| Introdução |
Os inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (SGLT2i) têm sido amplamente utilizados no tratamento do diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal crônica. Estima-se que cerca de 80% dos pacientes que utilizem esses medicamentos também fazem o uso concomitante de estatinas. Em 2020, um relato de caso descreveu o desenvolvimento de rabdomiólise após o início do tratamento com canagliflozina em um paciente que já fazia uso de rosuvastatina. A análise revelou uma concentração plasmática elevada dessa estatina, sugerindo uma possível interação medicamentosa.
Diante dessa preocupação, Harel e colaboradores (2024) conduziram um estudo para investigar o risco de rabdomiólise associado ao início do tratamento com SGLT2i em pacientes em uso crônico de estatinas.
| Métodos |
Foi conduzido um estudo de caso-controle, baseado em população, no Canadá entre julho de 2015 e setembro de 2020, utilizando dados de indivíduos adultos com 66 anos ou mais que estavam em uso contínuo de estatinas, definido como pelo menos duas prescrições nos 210 dias anteriores à data de índice. Os casos incluíram pacientes diagnosticados com rabdomiólise durante uma visita ao pronto-socorro ou hospitalização primária, identificados por níveis elevados de creatina quinase. Cada caso foi pareado com cinco controles, considerando idade, sexo e escore de risco de doença.
A exposição investigada envolveu a prescrição de inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 ou inibidores da dipeptidil peptidase 4 (DPP4i) dentro dos 100 dias de uso de estatinas. Além disso, uma análise secundária explorou a associação entre diferentes tipos de SGLT2i e o risco de rabdomiólise.
| Resultados |
Entre 222.187 indivíduos em terapia crônica com estatinas que receberam pelo menos uma prescrição de SGLT2i ou de DPP4i, foram identificados 2.928 casos de rabdomiólise e 14.640 controles pareados. A idade média dos participantes foi de 79,1 anos, e 43,5% eram mulheres.
Dentre os casos e controles, 99,3% apresentavam diagnóstico de diabetes e 57,3% tinham doença renal crônica. A prescrição de um SGLT2i, em comparação com a prescrição de um DPP4i, foi associada a um menor risco de rabdomiólise (odds ratio ajustado [aOR]: 0,75; IC 95%: 0,65-0,87). Esse foi observado especificamente para empagliflozina e canagliflozina, enquanto a dapagliflozina não apresentou uma associação estatisticamente significativa com menor probabilidade de rabdomiólise.
| Conclusão |
No estudo de caso-controle conduzido por Harel e colaboradores (2024), foi observado que o início do tratamento com SGLT2i esteve associado a um menor risco de rabdomiólise em comparação com os inibidores da dipeptidil peptidase 4 DPP4i em adultos mais velhos em uso prolongado de estatinas.
Dado o impacto positivo dos SGLT2i na redução de eventos cardiovasculares e na mortalidade, esses achados sugeriram que a combinação dos inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 e estatinas pode ser utilizada com segurança, desde que indicada de acordo com o quadro clínico do paciente.