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Publicado el 9 de junio de 2026

Níveis baixos de vitamina D foram associados a infecções respiratórias graves em diversos grupos étnicos

Pacientes com níveis de vitamina D abaixo de 15 nmol/L apresentam uma vulnerabilidade 33% maior a hospitalizações por pneumonia, influenza e outras infecções agudas em comparação a indivíduos com níveis ≥75 nmol/L.

As infecções do trato respiratório (ITR) constituem uma das principais ameaças à saúde pública mundial, gerando altos índices de morbidade e mortalidade em diversas faixas etárias e populações. Neste contexto, o status da vitamina D tem sido proposto como um fator de risco potencialmente modificável, uma vez que a substância desempenha funções imunomoduladoras cruciais, tanto antivirais quanto antibacterianas. Diversos estudos corroboraram essa hipótese ao demonstrarem uma relação inversa entre as concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D] e a suscetibilidade a ITRs. Contudo, a literatura científica ainda apresenta limitações, pois muitos desses baseiam-se em dados autorrelatados pelos pacientes e os ensaios de intervenção demonstraram resultados equívocos, possivelmente devido à heterogeneidade dos níveis basais de vitamina D e dos regimes de dosagem utilizados.

Um ponto crítico são as disparidades étnicas observadas nas taxas de hospitalização e mortalidade por ITR no Reino Unido. Populações com pele escura apresentaram riscos significativamente elevados em comparação com as brancas, uma diferença que não é totalmente explicada por comorbidades ou fatores sociodemográficos. A hipótese central é que a maior prevalência de deficiência de vitamina D nesses grupos possa contribuir para essa vulnerabilidade. Como as pesquisas anteriores focaram predominantemente em populações brancas, Bournot e colaboradores (2026) realizaram um estudo inédito com objetivo de associar o status de vitamina D e a hospitalização por ITR em uma coorte etnicamente diversa utilizando dados do UK Biobank.

Para o estudo, o método aplicado consistiu em uma análise de caso-controle não pareada, que incluiu análises de sobrevivência, utilizando a base de dados do UK Biobank. Para compor a amostra analítica final, os pesquisadores selecionaram pessoas que possuíam medições válidas de vitamina D sérica e registros hospitalares vinculados para ITR.

A variável de exposição principal foi o status sérico de 25(OH)D, determinado a partir de amostras de sangue coletadas na visita inicial em qualquer estação do ano. A quantificação foi realizada por meio de imunoensaio de quimioluminescência (DiaSorin Liaison XL), com um limite inferior de detecção de 10 nmol/L. Para fins de categorização clínica e estatística, os níveis de vitamina D foram estratificados em cinco faixas: <15 nmol/L, 15 a 24 nmol/L, 25 a 49 nmol/L, 50 a 74 nmol/L e ≥75 nmol/L.

O desfecho clínico foi definido como a hospitalização por ITR, identificada objetivamente através de registros hospitalares. Para mitigar o risco de vieses, os modelos estatísticos foram ajustados por uma ampla gama de variáveis de confusão. Estas incluíram fatores demográficos (sexo e idade), antropométricos (índice de massa muscular), socioeconômicos (índice de privação de Townsend, renda e região), hábitos de vida (tabagismo), fatores dietéticos (uso de suplementos contendo vitamina D) e clínicos (estado de saúde autorrelatado e uso de estatinas), além da estação do ano na coleta de sangue. O uso de suplementos e a ingestão dietética de vitamina D foram avaliados por meio de questionários validados de frequência alimentar de 24 horas (Oxford WebQ).

Os resultados evidenciaram que, de uma amostra inicial de 36.258 participantes, 3.100 (8,5%) foram hospitalizados por ITR ao longo de um período mediano de acompanhamento de 14,8 anos. Na análise estatística final, que incluiu 27.872 indivíduos com dados completos para todos os ajustes, observou-se que diversos fatores basais foram significativamente associados ao desfecho clínico. Indivíduos hospitalizados eram, em média, mais velhos (mediana de 59 anos), predominantemente do sexo masculino, tabagistas, usuários de estatinas e apresentavam maior índice de massa corporal (IMC ≥ 30 kg/m²), além de relatarem piores níveis de saúde e menores faixas de renda.

Observou-se uma disparidade acentuada nas concentrações séricas de 25(OH)D entre os grupos étnicos. Participantes brancos apresentaram a maior concentração mediana (48,1 nmol/L), seguidos por indivíduos de etnia mista (36,3 nmol/L), "outros" (31,3 nmol/L) e negros (30,2 nmol/L). A menor mediana foi registrada no grupo de etnia asiática, com 23,4 nmol/L. Apesar dessas variações, a incidência bruta de hospitalização por ITR foi similar entre os diferentes grupos étnicos estudados.

A análise de riscos proporcionais de Cox revelou uma associação inversa e significativa entre o status de vitamina D e o risco de hospitalização. Cada incremento de 10 nmol/L nas concentrações de 25(OH)D foi associado a uma redução de 4% na razão de risco (RR) para hospitalização por ITR. Ao estratificar os dados por categorias clínicas, participantes com deficiência grave (<15 nmol/L) apresentaram um risco 33% maior de hospitalização em comparação com o grupo de referência com níveis ≥ 75 nmol/L. As faixas intermediárias (15–24, 25–49 e 50–74 nmol/L) não demonstraram associações estatisticamente significativas em relação ao grupo de referência.

Por fim, o estudo testou a possibilidade de a etnia atuar como um modificador de efeito na relação entre vitamina D e ITR através de um termo de interação, porém este não se mostrou estatisticamente significativo, sugerindo que a proteção conferida por níveis adequados de vitamina D foi consistente entre as etnias. Entretanto, modelos de regressão logística específicos por subgrupo indicaram que participantes de etnia negra apresentaram uma probabilidade significativamente elevada de hospitalização.

Em suma, Bournot e colaboradores (2026) demonstraram uma associação inversa e linear entre os níveis séricos de 25(OH)D e o risco de hospitalização por ITR. Especificamente, os dados demonstraram que cada aumento de 10 nmol/L nas concentrações de vitamina D está associado a uma redução de 4% na RR de internação hospitalar. O achado mais significativo apontou que indivíduos com deficiência grave (<15 nmol/L) possuem um risco 33% maior de hospitalização em comparação com aqueles que mantêm níveis considerados adequados (≥75 nmol/L).

Embora tenham sido observadas variações acentuadas nos níveis de vitamina D entre diferentes grupos étnicos, a análise estatística não encontrou uma interação significativa entre esses fatores, sugerindo que o efeito protetor da substância foi consistente entre os diversos grupos.

Os resultados sugeriram que as estratégias de prevenção devem focar especialmente em populações com alta prevalência de deficiência. Pesquisas, especialmente ensaios clínicos controlados com regimes de dosagem específicos e estudos em coortes mais jovens, são recomendadas para aprofundar o entendimento dos mecanismos biológicos envolvidos e validar as diretrizes de suplementação.