Um estudo conduzido pela Pediatric Heart Transplantation Society investigou os efeitos a longo prazo das cirurgias de transplantes cardíacos pediátricos. A pesquisa revelou que fatores como idade na cirurgia, sexo e etnia influenciam a sobrevida dos pacientes.
Entre os homens que alcançaram três anos de sobrevida após a cirurgia, 74,78% sobreviveram por pelo menos uma década, enquanto, entre as mulheres, esse índice foi de 70%. A diferença é ainda mais acentuada entre os grupos raciais: 74,79% dos pacientes brancos atingiram a sobrevida de dez anos ou mais, contra apenas 64,47% dos pacientes negros.
“A ideia era identificar essas disparidades para, um dia, alcançar uma equidade na taxas de sobrevivências globais”, destacou Estela Azeka, professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e coautora do artigo. Ela explicou que existem muitos estudos sobre os resultados imediatos após a cirurgia, mas que os efeitos a longo prazo precisam ser mais bem compreendidos.
Os pesquisadores analisaram dados de 1.610 pacientes submetidos ao transplante cardíaco pediátrico antes dos dez anos de idade, entre 1993 e 2010, utilizando o banco de dados da Pediatric Heart Transplantation Society. A plataforma reúne informações de transplantes realizados globalmente.
A idade no momento da cirurgia também foi um fator determinante. Crianças transplantadas com menos de um ano de idade apresentaram melhores taxas de sobrevivência a longo prazo, com 79,62% alcançando a sobrevida de dez anos ou mais. Esse índice caiu para 68,1% entre aquelas operadas entre um e cinco anos e para 61,3% nas transplantadas entre sete e dez anos.
Esses resultados foram de concordância com outros estudos desenvolvidos ao redor do mundo. Um artigo publicado pela International Society for Heart and Lung Transplantation Registry, por exemplo, indicou que o tempo de sobrevida de pessoas transplantadas na adolescência é menor do que as na infância.
A rejeição ao órgão transplantado ao longo do tempo também foi avaliada. As taxas de aceitação do enxerto foram de 84,2% após 15 anos e de 80,1% após 20 anos da cirurgia. Já a vasculopatia do enxerto cardíaco foi identificada como uma das principais limitações no pós-transplante, surgindo geralmente por volta dos cinco anos de idade e podendo levar à necessidade de um novo transplante. A condição denomina um fenômeno em que o vaso cardíaco se estreita, bloqueando a circulação do sangue – isso ocorre devido a uma desregulação do sistema imunológico. Ao reconhecer o coração novo como algo ‘estranho’, as células da parede arterial começam a proliferar, para combater o tecido não identificado, e passam a ocupar a camada mais íntima da artéria.
A pesquisa empregou o Método Kaplan-Meier para calcular a sobrevida condicional do enxerto, métrica que estima a probabilidade de o coração transplantado continuar funcional considerando que já sobreviveu por um período específico.
“O raciocínio é o seguinte: existem complicações que, se não foram desenvolvidas dentro de X anos, são mais improváveis de se desenvolverem nos anos seguintes. Pegando um recorte da sobrevida condicional, podemos avaliar as variáveis de maneira mais precisa”, afirmou Estela Azeka.
A sobrevida condicional escolhida no estudo é de 3 anos. Isso quer dizer que os pesquisadores desconsideram os dados de pessoas cuja sobrevida foi inferior a esse número. Os resultados mostram que, 25 anos após o transplante, entre 60% e 70% dos pacientes ainda têm o enxerto funcional.
Entre os maiores motivos de mortalidade a longo prazo, a professora aponta: vasculopatia do enxerto cardíaco, câncer, doenças cardíacas congênitas e rejeição ao órgão.
| Transplante cardíaco pediátrico |
No Brasil, a prática do transplante cardíaco pediátrico se iniciou em 1992. Desde então, o Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, já realizou mais de 333 cirurgias desse tipo. A professora Estela Azeka participa do programa desde sua implementação e destacou os avanços científicos: “Da primeira para a segunda década, nós dobramos o número de transplantes; e da segunda para a terceira também”, afirmou.
Apesar do progresso científico e das novas terapias medicamentosas, a pesquisadora apontou que um dos principais desafios para o transplante cardíaco pediátrico no Brasil é a conscientização sobre a doação de órgãos.
Além dos fatores sociais, a professora enfatizou a importância de estudos que avaliem a questão genética envolvida na sobrevivência a longo prazo dos pacientes. “As medicações aplicadas são universais, mas a resposta a cada uma delas é muito individual”, apontou a cientista. Para ela, entender os mecanismos genéticos na recuperação deve ser o próximo passo para aumentar a sobrevida desses pacientes.