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/ Publicado el 12 de marzo de 2026

Telessaúde

Teledermatologia no Brasil: da evolução histórica à transformação digital

Explore a história e os avanços da teledermatologia no Brasil

Autor/a: Kevin Yan Kim, Lung Wen Chao e Cyro Festa Neto

Fuente: Anais Brasileiros de Dermatologia, V. 100, N. 6, 2025 História da Teledermatologia e sua evolução, aspectos práticos e perspectivas futuras no Brasil

A prática da medicina com suporte remoto, embora frequentemente associada às tecnologias digitais recentes, possui raízes que remontam à Antiguidade, quando o envio de cartas com descrições clínicas e desenhos por mensageiros configurava uma forma rudimentar de assistência à distância. Um marco tecnológico importante foi a invenção do estetoscópio em 1819, que permitiu, pela primeira vez, a realização de diagnósticos sem o contato físico direto com o paciente. A evolução dos meios de comunicação, do telégrafo à criação da internet, e os avanços decorrentes da Corrida Espacial consolidaram o conceito moderno de Telemedicina, permitindo que informações clínicas passassem a circular globalmente em tempo real.

Na dermatologia, essa evolução é impossível de ser separada do progresso da imagem digital. A popularização das câmeras digitais nos anos 90 e o subsequente advento dos smartphones com câmeras foram divisores de águas para a teledermatologia, tornando a avaliação clínica remota acessível e detalhada. No Brasil, a alta penetração desses dispositivos impulsionou o uso dessas ferramentas para triagem, diagnóstico e acompanhamento pós-operatório em diversas especialidades. Entretanto, o uso informal dessas tecnologias levanta questões críticas sobre a privacidade de dados e a segurança jurídica, exigindo maior conscientização dos profissionais sobre o armazenamento de informações sensíveis em dispositivos pessoais.

Devido ao seu caráter essencialmente visual, a dermatologia é uma das especialidades mais propensas ao uso da telemedicina, com estudos comprovando sua eficácia clínica, custo-benefício e altos índices de satisfação, especialmente no rastreamento da oncologia cutânea.

No cenário regulatório brasileiro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) iniciou a normatização da telemedicina em 2002. Contudo, foi a pandemia da COVID-19 que acelerou a consolidação legal do setor, resultando na Resolução CFM nº 2.314/2022 e na Lei nº 14.510/2022, que autorizaram e regulamentaram a telessaúde em todo o território nacional. Para apoiar essa transição, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) publicou manuais de boas práticas e promoveu webinars, visando a capacitação técnica e a segurança ética dos especialistas no ambiente digital.

Diversos ambientes de saúde realizaram projetos de teledermatologia no território brasileiro. Por exemplo, o Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo implementaram a tecnologia com objetivo de reduzir as filas de espera do SUS por meio da triagem remota de lesões cutâneas. Outro marco fundamental foi o projeto Telessaúde Santa Catarina, que realizou mais de 300.000 laudos até 2024, demonstrando grande eficácia na redução de custos com deslocamentos e na eliminação de consultas intermediárias desnecessárias.

No cenário acadêmico, a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) explorou desde a teleducação para profissionais não médicos até o suporte ao diagnóstico de doenças negligenciadas, como a hanseníase. Um dos achados mais relevantes apontados foi que a implementação da teledermatologia permitiu um desempenho diagnóstico remoto comparável à avaliação presencial. Contudo, os resultados ressaltaram que lesões com morfologia palpável, infiltradas ou clinicamente atípicas apresentam maior dificuldade diagnóstica apenas por fotografia, tornando os dados clínicos complementares indispensáveis para manter a acurácia.

Nessa mesma instituição, foi desenvolvido um sistema de consulta dermatológica pela internet, denominado “Telederma”, no qual residentes cadastravam seus pacientes, prontuários contendo dados clínicos e fotografias digitais de lesões de pele para posterior avaliação por dermatologistas mais experientes. Para manter o aspecto acadêmico, foram incorporados fundamentos da aprendizagem baseada em problemas e da medicina baseada em evidências, por meio de um tutor eletrônico, com disponibilização online de diretrizes diagnósticas, referências bibliográficas, banco de dados sobre interações medicamentosas, aulas didáticas e métodos de avaliação de desempenho dos médicos.

Além dessas, outros projetos demonstraram benefícios para profissionais de atenção primária na avaliação remota, como a Unidade Móvel do Hospital do Amor (Barretos), a Fundação Hospital Alfredo da Matta (Amazonas) e redes de teleassistência em Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

O modelo assíncrono (armazenamento e encaminhamento) é uma tendência no país devido às menores barreiras tecnológicas e de infraestrutura. Este cenário é impulsionado pelo rápido crescimento do acesso à internet em áreas rurais. Além disso, isso é extremamente benéfico considerando a demografia médica atual: enquanto a população médica geral cresce, o número de residentes em dermatologia apresentou queda, o que torna o suporte remoto essencial.

Para o futuro, a integração da inteligência artificial (IA) surge como uma perspectiva promissora para aprimorar a precisão diagnóstica e a triagem de lesões, embora ainda demande regulamentação e padronização ética mais robustas. Experiências internacionais indicaram que o uso dessa tecnologia pode gerar economia de tempo clínico e uma relação custo-benefício positiva para os sistemas de saúde.

Em suma, a teledermatologia no Brasil possui um enorme potencial para a humanização da assistência, pois garante maior agilidade e qualidade no atendimento ao paciente, além de atuar como um motor de eficiência econômica e capacitação profissional contínua no cenário digital.