A hipertensão é uma das principais causas de incapacidade global e morte prematura, sendo identificada em mais de 1,5 milhão de pessoas como o fator de risco cardiovascular de maior fração atribuível à população.
O ganho de peso é um fator de risco à pressão arterial (PA); portanto, tratar a obesidade pode ser um caminho para prevenir e controlar a doença. Intervenções que promovem perda ponderal significativa, como cirurgia bariátrica ou dietas de muito baixa caloria, demonstraram efeito anti-hipertensivo substancial. Além disso, medicamentos antiobesidade baseados em incretinas, como a tirzepatida (agonista duplo dos receptores do polipeptídeo inibitório gástrico e do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, GIP/GLP-1, respectivamente) demonstraram reduzir o peso corporal e a pressão arterial em pessoas com sobrepeso ou obesidade no ensaio clínico SURMOUNT-1.
Em uma análise post hoc, Krumholz e colaboradores (2024) caracterizaram o padrão e a consistência das reduções pressóricas com tirzepatida, considerando diferentes doses e subgrupos com variações nos níveis basais de pressão, perfil demográfico e clínico. Adicionalmente, avaliaram a frequência de eventos adversos relacionados à pressão e a proporção da redução mediada pela perda de peso, visando explorar o potencial do medicamento na prevenção e tratamento da hipertensão.
O SURMOUNT-1 foi um ensaio de fase 3, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, que incluiu adultos com índice de massa corporal (IMC) 30 kg/m² ou ≥27 kg/m² com comorbidades (exceto diabetes). Os participantes receberam tirzepatida subcutânea (5, 10 ou 15 mg) ou placebo por 72 semanas, associado a intervenção no estilo de vida; foram excluídos os com pressão arterial sistólica (PAS) ≥160 mmHg ou pressão arterial diastólica (PAD) ≥100 mmHg.
A PA foi aferida com aparelho automático em todas as visitas, com média de três medições. Os participantes mantiveram seu tratamento anti-hipertensivo habitual, com possibilidade de ajuste médico. As alterações em PAS/PAD foram analisadas ao longo do tempo por modelo de medidas repetidas (MMRM), e a contribuição da perda de peso foi avaliada por análise de mediação.
Entre os 2.539 participantes, a tirzepatida promoveu reduções significativas e sustentadas da PAS e PAD até a semana 72, com efeitos superiores ao placebo em todas as doses.
Na comparação agrupada, a PAS caiu em média 6,8 mmHg e a PAD 4,2 mmHg em relação ao placebo; a maior parte da queda ocorreu até a semana 24 e estabilizou-se após. A proporção de participantes com PA normal aumentou substancialmente (58% vs 35,2% com placebo), enquanto a presença de hipertensão estágio 1 ou 2 diminuiu. Esses efeitos foram consistentes em faixas de PA basal, inclusive em pacientes normotensos, e superaram os observados com semaglutida. Além disso, a mediação indicou que 68% da redução da PAS e 71% da PAD foram explicados pela perda de peso, com correlação moderada entre queda de peso e redução pressórica.
O aumento médio da frequência cardíaca foi discreto, 0,6–2,6 bpm nas doses de tirzepatida e 0,1 bpm no placebo. Eventos adversos emergentes relacionados à PA ocorreram em 6,8% do grupo tirzepatida e 3,3% no placebo, sendo a tontura o mais comum. Em comparação, eventos graves ocorreram em 0,2% dos participantes e incluíram hipotensão, síncope, pré-síncope e perda de consciência, sem relatos de hipotensão ortostática grave em ambos os grupos.
Em resumo, a tirzepatida promoveu reduções significativas e duradouras de PAS e PAD em pessoas com sobrepeso ou obesidade — em grande parte mediadas pela perda de peso — com perfil de segurança favorável, reforçando seu potencial como estratégia terapêutica para prevenção e controle da hipertensão nessa população.