Sabe-se que as vacinações de reforço podem melhorar as respostas imunológicas, enquanto a exposição crônica ao antígeno pode causar tolerância imunológica. No entanto, os benefícios, limitações e riscos da vacinação repetitiva em seres humanos ainda não são totalmente compreendidos. Com isto, Kocher e colaboradores (2024) relataram o caso de um homem de 62 anos de idade de Magdeburg, Alemanha, que recebeu deliberadamente 217 vacinas contra SARS-CoV-2 em um período de 29 meses por razões pessoais.
Esse caso ocorreu fora de um estudo clínico e contra as recomendações nacionais de vacinação. Para investigar as suas consequências imunológicas, os autores propuseram uma análise ao indivíduo, que consentiu em fornecer informações médicas e doar sangue e saliva. Durante o período de vacinação, o indivíduo relatou nenhum efeito colateral relacionado ao imunizante, e os parâmetros químicos clínicos de rotina não mostraram anormalidades atribuíveis à hipervacinação. Além disso, não houve sinais de infecção anterior por SARS-CoV-2, conforme indicado por testes de antígeno repetidamente negativos, PCRs e sorologia de nucleocapsídeos.

Gráfico 1. A hipervacinação aumentou a quantidade, mas não a qualidade da imunidade adaptativa. Imagem adaptada de Kocher el al. (2024)
Os níveis de IgG anti-pico SARS-CoV-2 foram medidos antes da 214ª vacinação. Um grupo controle de 29 vacinados (55% mulheres, 45% homens) com um regime de mRNA de três doses foi utilizado como referência. Esses foram mais altos no dia da 214ª vacinação e no terceiro dia após a 215ª dose. A 217ª dose resultou em um aumento modesto nos níveis de IgG anti-pico.
A imunização repetida com mRNA do SARS-CoV-2 pode levar a uma mudança incomum da subclasse de IgG para IgG-4. Os anticorpos IgG4 anti-spike do indivíduo foram elevados em números absolutos no dia 189 após a 215ª vacinação, mas não em frequências relativas, em comparação com o grupo de controle.
O indivíduo apresentou níveis ligeiramente elevados de IgM e IgA anti-spike em comparação com o grupo controle, além de ter IgG anti-spike detectável. Sua capacidade de neutralização do soro foi 5,4 vezes maior para proteínas de espícula de tipo selvagem e 11,5 vezes maior para Ômicron B1.1.529. Além disso, foram realizadas análises de células B, células T, marcadores proteicos e perfil metabólico.
Em resumo, o relato do caso mostrou que a hipervacinação contra SARS-CoV-2 não resultou em eventos adversos e aumentou a quantidade de anticorpos específicos para espículas e células T, sem ter um efeito significativamente positivo ou negativo na qualidade intrínseca das respostas imunes adaptativas. Embora não tenham sido encontrados sinais de infecção por SARS-CoV-2 no indivíduo até o momento, não pode ser afirmado com certeza se isso está diretamente relacionado com o regime de imunização adotado. Portanto, é importante ressaltar que a hipervacinação não é apoiada como estratégia para aumentar a imunidade adaptativa.
> Benefícios do prontuário digital
O caso do alemão que tomou a vacina contra a COVID-19 de forma exacerbada destaca a necessidade e importância de mudanças na área de informação em saúde. A implementação de um prontuário digital pode ser um grande aliado ao oferecer acesso fácil às informações médicas necessárias tanto para profissionais quanto para pacientes, especialmente em relação à carteira de vacinação. Além de melhorar a qualidade do atendimento, essa medida pode prevenir esquemas excessivos de vacinação no futuro.