Art & Culture

Published on July 4, 2025

Racismos na saúde

Por que pensar em racismos no plural?

Entenda como diferentes formas de discriminação impactam populações minorizadas ao redor do mundo.

Author: Devakumar, D. et al.

Fuente: The Lancet Global Health, Volume 13, Issue 7, e1164 - e1165 (2025) Racisms in a global health context

O racismo tem existido em diferentes formas e lugares, afetando a saúde de pessoas minorizadas em todo o mundo. Embora estudos apontem o racismo como um importante determinante da saúde, seu impacto global permanece subestimado, exigindo uma abordagem coordenada diante do avanço de regimes populistas e divisórios. Além disso, a compreensão atual está baseada em estruturas ocidentais, de origem colonial e pós-colonial, que não captam nuances regionais ligadas à história, política, etnia, religião ou castas. Essa limitação decorre tanto da escassez de evidências quanto da dominância de conceitos norte-americanos e europeus, influenciados por uma visão restrita da história moderna e pela literatura produzida por países ricos, especialmente os Estados Unidos.

Exemplos incluem castas na Índia, Apartheid na África do Sul, leis restritivas no Golfo, discriminação contra chineses na Malásia e colonialidade. Para superar esse enquadramento, propõe-se repensar o termo racismo e adotar o uso de racismos no contexto da saúde global.

Cientistas sociais e historiadores debatem o termo há tempos, com diferentes interpretações, embora sua integração no discurso médico tenha aumentado recentemente. Na definição restrita, o racismo é uma ideologia que leva à discriminação com base em categorias raciais; já em definições ampliadas, inclui também raça, cor, descendência e origem, reconhecendo o papel das estruturas sociopolíticas na distribuição de poder e privilégio por identidade.

Ao focar em estruturas coloniais, corre-se o risco de obscurecer as variações contextuais e negligenciar as especificidades que moldam hierarquias raciais e discriminação entre e dentro das nações, tornando invisíveis formas locais de racismo. Essa perspectiva também falha ao abordar interseccionalidades com outras discriminações — como capacitismo e sexismo — limitando a compreensão de como estruturas sociais geram múltiplas formas de exclusão que afetam a saúde.

No âmbito da saúde global, recomenda-se o uso do termo racismos para abranger ideologias discriminatórias ligadas à casta, etnia, indigeneidade, migração, raça, religião e cor da pele, criando uma lente unificada para entender os danos à saúde. Sugere-se o termo no plural quando há múltiplas formas de discriminação. O uso de racismos já aparece em termos como racismos contemporâneos, multirracismo e polirracismos, que mostram como ele é múltiplo, sobreposto e complexo em diferentes contextos.

Esses conceitos ainda não foram amplamente adotados na saúde, onde os grupos são tratados separadamente, sem examinar como o poder é distribuído e prejudica populações minorizadas. O racismo atribui identidade grupal de baixo status, sustentado por estruturas sociais, políticas e econômicas, que tornam essas assimetrias naturais e difíceis de romper. Grupos privilegiados reforçam essas hierarquias por normas institucionalizadas que perpetuam assimetrias entre gerações. As identidades são replicadas porque as estruturas de poder persistem. Por exemplo, sistemas de castas restringem grupos por normas que os mantêm em posições fixas na hierarquia social.

Quais os benefícios de usar o termo racismos no contexto da saúde global?

Desafiar estruturas que sustentam desigualdades é essencial. O uso do termo permite compartilhar conhecimentos sobre caminhos e consequências na saúde, já que diferentes formas de discriminação geram desfechos semelhantes. Isso incentiva profissionais a considerarem outras formas de racismo e como se relacionam. A abordagem plural pode ser aplicada nos níveis clínico, populacional ou político. O conceito ajuda a relacionar racismos, dominação e violência estrutural, que apesar de exigirem intervenções diversas, compartilham mecanismos semelhantes. Pensar nos racismos no plural promove solidariedade entre povos minorizados, permitindo que um grupo aprenda com outro.

Propor racismos não minimiza o legado do colonialismo europeu branco. A pluralidade oferece flexibilidade para adaptar o conceito a diferentes contextos e identificar pontos comuns entre grupos. Isso evita o excepcionalismo das abordagens dos EUA e Europa, que focam em identidades específicas. Para combater o racismo na saúde global, é preciso reconhecê-lo como fenômeno comum. Por isso, o uso do termo plural é um passo inicial nesse caminho.