Resultados de uma pesquisa que contou com a colaboração do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e conduzida pela University College of London (UCL) mostraram que o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) costuma ser subdiagnosticado nos atendimentos realizados nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e mesmo nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da região Sul da cidade de São Paulo que participaram do estudo.
O TEPT é um conjunto de sintomas físicos e psíquicos que surge após eventos traumáticos tais como o isolamento social, taquicardia, suores, dores de cabeça causados por um estado de constante alerta e uma reexperiência traumática, quando a pessoa passa todo o tempo lembrando do evento que ocasionou o trauma, sem conseguir esquecê-lo ou ressignificá-lo.
Entre junho e outubro de 2020 foram entrevistados 58 profissionais de saúde que atendiam adolescentes residentes em áreas consideradas vulneráveis à exposição à violência comunitária e uma série de violências estruturais. Os entrevistados apontaram que as circunstâncias de vida desses adolescentes não poderiam ser reduzidas a um único evento traumático individual, mas sim a situações recorrentes de violência familiar e de bullying na escola. Os eventos recorrentes acabavam levando a sintomas diversos e mais graves do que havia sido listado como indicadores de TEPT, tais como mutilações ou tendências suicidas que exigiam atenção imediata e colocavam de lado qualquer prognóstico mais elaborado sobre a saúde mental dos sujeitos.
Recentemente, a conceituação de TEPT foi ampliada por especialistas e passou a incorporar também as situações recorrentes de trauma: o transtorno de estresse pós-traumático complexo (CPTSD) foi reconhecido como uma doença mental segundo a Classificação Internacional de Doenças n.11 (CID-11), que entrou em vigor no início de 2022.
Essa ampliação do conceito de TEPT para CPTSD foi capaz de se aproximar dos sintomas apresentados pela população estudada de jovens periféricos.
O estudo Local understandings of PTSD and complex PTSD among health professionals working with adolescents in violent neighbourhoods of São Paulo city, Brazil foi publicado na BMC Psiquiatry em uma parceria entre a University College London, órgão financiador do estudo, com a coordenação da professora Ligia Kiss, supervisão de Alessandro Massazza e pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva.
Os resultados mostraram que a existência do diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático tem relevância para profissionais da área. Isso ocorre porque “se aproxima muito mais com as demandas que são apresentadas no contexto da saúde dos jovens no território, quando não se tem um evento específico, mas eventos de violência conectados e repetidos, numa exposição prolongada a essas situações”, explica a cientista social Juliana Feliciano de Almeida, mestre em saúde coletiva pelo Departamento de Medicina Preventiva (DMP), uma das autoras do artigo e responsável pela análise das entrevistas dos profissionais de saúde.
De fato, como apontam os resultados, 68% dos entrevistados foram capazes de dar um exemplo concreto de alguém que poderia se encaixar neste diagnóstico.
Como conclusão do estudo, Juliana assinalou que “o fato desses profissionais não conhecerem até então um diagnóstico específico não quer dizer que esses profissionais não reconheçam situações de violência. Eles são capazes de fazer isso e também definir estratégias de cuidado e enfrentamento das demandas.”