Diversos estudos vêm relatando as sequelas pós-agudas da infecção por SARS-CoV-2 (SPAC), comumente referidas como COVID longa ou condição pós-COVID-19. Embora inicialmente reconhecida entre adultos, a SPAC tem impactado crianças e adolescentes, porém com diferenças nos resultados clínicos.
Bowe e colaboradores (2021) relataram que, após os primeiros 30 dias pós-infecção, indivíduos com COVID-19 exibiram riscos aumentados de vários resultados renais adversos, incluindo lesão renal aguda (LRA); declínios na taxa de filtração glomerular estimada (TFGe); terapia de substituição renal; e eventos renais adversos maiores, definidos como um composto de pelo menos 50% de declínio da TFGe, terapia de substituição renal ou mortalidade por todas as causas.
Para investigar se esses resultados também são observáveis em crianças e adolescentes, Li e colaboradores (2025) realizaram um estudo de coorte retrospectivo. Para avaliar a associação da infecção por SARS-CoV-2 com lesão renal preexistente em pacientes pediátricos, os pesquisadores estratificaram todas as análises com base na presença de doença renal crônica (DRC) preexistente e LRA ocorrida durante a fase aguda da infecção.
Os autores utilizaram dados de dezenove instituições de saúde da iniciativa Researching COVID to Enhance Recovery (RECOVER) dos National Institutes of Health, no período de 1º de março de 2020 a 1º de maio de 2023. Os participantes incluíram crianças e adolescentes (com idade <21 anos) com pelo menos 1 consulta basal (24 meses a 7 dias antes da data do índice) e pelo menos 1 consulta de acompanhamento (28 a 179 dias após a data do índice).
Os resultados incluíram o surgimento de DRC estágio 2 ou superior entre aqueles sem DRC preexistente; eventos renais combinados (declínio ≥50% na TFGe, TFGe ≤15 mL/min/1,73 m2, diálise, transplante ou diagnóstico de doença renal terminal) e declínio de pelo menos 30%, 40% ou 50% na TFGe entre aqueles com DRC preexistente ou LRA na fase aguda.
Entre 1.900.146 pacientes pediátricos, um total de 487.378 com COVID-19 e 1.412.768 controles foram incluídos para avaliar os riscos de manifestações renais pós-agudas da infecção por SARS-CoV-2. Desses, 49,0% eram do sexo feminino e 51,0% do sexo masculino; a idade média foi de 8,2 anos. Por raça e etnia, 4,8% eram asiáticos americanos ou nativos havaianos ou outros habitantes das ilhas do Pacífico; 21,0% hispânicos; 17,3% negros não hispânicos; 44,9% brancos não hispânicos;2,3% multirraciais; e 9,7% outros ou desconhecidos.
Os resultados encontraram um aumento no risco de vários resultados renais associados à infecção pela COVID-19. Este incluiu um novo início de DRC leve a moderada durante a fase pós-aguda da infecção. Para pacientes com DRC preexistente e pacientes que apresentaram LRA durante a fase aguda, foi observado um risco aumentado de um resultado composto de pelo menos 50% de declínio da TFGe, TFGe de 15 mL/min/1,73 m2 ou menos, diálise, transplante renal ou diagnóstico de doença renal terminal.
Os mecanismos precisos dessas associações permanecem obscuros. Uma explicação plausível poderia ser atribuída ao impacto direto da COVID-19 nos rins, evidenciado pela persistência do SARS-CoV-2 nos tecidos e prolongada eliminação viral. Concomitantemente, a inflamação crônica induzida pela infecção pode afetar adversamente a estabilidade hemodinâmica, potencialmente levando à lesão renal. Uma explicação alternativa pode residir nas intervenções terapêuticas utilizadas para gerenciar casos graves da COVID-19, bem como nas condições econômicas e sociais mais amplas resultantes da pandemia.
Em conclusão, os resultados de Li e colaboradores (2025) sugeriram que a infecção por SARS-CoV-2 foi associada a um risco aumentado de resultados renais adversos, incluindo o aparecimento de DRC e o agravamento da função renal, particularmente entre crianças com DRC preexistente ou LRA na fase aguda. Sendo assim, é necessário o monitoramento a longo prazo da saúde renal em crianças e adolescentes afetados pela COVID-19.