A insuficiência cardíaca (IC) representa um importante problema de saúde global, com alta taxa de hospitalizações e readmissões, especialmente em pacientes idosos. Cerca de 20% a 50% dos pacientes são readmitidos em até 30 dias e 1 ano após a alta, respectivamente, o que está associado a maior mortalidade, pior qualidade de vida e elevados custos para os sistemas de saúde.
As internações representam o principal componente de gasto da doença, e os altos custos para os pacientes podem reduzir a adesão ao tratamento e levar a piores desfechos, como progressão da doença e maior mortalidade.
Embora a taxa de readmissão seja amplamente utilizada como indicador de qualidade e controle de custos, sua interpretação é limitada pela falta de padronização. Nesse contexto, as readmissões potencialmente evitáveis surgem como um indicador mais relevante por refletirem falhas corrigíveis no cuidado e uso desnecessário de recursos. No entanto, sua mensuração ainda é heterogênea e subjetiva, com ampla variação nas estimativas.
Assim, Liu e colaboradores (2025) buscaram aprimorar a compreensão das definições e medidas de readmissões evitáveis em pacientes com IC, identificando os critérios de julgamento utilizados na literatura e examinando os fundamentos por trás dessas abordagens.
A revisão foi conduzida conforme as diretrizes PRISMA-ScR, e baseada em buscas sistemáticas em seis bases de dados até junho de 2024. A estratégia combinou três componentes: evitabilidade, readmissão e insuficiência cardíaca, seguindo critérios de elegibilidade previamente definidos.
Dos 15 estudos incluídos, a maioria foi conduzida nos Estados Unidos e na Europa, apresentando grande variabilidade quanto ao desenho, população, tamanho amostral e definição de readmissão, sendo mais frequente o período de 30 dias.
A proporção de readmissões por IC consideradas evitáveis variou amplamente, de 6,66% a 86%, refletindo grande heterogeneidade nos métodos de análise, incluindo revisão de prontuários, entrevistas e uso de ferramentas padronizadas, com base em diferentes fontes de dados e critérios.
De modo geral, a classificação da evitabilidade baseou-se em dois principais enfoques: percepção de profissionais e pacientes ou identificação por ferramentas e algoritmos. Especificamente para readmissões por IC, poucos estudos propuseram critérios objetivos, envolvendo fatores como adesão ao tratamento, evolução clínica e causas precipitantes.
Apesar da diversidade metodológica, os fundamentos para definir a evitabilidade puderam ser agrupados em quatro categorias: experiência de profissionais e pacientes, relação clínica entre internações, condições sensíveis ao cuidado ambulatorial e outros fatores, como gravidade da doença. Enquanto abordagens baseadas em julgamento clínico são mais centradas no paciente, porém subjetivas, métodos baseados em dados populacionais são mais padronizáveis, mas menos capazes de identificar falhas específicas no cuidado.
Novas abordagens, como o uso de aprendizado de máquina, mostram potencial para aprimorar a identificação de readmissões evitáveis, embora ainda enfrentem desafios relacionados à validação, transparência e aplicação prática.
Em síntese, a revisão evidenciou ausência de consenso sobre a definição e mensuração das readmissões evitáveis na insuficiência cardíaca, com métodos e critérios heterogêneos entre os estudos. Destacou-se também a necessidade de padronização na avaliação e no cálculo das readmissões, além da revisão do período considerado, para permitir comparações mais justas e apoiar decisões em saúde. O desenvolvimento de critérios mais claros, específicos e consistentes é essencial para melhorar a qualidade do cuidado e os desfechos clínicos e econômicos.