A obesidade é uma doença crônica associada a maior risco de complicações cardiometabólicas, que exige tratamento focado não apenas na redução de peso, mas também na prevenção desses riscos. Diretrizes atuais recomendam a combinação de medicamentos para manejo da obesidade com mudanças no estilo de vida para alcançar e manter perda de peso e melhorar parâmetros metabólicos.
Estudos mostraram que a interrupção da farmacoterapia geralmente leva à recuperação do peso, mesmo com a continuidade da intervenção no estilo de vida. Isso indica que o tratamento farmacológico de longo prazo pode ser necessário para sustentar esses benefícios.
A tirzepatida, agonista dos receptores do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), é aprovada para tratamento de longo prazo da obesidade, apneia obstrutiva do sono e diabetes tipo 2.
No estudo SURMOUNT-4, 36 semanas de tratamento com tirzepatida resultaram em melhora significativa de peso, índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura e parâmetros cardiometabólicos (pressão arterial, perfil lipídico, hemoglobina glicada (HbA1c), glicemia e insulina de jejum). No entanto, a retirada do medicamento foi associada à reversão da maioria das melhorias iniciais, mesmo com continuidade das mudanças no estilo de vida.
Diante disso, a análise de Horn e colaboradores (2025) teve como objetivo avaliar o grau de recuperação de peso experimentado pelos participantes desse estudo randomizados para a retirada da tirzepatida após o período de tratamento e analisar as mudanças associadas nos parâmetros cardiometabólicos.
O SURMOUNT-4 foi um ensaio clínico randomizado de retirada, fase 3, que avaliou o impacto da interrupção da tirzepatida após perda de peso inicial. Os participantes passaram por um período aberto de 36 semanas com o medicamento em doses de 10 ou 15 mg, associado a dieta hipocalórica com déficit de 500 kcal/dia e atividade física mínima de 150 minutos por semana. Aqueles que atingiram a dose máxima tolerada foram randomizados para continuar tirzepatida ou receber placebo por mais 52 semanas, totalizando 88 semanas de acompanhamento.
O estudo incluía adultos com IMC ≥30 ou ≥27 com pelo menos uma complicação relacionada ao peso, excluindo pacientes com diabetes, cirurgia bariátrica prévia ou planejada e uso recente de medicamentos para perda de peso.
A análise pós-hoc considerou apenas os participantes que interromperam tirzepatida (grupo placebo), categorizando o grau de recuperação de peso entre as semanas 36 e 88 em quatro faixas: menos de 25%, 25% a menos de 50%, 50% a menos de 75% e 75% ou mais da perda inicial. Os desfechos avaliados incluíram mudanças em peso, IMC e parâmetros cardiometabólicos, como circunferência da cintura, pressão arterial, perfil lipídico, HbA1c, glicemia e insulina de jejum, além dos índices Homeostasis Model Assessment 2 – Insulin Resistance (HOMA2-IR) e Homeostasis Model Assessment 2 – Beta-cell function (HOMA2-B). Também foram analisadas as variações do início até a semana 36 e até a semana 88.
Entre os 308 participantes analisados, 82,5% recuperaram 25% ou mais do peso perdido, e apenas 17,5% recuperaram menos de 25%. A maioria dos participantes era do sexo feminino (71%) e tinha idade média de 47 anos.
Durante o período inicial (semana 0 a 36), houve reduções significativas em peso, IMC, circunferência da cintura, pressão arterial, perfil lipídico, HbA1c, glicemia e insulina. No entanto, após a retirada do medicamento (semana 36 a 88), observou-se reversão proporcional à recuperação de peso, quanto maior o reganho, maior a perda dos benefícios cardiometabólicos. Participantes com ≥75% de recuperação retornaram aos valores basais para a maioria dos parâmetros, enquanto aqueles com menor recuperação mantiveram melhorias em pressão arterial, lipídios e glicemia.
Um dado relevante foi o aumento consistente do colesterol HDL em todas as categorias de recuperação, mesmo após a retirada do tratamento. Por outro lado, HOMA2-B diminuíram nos grupos com menor recuperação de peso. A reversão dos benefícios glicêmicos (HbA1c e glicemia) ocorreu precocemente, em até 16 semanas após a retirada, reforçando o efeito direto da tirzepatida sobre o controle glicêmico. Além disso, houve aumento significativo da pressão arterial sistólica em todos os grupos, mais acentuado nos participantes com maior recuperação de peso.
Em resumo, a interrupção da tirzepatida após perda de peso significativa está associada a recuperação substancial do peso e à reversão dos benefícios cardiometabólicos, mesmo com manutenção das mudanças no estilo de vida. Quanto maior o reganho, maior a deterioração dos parâmetros metabólicos, incluindo glicemia, pressão arterial e perfil lipídico. Esses dados reforçaram a importância de estratégias de manejo contínuo da obesidade, incluindo tratamento farmacológico aliado à intervenção no estilo de vida, para garantir resultados sustentáveis e preservar benefícios clínicos de longo prazo.