| Introdução |
Antes da disseminação do SARS-CoV-2, as taxas de sintomas clinicamente significativos de ansiedade generalizada e depressão em grandes coortes de jovens eram de aproximadamente 11,6% e 12,9%, respectivamente. Com o início da pandemia de COVID-19, os jovens em todo o mundo vivenciaram interrupções significativas em suas rotinas diárias, enfrentando isolamento social prolongado, perda de eventos marcantes, fechamento de escolas, aumento do estresse familiar e redução das interações sociais. Estudos indicaram que houve um aumento na prevalência de transtornos mentais entre os jovens durante esse período, embora haja uma variabilidade considerável nas taxas reportadas.
Diante disso, Racine e colaboradores (2021) realizaram uma metanálise com o objetivo de obter estimativas mais precisas da prevalência global de depressão e ansiedade em crianças e adolescentes. O estudo comparou essas taxas com dados pré-pandemia, além de examinar fatores demográficos, geográficos e metodológicos que poderiam influenciar os resultados.
| Métodos |
Para este estudo, foram utilizados quatro bancos de dados (PsyInfo, Embase, MEDLINE e Cochrane Central Register of Controlled Trials) de 1 de janeiro de 2020 a 16 de fevereiro de 2021. A estratégia de busca combinou termos de pesquisa de três temas: (1) doenças mentais (incluindo depressão e ansiedade), (2) COVID-19 e (3) crianças e adolescentes (idade ≤18 anos). Os estudos foram incluídos se fossem publicados em inglês, tivessem dados quantitativos e relatassem a prevalência de depressão ou ansiedade clinicamente elevadas em jovens.
| Resultados |
No total, 29 estudos, incluindo 80.879 participantes (52,7% de indivíduos do sexo feminino e idade média de 13 anos), atenderam aos critérios de inclusão completos. Desses, 16 eram da Ásia Oriental, 4 da Europa, 6 da América do Norte, 2 da América Latina e 1 do Oriente Médio.
As estimativas de prevalência agrupadas de sintomas clinicamente elevados de depressão e ansiedade foram de 25,2% e 20,5% (IC 95%, 17,2%-24,4%), respectivamente. As análises de moderadores revelaram que a prevalência de sintomas clinicamente elevados de depressão e ansiedade foi maior em estudos coletados em momentos posteriores da pandemia e em meninas. Os sintomas de depressão foram mais altos em crianças mais velhas. Enquanto os de ansiedade foram maiores nos países europeus.
À medida que o tempo de coleta de dados aumentava, as taxas de depressão e ansiedade também aumentaram. Isso pode ser resultado de isolamento social prolongado, dificuldades financeiras familiares, marcos perdidos e interrupções escolares, que se acumulam ao longo do tempo.
Em termos de implicações práticas, é essencial que médicos de família e pediatras façam triagens para identificar dificuldades de saúde mental em jovens. Além disso, políticas devem considerar o impacto do isolamento social na saúde mental, priorizando o fechamento de escolas e atividades recreativas apenas como último recurso. É também necessário adaptar a entrega de recursos de saúde mental, como serviços de telemedicina, para garantir acesso equitativo a populações diversas.
| Conclusão |
De modo geral, a metanálise mostrou um aumento nas taxas de sintomas de ansiedade e depressão clinicamente elevados em jovens durante a pandemia da COVID-19. Embora esses resultados reforcem a necessidade urgente de intervenções e esforços de recuperação focados no bem-estar infantil e adolescente, também destacam a importância de considerar as diferenças individuais ao determinar os alvos dessas intervenções (por exemplo, idade, sexo e exposição a estressores relacionados à SARS-CoV-2). Por fim, pesquisas sobre os efeitos a longo prazo da pandemia na saúde mental, incluindo estudos com medições antes e depois da COVID-19, são essenciais para ampliar a compreensão das implicações dessa crise nas trajetórias de saúde mental das crianças e jovens.