| Introdução |
O trauma infantil, definido como a exposição direta ou indireta à morte real ou ameaçada, lesões graves ou violência sexual, está fortemente ligado à psicopatologia, com evidências meta-analíticas mostrando que as chances de transtornos psiquiátricos são quase três vezes maiores entre aqueles expostos a trauma infantil. No entanto, as evidências epidemiológicas existentes têm limitações importantes. Jovens em países de baixa e média renda (PBMRs) são sub-representados nesses estudos, embora a maioria das crianças do mundo viva nestes ambientes e a prevalência de exposição a trauma seja maior neles do que em países de alta renda.
A adolescência é um período chave de risco tanto para a exposição ao trauma quanto para o surgimento de transtornos mentais. Comparados com crianças, jovens com idades entre 12 e 19 anos são mais propensos a serem expostos a tipos específicos de traumas (por exemplo, violência comunitária), e há aumentos marcantes em transtornos de ansiedade, humor e uso de substâncias durante este período de desenvolvimento.
Por isso, Bailey e colaboradores (2025) avaliaram as taxas de exposição ao trauma e transtornos psiquiátricos em adolescentes brasileiros aos 15 e 18 anos de idade da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004.
| Métodos |
Na Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004, os diagnósticos psiquiátricos [transtornos de ansiedade, humor, atenção–hiperatividade e opositor desafiador (ODT)] foram avaliados aos 15 anos (Avaliação de Desenvolvimento e Bem-Estar relatada pelos cuidadores) e aos 18 anos (Mini-Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional auto-relatada). O trauma cumulativo ao longo da vida foi avaliado por meio de relato do cuidador até os 11 anos e, posteriormente, por meio de auto-relato combinado ao do cuidador. A exposição a 12 tipos de trauma foi avaliada (acidente grave, incêndio, outro desastre, ataque ou ameaça, abuso físico, abuso sexual, testemunho de violência doméstica, testemunho de ataque, testemunho de acidente, ouviu falar de ataque, ouviu falar de acidente e morte parental). Devido à alta prevalência de exposição ao trauma na amostra, o número de diferentes tipos de exposição ao trauma relatados foi extraído como um proxy para a carga cumulativa de trauma. As associações transversais e longitudinais entre a carga cumulativa de trauma e transtornos psiquiátricos durante a adolescência foram avaliadas usando regressão logística, ajustando para fatores de confusão e psicopatologia infantil pré-existente aos 48 meses. Também foram calculadas as frações atribuíveis à população (FAPs) para associações de trauma–saúde mental aos 18 anos.
| Resultados |
Dos 4.263 nascidos vivos, 4.231 foram recrutados para a coorte ao nascer. Cerca de 55% dos adolescentes aos 15 anos (devido à interrupção da coleta de dados em razão da pandemia da COVID-19) e 25% aos 18 anos apresentavam dados faltantes. Na tabela 1 é representada quantos participantes apresentaram pelo menos um transtorno psiquiátrico e quantos foram expostos a pelo menos um trauma aos 15 e 18 anos.

Tabela 1: Relação entre a quantidade de traumas expostos nos participantes do estudo.
Aos 15 anos, a probabilidade de qualquer transtorno e ODT aumentou para cada aumento de categoria no trauma cumulativo, mas os de humor e de atenção–hiperatividade não foram relacionados a esse evento. Aos 18 anos, a probabilidade de qualquer transtorno, de ansiedade, de humor, de atenção–hiperatividade e de ODT cresceram para cada aumento de categoria no trauma cumulativo.
Nas análises longitudinais, cada aumento de categoria no trauma cumulativo aos 11 anos foi associado a uma maior chance de qualquer transtorno, de ansiedade e de ODT aos 15 anos O trauma até os 15 anos foi associado a um aumento nas chances de qualquer transtorno, de ansiedade, de humor e de ODT aos 18 anos. O trauma até os 11 anos não foi preditivo de transtornos aos 18 anos, e não houve associações longitudinais entre trauma e transtornos de atenção–hiperatividade.
As estimativas indicaram que a exposição ao trauma representou 30,6% dos transtornos psiquiátricos aos 18 anos.
| Conclusão |
Bailey e colaboradores (2025) demonstraram que os transtornos psiquiátricos, particularmente o opositor desafiador, foram substancialmente elevados entre os adolescentes expostos ao trauma. Profissionais de saúde, especialmente em PBMRs, devem estar cientes de que a exposição ao trauma é altamente prevalente entre esses jovens e está associada a várias classes de transtornos psiquiátricos. O apoio a programas de prevenção e intervenção é crucial para implementar estratégias generalizadas para reduzir a exposição ao trauma e construir recursos individuais, familiares e sociais que ajudem a promover a resiliência e outros resultados positivos.