| Introdução |
No mundo, a cannabis está entre as drogas ilícitas mais amplamente utilizadas para fins não medicinais. Diversos estudos indicaram que o seu consumo está associado a uma série de condições psiquiátricas e somáticas, como ansiedade, esquizofrenia, depressão, dependência, bronquite crônica, infecções respiratórias, câncer de pulmão, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral. Entretanto, a relação entre a substância e o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 ainda é pouco compreendida.
Os principais componentes bioativos da planta cannabis são o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), pertencentes a uma classe de compostos químicos denominados canabinoides. Esses compostos interagem com receptores celulares envolvidos na modulação da liberação de neurotransmissores no cérebro. Evidências em modelos animais sugeriram que os canabinoides, especialmente o THC, podem estimular o apetite e influenciar comportamentos alimentares impulsivos. Por outro lado, o CBD pode reduzir significativamente, ou retardar, o surgimento do diabetes tipo 2 em modelos experimentais.
Considerando a escassez de estudos sobre o tema, Danielsson e colaboradores (2016) realizaram um estudo de coorte populacional com o objetivo de investigar a possível associação entre o uso de cannabis e o diabetes tipo 2. O estudo buscou determinar se esse consumo está associado a um aumento ou redução no risco de desenvolver diabetes tipo 2, avaliando também se essa associação persiste após o controle de potenciais fatores de confusão.
| Métodos |
O estudo de coorte de base populacional envolveu 17.967 homens e mulheres suecos, com idades entre 18 e 84 anos, que responderam a um questionário em 2002 sobre o uso de cannabis. Os participantes foram acompanhados para a identificação de novos casos de diabetes tipo 2 (n=608), inicialmente por meio de um novo questionário aplicado em 2010 e, posteriormente, por registros de saúde entre 2011 e 2013. As razões de chances (ORs) com intervalos de confiança de 95% (ICs 95%) foram calculadas utilizando análise de regressão logística múltipla. A análise também considerou potenciais fatores de confusão, como idade, sexo, índice de massa corporal (IMC), inatividade física, tabagismo, consumo de álcool e posição ocupacional.
| Resultados |
Após as análises, a associação inicial indicou que os usuários de cannabis apresentaram um risco reduzido de desenvolvimento de diabetes tipo 2, com uma razão de chances (OR) de 0,68 (intervalo de confiança de 95%: 0,47–0,99). Contudo, essa associação foi atenuada após o ajuste para a variável idade, resultando em uma OR de 0,94 (IC 95%: 0,63–1,39).
| Conclusão |
Os resultados do estudo de Danielsson e colaboradores (2016) não identificaram uma associação significativa entre o uso de cannabis e o desenvolvimento subsequente de diabetes tipo 2 após o ajuste para a variável idade. Para obter evidências mais robustas, são necessários estudos longitudinais com períodos de acompanhamento mais extensos e dados mais detalhados sobre os padrões de uso da cannabis.