A poluição do ar por material particulado fino (PM2,5) é um dos principais riscos ambientais à saúde e já foi associada a desfechos como parto prematuro, baixo peso ao nascer e mortalidade neonatal. Apesar disso, poucos estudos investigaram seu impacto direto sobre o ciclo menstrual e a função do eixo hipotálamo–hipófise–ovariano em mulheres não grávidas.
Por isso, o estudo de deSouza e colaboradores (2025) buscou preencher essa lacuna utilizando dados autorrelatados por meio de um aplicativo de saúde menstrual — tecnologia que tem se tornado uma ferramenta poderosa na coleta de dados populacionais em larga escala. Ao analisar tanto exposições de curto quanto de longo prazo ao PM2,5, os autores conduziram a maior investigação até hoje em países de média e alta renda, abrangendo diferentes níveis de exposição ambiental.
No estudo prospectivo observacional, foram coletados dados autorrelatados e anonimizados por meio do aplicativo de saúde móvel Clue, no qual usuárias monitoraram seus ciclos menstruais. Foram incluídas mulheres entre 18 e 44 anos, residentes em 230 cidades nos Estados Unidos, México e Brasil, que não utilizavam anticoncepcionais hormonais.
O principal desfecho considerado foi a ocorrência de ciclos menstruais com duração anormal, definidos como menores que 24 dias ou maiores que 38 dias. Esses foram avaliados em dois níveis: na proporção de ciclos anormais por cidade e na ocorrência individual de ciclos classificados como anormais ou não. Para isso, consideraram-se os níveis médios de exposição ao material particulado fino (PM2,5) no período de 2016 a 2020 (exposição de longo prazo), além da exposição específica em cada ciclo (curto prazo).
As associações entre a exposição ao PM2,5 e os desfechos menstruais foram investigadas por meio de modelos de regressão que analisaram, individualmente, a probabilidade de ocorrência de ciclos anormais ao longo do tempo, ajustando-se para variáveis temporais.
O estudo analisou mais de 2,2 milhões de ciclos menstruais de 92.550 usuárias, dos quais aproximadamente 17,5% apresentaram duração anormal — sendo a maioria deles prolongados (>38 dias). A prevalência variou ligeiramente entre os países, e a maior parte dos dados foi registrada por mulheres entre 18 e 25 anos.
As concentrações médias de PM2,5 foram significativamente mais elevadas no México (19,1 μg/m³) e no Brasil (14,3 μg/m³) do que nos EUA (8,2 μg/m³). Modelos de regressão ajustados revelaram associação significativa entre a exposição de longo prazo ao PM2,5 e o aumento da proporção de ciclos menstruais anormais, especialmente ciclos longos. Esses resultados refletiram evidências anteriores que vinculam poluição a irregularidades menstruais e reforçaram hipóteses sobre mecanismos fisiológicos — como a interferência na produção de estradiol durante a foliculogênese e a degradação mais rápida do corpo lúteo, ambos essenciais para a ovulação e a manutenção da fase lútea.
Por outro lado, não foram observadas associações entre a exposição de curto prazo ao PM2,5 e a duração anormal dos ciclos. No entanto, dados sugeriram que a exposição acumulada ao longo dos três ciclos anteriores pode influenciar a duração dos ciclos, indicando a necessidade de mais estudos sobre a janela de vulnerabilidade à poluição do ar.
Apesar das limitações, o estudo corroborou que a exposição ambiental crônica ao material particulado fino (PM2,5) está associada a alterações na função reprodutiva feminina, evidenciada pelo aumento da frequência de ciclos menstruais anormais, sobretudo prolongados. Além disso, o estudo demonstrou que o uso de grandes bases de dados digitais de saúde pode revolucionar a epidemiologia ambiental e orientar estratégias de medicina personalizada, oferecendo ferramentas mais precisas para o monitoramento e a promoção da saúde menstrual.
Published on June 27, 2025
Apps de saúde menstrual
Poluição do ar e seus efeitos no ciclo menstrual
Dados de apps de saúde revelaram riscos ambientais à função reprodutiva feminina
Author: deSouza, P. N . et al.
