| Introdução |
A Doença de Parkinson (DP) é a segunda enfermidade neurodegenerativa mais prevalente globalmente, sendo o envelhecimento o principal fator de risco para seu desenvolvimento. Nos últimos anos, houve um aumento em seus casos, principalmente associado ao aumento da expectativa de vida, mudanças nos hábitos diários e, possivelmente, a fatores ambientais.
O avanço da agricultura resultou no uso elevado de pesticidas e, consequentemente, no aumento do interesse em suas repercussões na saúde humana. Embora essas substâncias sejam benéficas para a produção de alimentos, o seu contato pode causar intoxicação aguda e/ou aumentar o risco de desenvolvimento de doenças crônicas. Além disso, esses compostos são tóxicos para outras espécies animais, impactando diversos ecossistemas. Dentre os diversos pesticidas investigados pela associação com a DP, a rotenona, o paraquat e o maneb são aqueles cujos mecanismos de toxicidade têm sido mais elucidados em estudos pré-clínicos.
Além do aumento do número de casos de DP no Brasil, o país está entre os seis maiores consumidores de pesticidas no mundo. Por isso, Santos e colaboradores (2025) realizaram uma revisão com o objetivo de investigar a relação no desenvolvimento da doença neurodegenerativa com a exposição a esses compostos.
| Métodos |
Para o estudo, os autores realizaram uma pesquisa qualitativa exploratório-descritiva, cujo propósito fundamental foi identificar, selecionar e sintetizar as evidências relevantes disponíveis. A revisão sistemática foi conduzida estritamente de acordo com as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) e utilizou o processo PICOS para elucidar a relação entre os eventos de "desenvolvimento da doença de Parkinson" e "exposição a pesticidas”.
A estratégia de busca envolveu a consulta a três bases de dados online: PubMed, Web of Science e Biblioteca Virtual em Saúde. Foram consideradas publicações em qualquer idioma até o final de 2023. Para a seleção e elegibilidade dos artigos, todo o material identificado foi revisado de forma independente utilizando o software Rayyan. Após a exclusão de duplicatas, dois pesquisadores rastrearam de forma independente os títulos, resumos e textos completos para determinar a elegibilidade dos estudos, resolvendo quaisquer discrepâncias por consenso.
Os critérios de inclusão definidos foram: (i) estudos observacionais primários; (ii) estudos realizados em humanos; e (iii) estudos conduzidos na população brasileira. Por outro lado, os critérios de exclusão abrangiam: (i) revisões narrativas/sistemáticas/meta-análises/editoriais ou publicações pré-impressas (preprints); (ii) estudos realizados em outras espécies que não humanos ou em sistemas in vitro/in silico; (iii) estudos que envolvessem populações diferentes da brasileira. Estudos foram também excluídos caso seus resultados não abordassem o desenvolvimento da DP associado à exposição a pesticidas.
| Resultados |
O processo de busca nas bases de dados, conforme o fluxograma PRISMA, resultou na identificação inicial de 976 artigos no PubMed, 49 na Web of Science e 6 na Biblioteca Virtual em Saúde. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 12 artigos foram utilizados na revisão.
Em relação às descobertas principais, o estudo sugeriu, uma associação entre a exposição a pesticidas e o desenvolvimento da DP no Brasil. Esse resultado foi frequentemente mais prevalente na presença de outros fatores:
1. Fatores genéticos e bioquímicos: A associação entre DP e a exposição a pesticidas foi amplificada pela presença do polimorfismo de nucleotídeo único IVS1-7 A→G do gene PINK1. Além disso, a nulidade dos genótipos GSTT1 e GSTM1 da enzima glutationa S-transferase (GST), que possui função antioxidante, e o polimorfismo heterozigoto para GSTP1-Alw26I foram prevalentes em pacientes com DP expostos a pesticidas.
2. Exposição e demografia: A associação foi mais acentuada na presença de exposição ocupacional (sendo este o maior fator de risco), em indivíduos do sexo masculino, com baixo nível educacional e em pessoas que residiam em áreas não urbanas.
A exposição ocupacional a pesticidas aumentou a probabilidade de desenvolver DP em mais de três vezes e duplicou a mortalidade de pacientes com a doença. Esse risco foi comparável ao associado ao histórico familiar da doença.
Em termos de risco ambiental mais amplo, um estudo ecológico identificou uma correlação entre os gastos com pesticidas e as taxas de hospitalização por DP em microrregiões urbanas e não urbanas, com as microrregiões de maior consumo de pesticidas exibindo taxas de hospitalização por DP até 5,90 vezes maiores em áreas não urbanas. Além disso, a exposição domiciliar a pesticidas por mais de 30 dias por ano em qualquer momento da vida implicou um risco duas vezes maior de desenvolvimento de DP.
| Conclusão |
Santos e colaboradores (2025) desenvolveram o primeiro estudo a inferir a associação entre a exposição a pesticidas e a ocorrência da DP no Brasil. Essa relação foi particularmente evidente em áreas rurais onde as atividades agrícolas são predominantes.
Ao considerar a etiologia multifatorial da DP, os achados indicaram que fatores genéticos agem como amplificadores dos riscos ambientais. Além disso, as variáveis demográficas e de exposição também foram relevantes.
Dada a evidência de associação, é crucial propor e implementar políticas de saúde pública eficientes para reduzir a exposição a pesticidas. Tais devem incluir regulamentações mais rigorosas sobre o uso de agrotóxicos, melhoria dos protocolos de segurança para os trabalhadores agrícolas e campanhas educativas abrangentes para elevar a conscientização sobre os riscos associados à exposição. É essencial que as iniciativas de saúde pública foquem também no monitoramento dos níveis de pesticidas em áreas agrícolas e na implementação de programas de rastreamento para a detecção precoce de sintomas da DP entre trabalhadores rurais.