Há evidências crescentes associando o consumo de alimentos ultraprocessados (AUPs) a problemas de saúde. Diversos estudos mostraram associações entre o seu consumo e o aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, cânceres e mortalidade por todas as causas.
Apesar dessas associações, os mecanismos pelos quais os AUPs contribuem para o ganho de peso não são totalmente compreendidos. Uma diferença importante entre os alimentos tradicionais e os alimentos processados no mundo industrializado é a maior necessidade de mastigação no caso dos alimentos tradicionais. Estes normalmente contêm grandes quantidades de fibra, o que exige mastigação e, assim, são consumidos de forma relativamente mais lenta.
Por isso, Hamano e colaboradores (2024) realizaram um estudo para elucidar os efeitos do consumo de AUPs sobre o peso corporal, a ingestão de energia, o metabolismo e a frequência de mastigação em comparação com o consumo de alimentos não ultraprocessados (não-AUPs).
Para isso, os autores realizaram um estudo randomizado, aberto e cruzado no Hospital da Universidade de Tóquio com participantes japoneses do sexo masculino com sobrepeso/obesidade. Eles foram aleatoriamente designados (1:1) para iniciar o estudo com o consumo de AUPs ou alimentos não-AUPs por 1 semana, seguido de um período de washout de 2 semanas, antes de fazerem a troca para a dieta alternativa por 1 semana. As refeições foram planejadas para ter níveis totais de energia e macronutrientes equivalentes. O principal desfecho foi a diferença na mudança de peso corporal entre os períodos de AUP e não-AUP. As diferenças na ingestão média diária de energia e na frequência de mastigação foram avaliadas como um dos desfechos secundários.
No total, nove participantes foram elegíveis e todos completaram o estudo. Durante o período de consumo de AUPs, os participantes ganharam 1,1 kg a mais de peso e consumiram, em média, 813,5 kcal a mais por dia em comparação com o período de alimentos não-AUPs. Em relação à frequência de mastigação, o número de mastigações por caloria foi significativamente menor durante o período de AUPs.
As medições em amostras de sangue em jejum mostraram uma diminuição significativa nos níveis de colesterol LDL durante o período de alimentos não-AUPs, enquanto nenhuma alteração significativa nos níveis de LDL foi observada durante o período de AUPs. Em relação às variáveis de inflamação hepática, aumentos significativos nos níveis sanguíneos de AST, ALT e GTT foram observados ao final do período de AUPs, em comparação com os valores basais, enquanto nenhuma alteração foi observada nesses parâmetros durante o período de não-AUPs.
Em conclusão, os aumentos significativos no peso corporal e na ingestão energética observados durante o período de consumo de AUPs destacaram a potencial contribuição do consumo elevado desses alimentos para a crescente prevalência de obesidade no mundo moderno. Além disso, as mudanças significativas na taxa de ingestão e na frequência de mastigação dos AUPs reforçam ainda mais a relação complexa entre o consumo desses alimentos e o aumento do peso corporal. A terapia nutricional médica focada na redução do consumo de AUPs pode ser uma estratégia eficaz para a prevenção da obesidade.