Entre os agentes mais envolvidos na dermatite alérgica de contato (DAC) estão os metais, especialmente o cromo (Cr), presente no cimento, couro, produtos de limpeza e cosméticos. O bicromato de potássio (BP) é o composto utilizado como marcador da sensibilização ao Cr nos testes de contato (TC).
Estudos anteriores apontaram frequências de sensibilização ao Cr variando entre 12% e 47%, com tendência de redução após regulamentações em países europeus. No Brasil, embora ainda sem legislação específica, observações clínicas sugeriram uma diminuição progressiva dos casos.
Nesse contexto, Hafner e colaboradores (2025) conduziram um estudo retrospectivo de 2010 a 2024, em um ambulatório de alergia dermatológica, com objetivo de analisar a redução da sensibilização ao cromo no país.
Foram incluídos 1.599 pacientes com suspeita de DAC, todos submetidos a TC. Utilizou-se a bateria padrão recomendada pelo Grupo Brasileiro de Estudos em Dermatite de Contato (GBEDC), aplicada na região dorsal dos pacientes. As leituras dos testes foram realizadas em 48 e 96 horas, sendo esta última considerada para a análise dos resultados.
Os participantes foram agrupados em três períodos quinquenais: 2010–2014 (grupo A), 2015–2019 (grupo B) e 2020–2024 (grupo C). Foram analisadas as variáveis gênero, ocupação, localização da dermatose e positividade ao BP, utilizando-se o teste do qui-quadrado para a análise estatística.
Entre os pacientes testados, 6,9% apresentaram positividade ao BP. A frequência nos grupos A, B e C foi de 11,4%, 5,6% e 3,6%, respectivamente, com diferença estatisticamente significante entre os períodos, indicando redução consistente ao longo dos anos.
Embora a maioria dos casos tenha ocorrido em homens, não se observou diferença estatisticamente significante entre os períodos quanto à proporção de gêneros, sugerindo redução uniforme entre homens e mulheres.
A principal localização da dermatite foi nas mãos (81%) seguida por membros superiores (42%), tronco e cabeça (16% cada), membros inferiores (14%) e pés (10%). Entre os casos com acometimento plantar, oito estavam associados ao uso de calçados de couro, material que pode conter Cr em sua fabricação. A ocupação mais frequentemente associada à positividade do Cr foi a de pedreiro (46%), seguida por domésticos (30,5%), trabalhadores de escritório (11%), mecânicos e aposentados (4,5% cada).
Durante o período analisado, foram atendidos 78 pedreiros, com distribuição decrescente ao longo dos anos. A frequência de testes positivos ao BP entre os pedreiros também apresentou redução significante.
Em síntese, o estudo evidenciou redução consistente na sensibilização ao Cr ao longo dos últimos 15 anos, mesmo na ausência de regulamentações nacionais específicas. A tendência observada pode ser resultado de um conjunto de fatores, incluindo mudanças nos processos industriais, substituição de materiais e maior conscientização de empregadores e trabalhadores sobre os riscos da DAC. Os dados reforçaram a importância de ações preventivas e regulamentações que limitem a presença de alérgenos em materiais de uso profissional e doméstico.