmente se acalmou, sentei-me e olhei para mamãe:

-O que é isso? Por Deus...

-Pelo amor de Deus, nada.

-Que...? O que é? O que você está fazendo aí com essa sujeira?

Ela abaixou a cabeça, como uma menina que sabe que fez algo errado e espera ser punida, e então tornou a me olhar com certa firmeza.

-Mamãe, você quer me dizer o que é isso?

-É...

-É o que?... Era disso que você estava falando?

Mamãe concordou e eu, sem levantar os braços, depois entrelaçados na altura do abdômen como um cinto protetor, me belisquei. A chaleira continuava a tremer.

–Eu não entendo, você... Mãe, você...?

Lentamente, voltei a olhar para cima, voltei a olhar aquelas massas monstruosas e disformes que, com alguma arrogância, nos olhavam do conforto do líquido que presumi ser formol. Demorei para entender o que eram e o que faziam no armário da minha mãe, mas depois de me aproximar um pouco mais, vendo os potes etiquetados com números que deviam ser datas, dias diferentes, meses, anos, imediatamente relacionei cada jarra com cada operação da mãe.

-Mamãe, que nojento, pelo amor de Deus, como pode dormir com isso aí no armário? E os médicos... como os médicos deixaram você trazer isso?

- Eu falo com ele...

-Com o médico?

-Nós somos amigos, certo? disse e olhou para o armário com um sorriso um tanto artificial, como um compromisso, quase o sorriso de um empregado comemorando uma piada idiota de seu chefe.

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-Mãe, eu... eu vou chamar o médico, vamos ligar agora mesmo e...

-Não

A chaleira, não sei quando, havia parado de tremer, e embora eu achasse que o fogo já havia evaporado a água, que logo o aço começaria a queimar, fiquei ao lado de mamãe, esperando algum tipo de explicação minimamente lógica, mas a mãe insistiu:

-Eu estou bem, não...

E eu queria muito acreditar nela, mas e se fosse como o médico disse? E se mamãe tivesse começado a ter alucinações? Há quanto tempo teria começado...? Os sintomas podem piorar tão rápido? Como poderia ser, se apenas ontem...? Quando parei de pensar nisso, vi que mamãe, na ponta dos pés, estendia os braços para passar, quase com carinho, uma flanela pelo vidro dos potes, um gesto maternal, protetor, que associei ao de um adulto ao cobrir as orelhas de um cara pouco antes de dizer algo ultrajante.

– Por favor, mamãe, deixe eu jogar esses potes no lixo.

Aproximei-me e peguei um pote, o maior, que devia pesar mais de dois quilos, e presumi que fosse o da primeira operação. Mamãe, ainda na ponta dos pés, apoiou toda a sola no chão, com o suspiro de alívio de quem pisa em terra firme, e ao mesmo tempo uma careta que parecia tirada de um filme de terror.

- Não, disse, agarrando meu braço com uma força que eu não sabia que poderia ter.

Virei-me e caminhei em direção ao corredor com a garrafa na mão; Mamãe me seguiu sem largar meu braço.

-Saia, me dê o pote agora.

-Saia, está doendo.

-Não.

-Sim, mamãe, agora jogaremos tudo fora! Levantei a garrafa com um gesto nojento, embora para evitar olhar para ela, virei a cabeça para o outro lado.

-Não.

-Eu estou te pedindo por favor mamãe, o médico disse que você tem que ser positiva, pensar em coisas bonitas e não...

-Não!

–Você escutou ele, ele disse que se você começasse a ver... não sei, coisas, que a gente ligasse para ele, que ele te daria uns comprimidos e...

-Não, por favor.

De volta à cozinha, ao lado da lata de lixo, com o braço pronto para enfiar a jarra, mamãe me olhou fixamente. E pela primeira vez desde que ela estivera doente, vi toda a sua força derreter, tornar-se líquida em seus olhos. E naquele Aleph de lágrimas eu também a vi, cansada, de boné, a caminho da sala de cirurgia de novo e de novo, sua máscara de eu sou forte, sua saudação guerreira de até logo, e as enfermeiras ainda a manipulando corpo anestesiado na cama do hospital; Eu vi seus cafés da manhã com iodo radioativo e seus efeitos adversos de ir ao banheiro o tempo todo; Eu vi a casa dos Mataderos e minha mãe quando menina, como ela cuidou de sua própria mãe quando, quando ela adoeceu, assim como ela, adoeceu sem voltar atrás; Eu vi a mãe como a mãe de seus próprios irmãos e também a vi me fazendo tranças para um ato escolar; Eu vi suas raquetes de tênis, os dias de sua amiga em Colônia, todos os seus amigos, ela e meu pai também; vi suas sobrancelhas maquiadas e seus sorrisos, suas presas irregulares, os brincos de pedras roxas, suas bochechas peroladas pelo creme antienvelhecimento; Até consegui ver o apartamento da rua Artigas, e uma noite quando eu com seis ou sete anos estava com febre, suas mãos com panos frios na minha testa, e seus braços, como os braços, porque só os braços, conseguiam para me acalmar. Entendi que deveria dar alguns passos para o lado e abraçar mamãe com força.


Autora: Yanina Rosemberg

  

É farmacêutica e graduada em Letras. É autora de La piel intrusa (Páginas de Espuma, 2019), livro de contos premiado pela Fundação El Libro. Traduzido para o inglês, seus contos foram publicados em jornais, antologias e revistas literárias internacionais como Trampset, Granta, The Journal, Iowa Literaria, Ñ/Clarín Magazine, entre outras, e receberam prêmios na Argentina, Peru e Espanha. Seu primeiro romance, Stockholm Moment, foi homenageado pelo National Endowment for the Arts.