A junção de paclitaxel + doxorrubicina + cisplatina (TAP) foi considerada, por muito tempo, o melhor tratamento disponível para mulheres com câncer de endométrio. Somando a tolerabilidade longe do ideal e programação posológica incômoda, era visível a necessidade de uma alternativa terapêutica ao TAP. Com isso em mente, o Grupo de Ginecologia Oncológica (GGO) decidiu testar a combinação de carboplatina com paclitaxel (TC) como uma nova possibilidade de tratamento.
Em 2004, um estudo do GGO estabeleceu o TAP como o padrão e melhor tratamento disponível à época para o tratamento de câncer de endométrio avançado (estágios III-IV e recorrente). Ressalta-se, no entanto, que esse curso terapêutico se mostrou mais tóxico do que a combinação de doxorrubicina-cisplatina. Anos após, um estudo de fase 2 demonstrou que a TC era uma combinação ativa no combate ao câncer endometrial. Levantou-se assim a hipótese de que a doxorrubicina poderia ser retirada da combinação, e que a cisplatina poderia ser substituída pela carboplatina.
No estudo de fase 3, 1381 mulheres foram incluídas e acompanhadas de 2003 a 2009. Todas foram tratadas com doxorrubicina 45mg/m² e cisplatina 50 mg/m² seguidas de paclitaxel 160 mg/m² com estimuladores de colônia de granulócitos; ou paclitaxel 175 mg/m² e carboplatina com área sob a curva 6 a cada 21 dias por sete ciclos.
Ao final do tratamento, houve acompanhamento trimestral por 2 anos, que passou para uma frequência semestral por 3 anos e, após isso, se tornou anual até a morte das pacientes. Vale ressaltar que 61% das participantes já tinham doenças prévias.
Menor toxicidade com sobrevida similar
Miller e colegas precisavam definir se a TC era ou não inferior à TAP com relação à sobrevivência das pacientes. Observações secundárias envolviam o perfil de toxicidade de TC quando comparado à TAP. Os dois regimes também foram comparados em relação à neurotoxicidade relatada pelas pacientes e à qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS). Os resultados foram publicados no Journal of Clinical Oncology.
Ao final da análise, em um acompanhamento médio de 124 meses (10,3 anos), aproximadamente dois terços das pacientes haviam falecido, enquanto 28% se encontravam vivas e sem evidência de câncer. A sobrevida geral foi em média de 37 meses para TC e 41 meses para TAP, e foram relatados mais eventos adversos de grau 3 (ou superior) com a TAP.
Quanto aos eventos adversos, a neutropenia febril foi relatada em 7% das pacientes que receberam TAP e em 6% das que receberam TC. A quantidade de pacientes com neuropatia sensorial foi maior entre as pacientes que receberam TAP (26% vs 20%; P = 0,40), assim como a taxa de pacientes trombocitopênicas grau ≥3 (23% vs 12%), e com vômitos (7% vs 4% ), diarreia (6% vs 2%) e toxicidades metabólicas (14% vs 8%). A quantidade de pacientes com neutropenia foi maior com TC (52% vs 80%).
Informações acerca da qualidade de vida foram coletadas com as 538 pacientes incluídas antes de 26 de março de 2007. A QVRS foi avaliada no período basal e após 6 semanas, 15 semanas e 26 semanas. Na segunda checagem, o grupo TC pontuou mais em bem-estar físico e funcional (variação de 2,1 pontos). Nas semanas seguintes, não foram notadas diferenças estatisticamente significantes. Na escala de avaliação da neurotoxicidade, a pontuação foi 1,4 maior – indicando menor ocorrência de sintomas neurotóxicos - em pacientes no grupo TC em 26 semanas, sem diferenças significativas nas semanas anteriores.
Os dados foram inicialmente apresentados na reunião anual de 2012 da Sociedade de Oncologia Ginecológica.
Nessa apresentação, o autor principal, David Scott Miller, disse que a combinação deveria ser o padrão de atendimento neste cenário.
Miller é professor de ginecologia e obstetrícia no University of Texas Southwestern Medical Center, Dallas, Texas.
"Esta publicação subsequente de acompanhamento de longo prazo confirmou isso", disse Miller em entrevista. "A TAP raramente é usada atualmente." Miller ressaltou que a TC é a "espinha dorsal ou braço de controle para a maioria dos estudos subsequentes".
Dessa forma, é possível concluir que, como sugerem as evidências mais atuais, a carboplatina com paclitaxel (TC) deve ser considerada como o tratamento padrão de primeira linha global para câncer de endométrio avançado. A combinação provou ser não inferior a paclitaxel-doxorrubicina-cisplatina (TAP) em termos de resposta, sobrevida livre de progressão e sobrevida global, e com menor toxicidade.
Imagem: Insung Yoon/Unsplash.com