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/ Publicado el 17 de diciembre de 2024

Uma revisão para a prática clínica

Vaginose citolítica, lactobacilose e leptotrix

Atualização para compreensão da etiologia, diagnóstico e manejo dessas condições

Autor/a: Kraut & Baptista (2023)

Fuente: ISSVD CYTOLYTIC VAGINOSIS, LACTOBACILLOSIS AND LEPTOTHRIX

A vaginose citolítica (VC), lactobacilose e leptotrix são condições caracterizadas pela alta concentração de lactobacilos na microbiota vaginal, acompanhada ou não de citólise. Estima-se que essas condições possam representar até 5% dos casos de vaginite. Como os lactobacilos são amplamente reconhecidos como marcadores de saúde vaginal, há uma tendência de ceticismo em relação ao diagnóstico dessas condições.

Na abordagem atual, lactobacilose é vista como um aumento de lactobacilos sem a presença de citólise, possivelmente representando uma variação dentro do espectro da VC. Por outro lado, o termo “leptotrix” é usado para descrever uma condição distinta, caracterizada pela presença de bactérias alongadas e serpiginosas, provavelmente lactobacilos, também sem citólise.

Vaginose citolítica

A vaginose citolítica foi descrita pela primeira vez na década de 1960, com base em observações clínicas. Evidências indicaram que o padrão citolítico é mais comum durante a gravidez e em mulheres com menos de 40 anos, enquanto parece ocorrer com menor frequência em mulheres com atividade sexual frequente. A VC pode apresentar sinais como eritema, edema e erosões. Os sintomas mais comuns incluem secreção vaginal excessiva, prurido, sensação de queimação, disúria, dor e dispareunia, sendo que esses sintomas tendem a se intensificar após a ovulação e a melhorar com o início da menstruação.

Para o diagnóstico, é recomendada a microscopia em lâmina a fresco, que pode ser complementada com colorações de Gram ou Papanicolau. A microscopia pode revelar uma quantidade abundante de lactobacilos de diferentes comprimentos, associada a escassez de células epiteliais. O pH vaginal, geralmente, é baixo (em torno de 3,6), e o teste de odor (whiff test) é negativo.

Imagem 1. Vaginose citolítica. A - Microscopia em lâmina a fresco (400x, contraste de fase); B - Coloração de Gram (1000x, imersão em óleo); C - Esfregaço de Papanicolau (convencional) (400x). Imagem adaptada de Kraut e Baptista (2023).

O tratamento mais comum para a vaginose citolítica é o uso de bicarbonato de sódio, em forma de irrigação ou banhos de assento. Embora algumas mulheres respondam em poucas semanas, a maioria necessita de tratamento prolongado, podendo se estender por meses ou anos conforme a necessidade. Manter um registro dos sintomas pode ajudar as pacientes a identificarem padrões e utilizar o bicarbonato profilaticamente. Embora o tratamento não cure a VC, ele permite o controle eficaz dos sintomas.

Como alternativa, antibióticos vaginais podem ser considerados se o bicarbonato de sódio não for suficiente, mas a eficácia é limitada e temporária. Em casos de VC associada à Candida spp., é recomendável tratar a infecção por cândida antes de reavaliar a necessidade de outros tratamentos.

Leptothrix

A primeira descrição dessas bactérias foi em 1861, e desde então elas têm sido identificadas em amostras de Papanicolau. Embora inicialmente se acreditasse que a leptothrix fosse um tipo de lactobacilo, sua classificação exata permanece indefinida até hoje. Em um estudo recente envolvendo 3.620 mulheres, foi relatada uma prevalência de 2,8% dessas bactérias. Outros estudos indicaram que a leptothrix é mais prevalente em mulheres vivendo com HIV. A forma alongada dessas bactérias pode estar relacionada ao uso prévio de antibióticos e medicamentos antifúngicos, o que leva ao aparecimento de estruturas esticadas. Na maioria dos casos, as mulheres com leptothrix são assintomáticas, mas, quando presentes, os sintomas incluem secreção espessa, branca, turva ou cremosa, além de irritação vulvar, queimação ou coceira. Os sintomas podem ser cíclicos, atingindo o pico antes da menstruação e diminuindo durante o período menstrual.

O diagnóstico é feito por microscopia, na qual se identificam bacilos sem sinais de citólise. Esses bacilos, por vezes, são longos, serpiginosos, imóveis, não ramificados e, ocasionalmente, segmentados. Em esfregaços de Papanicolau, essas bactérias costumam se corar em azul, sendo mais facilmente identificadas em esfregaços convencionais do que na citologia em meio líquido. Com a coloração de Gram, aparecem como bastonetes Gram-positivos.

Imagem 2. Leptothrix observada usando coloração de Gram. Imagem adaptada de Kraut e Baptista (2023).

Estudos iniciais sobre o tratamento indicaram que os lactobacilos envolvidos são sensíveis in vitro a penicilina, ampicilina, tetraciclina, clindamicina e doxiciclina, mas apresentam resistência ao metronidazol, trimetoprima, gentamicina, amicacina, tobramicina, cefalexina e ofloxacina. Evidências mostraram que o uso de amoxicilina com clavulanato levou à eliminação dos sintomas na maioria dos casos, e que a doxiciclina foi eficaz em todos os seis casos em que foi prescrita.

Considerações futuras

A vaginose citolítica, lactobacilose e leptotrix são condições cuja etiologia, complicações e tratamentos ainda não estão completamente compreendidos. O avanço no diagnóstico, nas opções terapêuticas e na compreensão de suas associações com outras condições de saúde, bem como a realização de mais estudos, serão fundamentais para o futuro dessas condições.