Fuente: The Lancet Planetary Health, Volume 9, Issue 5, e364 - e373 The effect of air pollution exposure on menstrual cycle health using self-reported data from a mobile health app: a prospective, observational study
A poluição do ar por material particulado fino (PM2,5) é um dos principais riscos ambientais à saúde e já foi associada a desfechos como parto prematuro, baixo peso ao nascer e mortalidade neonatal. Apesar disso, poucos estudos investigaram seu impacto direto sobre o ciclo menstrual e a função do eixo hipotálamo–hipófise–ovariano em mulheres não grávidas.
Por isso, o estudo de deSouza e colaboradores (2025) buscou preencher essa lacuna utilizando dados autorrelatados por meio de um aplicativo de saúde menstrual — tecnologia que tem se tornado uma ferramenta poderosa na coleta de dados populacionais em larga escala. Ao analisar tanto exposições de curto quanto de longo prazo ao PM2,5, os autores conduziram a maior investigação até hoje em países de média e alta renda, abrangendo diferentes níveis de exposição ambiental.
No estudo prospectivo observacional, foram coletados dados autorrelatados e anonimizados por meio do aplicativo de saúde móvel Clue, no qual usuárias monitoraram seus ciclos menstruais. Foram incluídas mulheres entre 18 e 44 anos, residentes em 230 cidades nos Estados Unidos, México e Brasil, que não utilizavam anticoncepcionais hormonais.
O principal desfecho considerado foi a ocorrência de ciclos menstruais com duração anormal, definidos como menores que 24 dias ou maiores que 38 dias. Esses foram avaliados em dois níveis: na proporção de ciclos anormais por cidade e na ocorrência individual de ciclos classificados como anormais ou não. Para isso, consideraram-se os níveis médios de exposição ao material particulado fino (PM2,5) no período de 2016 a 2020 (exposição de longo prazo), além da exposição específica em cada ciclo (curto prazo).
As associações entre a exposição ao PM2,5 e os desfechos menstruais foram investigadas por meio de modelos de regressão que analisaram, individualmente, a probabilidade de ocorrência de ciclos anormais ao longo do tempo, ajustando-se para variáveis temporais.
O estudo analisou mais de 2,2 milhões de ciclos menstruais de 92.550 usuárias, dos quais aproximadamente 17,5% apresentaram duração anormal — sendo a maioria deles prolongados (>38 dias). A prevalência variou ligeiramente entre os países, e a maior parte dos dados foi registrada por mulheres entre 18 e 25 anos.
As concentrações médias de PM2,5 foram significativamente mais elevadas no México (19,1 μg/m³) e no Brasil (14,3 μg/m³) do que nos EUA (8,2 μg/m³). Modelos de regressão ajustados revelaram associação significativa entre a exposição de longo prazo ao PM2,5 e o aumento da proporção de ciclos menstruais anormais, especialmente ciclos longos. Esses resultados refletiram evidências anteriores que vinculam poluição a irregularidades menstruais e reforçaram hipóteses sobre mecanismos fisiológicos — como a interferência na produção de estradiol durante a foliculogênese e a degradação mais rápida do corpo lúteo, ambos essenciais para a ovulação e a manutenção da fase lútea.
Por outro lado, não foram observadas associações entre a exposição de curto prazo ao PM2,5 e a duração anormal dos ciclos. No entanto, dados sugeriram que a exposição acumulada ao longo dos três ciclos anteriores pode influenciar a duração dos ciclos, indicando a necessidade de mais estudos sobre a janela de vulnerabilidade à poluição do ar.
Apesar das limitações, o estudo corroborou que a exposição ambiental crônica ao material particulado fino (PM2,5) está associada a alterações na função reprodutiva feminina, evidenciada pelo aumento da frequência de ciclos menstruais anormais, sobretudo prolongados. Além disso, o estudo demonstrou que o uso de grandes bases de dados digitais de saúde pode revolucionar a epidemiologia ambiental e orientar estratégias de medicina personalizada, oferecendo ferramentas mais precisas para o monitoramento e a promoção da saúde menstrual.