Pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP criaram um protótipo inovador para diagnóstico do câncer de mama: um tomógrafo por ultrassom chamado TomUS. A tecnologia, desenvolvida integralmente no Brasil, está em fase de testes clínicos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) e promete oferecer uma alternativa segura, confortável e sem radiação para complementar os métodos tradicionais.
Como funciona o TomUS?
O equipamento utiliza ondas sonoras em vez de radiação ionizante e dispensa a compressão das mamas, garantindo maior conforto às pacientes. Durante o exame, que dura cerca de cinco minutos, a mulher se deita de bruços em uma maca com um orifício para posicionar a mama, que fica imersa em água morna — meio que facilita a propagação das ondas ultrassônicas. Todo o processo é automatizado por um braço robótico que realiza a varredura completa do tecido mamário em múltiplos ângulos.
As imagens obtidas são reconstruídas por um software em formato tridimensional, permitindo ao médico “navegar” pelo tecido e visualizar cortes em diferentes profundidades. Essa abordagem aumenta a precisão na detecção de pequenas lesões, especialmente em mulheres com mamas densas, onde a mamografia tradicional apresenta limitações.
Tecnologia nacional e inteligência artificial
O TomUS foi desenvolvido pelo Grupo de Inovação e Instrumentação Médica e Ultrassom (Giimus), do Departamento de Física da FFCLRP. Além da automação, o sistema incorpora inteligência artificial para análise das imagens, garantindo maior padronização e precisão conforme a base de dados cresce. As imagens são enviadas para um banco em nuvem, permitindo que radiologistas emitam laudos à distância via telessaúde. Isso possibilita que o exame seja realizado por técnicos treinados, democratizando o acesso ao diagnóstico.
Resultados promissores
Nos testes iniciais com modelos físicos e voluntárias saudáveis, o TomUS demonstrou-se capaz de distinguir estruturas internas e reconstruir imagens tridimensionais com alta fidelidade e reprodutibilidade. Em um caso, o equipamento identificou precocemente uma lesão em uma voluntária, confirmada por exames convencionais e tratada rapidamente. De acordo com o pesquisador, esse fato foi a evidência do potencial da tecnologia para salvar vidas.
Próximos passos e impacto no SUS
Embora o protótipo já esteja funcional, os pesquisadores destacaram que ainda serão necessários estudos comparativos com métodos tradicionais para definir os limites do equipamento, como a menor lesão detectável. O objetivo é disponibilizar a tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em regiões com baixa cobertura de mamografia, como áreas da Amazônia e do Nordeste.
Para acelerar essa integração, o Giimus planeja lançar uma startup em parceria com o Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto. O projeto conta com apoio da Fapesp, CNPq, Capes e recursos parlamentares destinados à validação do protótipo.
Por que é uma conquista nacional?
Atualmente, todos os equipamentos de ultrassom utilizados no Brasil são importados, o que limita a adaptação de protocolos e aumenta os custos. O TomUS, desenvolvido com ciência e engenharia brasileiras, representa um avanço estratégico para reduzir dependência externa e fortalecer a indústria nacional de tecnologia médica.
USP Imagens: imagens captadas pelo tomógrafo: toda a tecnologia envolvida é de origem nacional - Foto: Adilton Carneiro/FFCLRP