| Introdução |
Durante a pandemia COVID-19, centenas de estudos buscaram conhecer os efeitos do vírus na gravidez e tentaram determinar eventos adversos obstétricos e neonatais após a infecção. Neste sentido, Badr et al. (2020) relataram que grávidas com mais de 20 semanas de gestação infectadas com SARS-CoV-2 experimentaram um risco significativamente maior de admissão à unidade de terapia intensiva (UTI), intubação endotraqueal, hospitalização por sintomas relacionados a doença e necessidade de oxigenoterapia.1 Alguns estudos evidenciaram que as taxas de parto prematuro e cesáreo aumentaram,2-6 enquanto outros relataram uma associação entre o contágio pelo vírus e pré-eclâmpsia ou síndromes semelhantes.7
Esforços foram feitos para aprender sobre os resultados adversos relacionadas à infecção por coronavírus, no entanto, a maioria dos estudos investigaram pacientes no final do segundo ou no terceiro trimestre. Poucos estratificaram as consequências de acordo com a semana em que a gravidez se encontrava quando ocorreu o contágio. Com isso, o objetivo do estudo foi examinar o efeito da idade gestacional no momento da infecção com SARS-CoV-2 em resultados obstétricos e neonatais.
| Métodos |
Um estudo de coorte retrospectivo multicêntrico internacional foi conduzido em gestantes com feto vivo com 10 semanas de gestação em que as consequências da gravidez eram reconhecidas.
Os desfechos primários foram definidos como resultados adversos obstétricos (RAO) e resultados adversos neonatais (RAN). O primeiro foi definido como parto prematuro, pré-eclâmpsia, HELLP (hemólise, enzimas hepáticas elevadas,plaquetopenia), cesariana não programada, trombose venosa profunda (TVP), embolia pulmonar (EP), perda gestacional abaixo de 24 semanas, morte intrauterina ou morte materna. Enquanto RAN refere-se ao baixo peso ao nascer (<2.500 g), admissão na UTI neonatal, pontuação APGAR menor que 7 nos 5 primeiros minutos de vida, dificuldade respiratória ou morte neonatal.
| Resultados |
No total, 10.925 grávidas foram triadas, nas quais 393 (3,60%) estavam infectadas com SARS-CoV-2 (grupo exposto). Aumento nos RAOs no grupo exposto com mais de 20 semanas de gestação e RANs com mais de 26 semanas foram identificados (p <0,001).
A infecção por SARS-CoV-2 foi associada a um aumento substancial nos resultados obstétricos e neonatais. No primeiro, os eventos que demonstraram taxas maiores no grupo exposto foram: a pré-eclâmpsia, a eclampsia ou a síndrome HELLP (2,44% vs. 1,89%; p = 0,004), o parto prematuro (26,63% vs. 24,68%; p = 0,002), a cesariana não programada (13,87% vs. 12,27%; p < 0,001), a hemorragia pós-parto (12,57% vs. 9,23%; p< 0,001) e a EP (0,53% vs. 0,006%; p <0,001). No segundo, a admissão na UTI neonatal (13,09% vs. 7,76%; p <0,001) e APGAR de < 7 nos primeiros 5 minutos (4,01% vs. 2,58%; p <0,001) exibiram um aumento nas grávidas infectadas com SARS-CoV-2. Os recém-nascidos do grupo exposto também tiveram menor peso ao nascer (média + DP 3.128,90 g + 602,93 g vs. 3.228,00 g + 579,34 g; p <0,001), entretanto, os escores z de peso ao nascer foram semelhantes aos do grupo não exposto.
| Conclusão |
Com isso, os dados demonstraram que a infecção por SARS-CoV-2 em grávidas durante o final do segundo e o início do terceiro trimestre aumentou o risco de resultados adversos obstétricos e neonatais. No entanto, até o momento, não há evidências de que a infecção antes das 20 semanas gestacionais aumente esses riscos, exceto para a pré-eclâmpsia. Essas descobertas têm implicações para a política de saúde e sugerem que programas de vacinação devem ter como alvo mulheres antes ou no início da gravidez para garantir uma adequada proteção.