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Published on March 21, 2025

Acesso da medicina para todos

Teleconsulta em pacientes com diabetes tipo 2 no Brasil

Descubra as últimas pesquisas e avanços que estão transformando a medicina moderna e melhorando o cuidado ao paciente.

O aumento crescente nos casos de diabetes mellitus (DM) surgiu como uma preocupação mundial, representando um desafio significativo para os sistemas de saúde. Em 2017, estimou-se que 6,28% da população global lutava contra esta doença, projetando que até 2030, aproximadamente 7.000 indivíduos por 100.000 habitantes seriam afetados pelo DM tipo 2 (DMT2). Priorizar a identificação e o tratamento precoces é fundamental para que as autoridades públicas melhorem o controle glicêmico e mitiguem os efeitos adversos à saúde dos indivíduos, reduzindo assim os custos para os sistemas de saúde.

No Brasil, a assistência médica é garantida constitucionalmente desde 1988, com um sistema fundado em princípios de acesso universal. Entretanto, devido ao tamanho do país, a população, a infraestrutura e a distribuição dos profissionais médicos apresentam heterogeneidade significativa. A telemedicina é uma ferramenta valiosa para a entrega remota de cuidados clínicos de saúde, promovendo a adesão do paciente e alcançando objetivos terapêuticos, melhorando assim a eficiência para pacientes com doenças crônicas e aqueles que buscam cuidados especializados. Com a pandemia, essa prática de telessaúde foi temporariamente regulamentada pelos conselhos profissionais e integrada aos planos de disseminação dos serviços de saúde.

Considerando a evidência positiva para o uso global da teleconsulta, há uma notável falta de estudos científicos examinando sua eficácia e segurança para o gerenciamento do diabetes mellitus. Por isso, Rodrigues e colaboradores (2024) realizaram um estudo com objetivo de avaliar o desempenho do monitoramento médico por teleconsulta para pacientes com diabetes mellitus, em termos de segurança e eficácia, usando a consulta presencial como grupo de controle.

Para isso, foi realizado um ensaio clínico randomizado, pragmático, de fase 2, unicêntrico, aberto e de não inferioridade conduzido no Brasil. Um total de 278 participantes diagnosticados com diabetes tipo 2 foram randomizados por meio de serviços de teleconsultoria obrigatórios de unidades de saúde de atenção primária. A randomização foi 1:1 para teleconsulta ou consulta presencial.

As características basais dos participantes foram equilibradas entre os grupos. A idade mediana foi de 61 anos, 167 (60%) eram mulheres e 233 (84%) eram brancos. O tempo desde o diagnóstico de diabetes mellitus e o nível de HbA1c% no início do estudo foram semelhantes para ambos os grupos. A prevalência de danos em órgãos-alvo foi alta e quase um terço dos pacientes teve dois ou mais dessas lesões no momento da inscrição. O uso de medicamentos antidiabéticos regulares foi frequente, incluindo insulina injetável e agentes hipoglicemiantes orais.

Os medicamentos antidiabéticos mais utilizados foram insulina NPH 214 (77%), metformina 234 (84%) e insulina regular 132 (47%). Em termos de outros medicamentos, 199 (72%) dos participantes estavam em uso de estatinas, 146 (53%) em uso de diuréticos e 120 (43%) em uso de antagonistas da angiotensina. As condições autorrelatadas incluíram regimes alimentares, atividade física, uso de tabaco e consumo de álcool em83 (30%), 57 (20%), 21 (8%) 11 (4%) participantes, respectivamente. As comorbidades mais comuns foram hipertensão, dislipidemia e obesidade em 237 (85%), 232 (83%) e 169 (61%) dos pacientes, respectivamente.

A pressão arterial sistólica mediana foi de 144 mmHg, a pressão arterial diastólica foi de 80 mmHg, a glicemia capilar foi de 228 mg/dL e o IMC foi de 31 kg/m2. A frequência cardíaca mediana foi de 84 bpm e a ureia foi de 36 mg/dL. O colesterol total mediano foi de 178 mg/dL, o LDL foi de 102 mg/dL, o HDL foi de 41 mg/dL e os triglicerídeos foram de 187 mg/dL.

Os níveis de redução de HbA1c do grupo de teleconsulta foram consistentemente maiores do que no controle para todos os conjuntos de análises. A análise de subgrupos foi consistente com os resultados principais, sem diferenças para sexo, status de atividade física, presença de AVC anterior, regime alimentar e uso basal de insulina NPH.

As análises de resultados exploratórios mostraram várias medições na linha de base e em 6 meses, incluindo pressão arterial sistólica e diastólica, glicemia capilar, índice de massa corporal, ureia, creatinina, colesterol total, colesterol LDL, colesterol HDL e triglicerídeos. Não houve diferenças significativas entre os grupos de teleconsulta e controle para essas medidas.

A ocorrência de eventos adversos foi avaliada usando uma escala de hipoglicemia. Os níveis de glicose no sangue foram muito baixos para ambos os grupos, independentemente da abordagem. Em geral, a taxa de eventos foi bem equilibrada entre os grupos. Houve um evento adverso grave relacionado à hipoglicemia relatado tanto para teleconsulta quanto para consulta presencial. Esses eventos foram bem controlados com intervenção médica e autolimitados.

O Diabetes Quality of Life Measure (DQOL) é um instrumento que avalia a qualidade de vida dos pacientes com diabetes – analisando a satisfação, impacto, preocupação social e com a doença. Ambos os grupos apresentaram redução nas pontuações do DQOL após um acompanhamento de 6 meses, denotando melhora da qualidade de vida. Entretanto, o grupo que apresentou a maior diminuição na pontuação foi o de teleconsulta. As pontuações dos domínios de satisfação e preocupações com diabetes também melhoraram proeminentemente neste grupo.

Após todas as sessões de teleconsulta, o Questionário de Usabilidade de Telessaúde (TUQ) foi administrado para avaliar a facilidade dos serviços de telessaúde, particularmente no contexto de sistemas modernos baseados em computador. Tanto pacientes quanto médicos relataram altos níveis de satisfação e usabilidade com o sistema de telessaúde. Esse se mostrou particularmente eficaz na melhoria do acesso aos serviços de saúde e na economia de tempo.

Em conclusão os resultados ressaltaram o potencial impacto da teleconsulta no gerenciamento do diabetes mellitus tipo 2. A integração da telemedicina na prestação de cuidados de saúde oferece uma solução promissora para melhorar o acesso a cuidados especializados, especialmente em regiões com barreiras geográficas e distribuição desigual de recursos de saúde. O estudo reforça a importância de incorporar estratégias de telemedicina em políticas de saúde pública para melhorar a qualidade geral do tratamento do diabetes e promover serviços de saúde mais acessíveis.