Não é de hoje que o sobrepeso e a obesidade têm sido relacionados ao aumento do risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer, como o de mama. No entanto, um novo estudo acompanhou mais de 135 mil pacientes ao longo de 21 anos e foi além: concluiu que pessoas com IMC (índice de massa corporal) alto ou que aumentem o seu IMC ao longo da vida (especialmente na idade adulta) têm mais risco de desenvolver algum tipo de câncer, especialmente o gastrointestinal.
A pesquisa utilizou dados do Prostate, Lung, Colorectal and Ovarian (PLCO) Cancer Screening Trial, um grande estudo randomizado controlado projetado e patrocinado pelo Instituto Nacional do Câncer (National Cancer Institute - NCI, em inglês), dos EUA.
Os resultados do estudo foram publicados no Jama Network. Durante os 21 anos de acompanhamento, 2.803 pessoas foram diagnosticadas com câncer colorretal e 2.285 desenvolveram outras neoplasias gastrointestinais (como câncer de esôfago, fígado e pâncreas, por exemplo).
A cada acréscimo de uma unidade no IMC ao longo da vida, houve um aumento de 2% a 4% no risco de câncer colorretal e outras neoplasias gastrointestinais.
Má alimentação
Segundo a oncologista Ana Paula Cardoso, do Hospital Israelita Albert Einstein, os mecanismos relacionados à obesidade e ao risco aumentado de câncer ainda não são completamente entendidos.
Ela afirma que existem algumas teorias para explicar a relação entre obesidade e câncer, entre elas a inflamação crônica e persistente do organismo da pessoa com obesidade, além de alterações na flora intestinal (desbiose), alterações metabólicas e imunológicas comuns relacionadas à obesidade, como uma alimentação ruim.
"A população tem consumido muito mais alimentos industrializados, ultraprocessados, com alto teor de açúcar e calórico. São produtos mais acessíveis, mais baratos, mas essa má alimentação tem como consequência a obesidade. Estudos anteriores já mostraram o aumento do risco de morte por câncer também na população com obesidade, comparado com a população com IMC normal e câncer", disse.
De acordo com a oncologista, uma das informações mais importantes deste estudo é mostrar que a manutenção da obesidade ao longo da vida aumenta ainda mais o risco.
"A obesidade é um dos principais fatores de risco para o câncer colorretal. O que esse estudo traz de novo é mostrar que o risco é proporcional ao tempo de exposição. Por exemplo: quando você olha para a população com sobrepeso, existe um aumento de risco, mas ele não é tão grande como quando você olha para as pessoas com obesidade. E da mesma forma quando você muda a faixa do IMC [de sobrepeso para obesidade, de obesidade para obesidade grau 4]. A manutenção da obesidade, assim como a mudança de peso e a faixa do IMC, aumenta o risco", disse.