Um estudo publicado em dezembro de 2025 pela Revista Brasileira de Cancerologia, conduzido por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), revelou importantes desigualdades raciais e regionais no rastreamento do câncer do colo do útero realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A análise utilizou dados do Sistema de Informação do Câncer (Siscan) referentes ao período entre 2021 e 2023, combinados com informações populacionais do Censo de 2022 e da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, considerando exclusivamente mulheres de 25 a 64 anos que dependem do SUS.
A cobertura nacional de rastreamento ficou em 39,03%, bem abaixo da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda que ao menos 70% das mulheres realizem um teste de rastreamento até os 35 anos até 2030. Quando os dados são observados segundo raça/cor, as desigualdades tornam-se mais evidentes: mulheres brancas apresentaram a maior cobertura, com 43,71%, enquanto a proporção foi menor entre mulheres pardas, pretas e amarelas, com 36,2%, e entre indígenas, com 37,58%.
Para o pesquisador Édnei César de Arruda Santos Junior, autor do estudo, a variável raça/cor sintetiza desigualdades estruturais relacionadas à renda, escolaridade, moradia, qualidade do cuidado em saúde e ao vínculo com os serviços, influenciando tanto o risco de adoecimento quanto o acesso ao rastreamento e ao tratamento. Ele destacou que desconsiderar essa variável limita a capacidade das políticas públicas de identificar os grupos menos alcançados e de desenvolver estratégias específicas para diferentes realidades.
As diferenças também se expressam entre as regiões brasileiras. As maiores coberturas foram registradas no Sul e no Sudeste, onde quase metade das mulheres realizou o exame no período estudado. Já no Norte e no Centro-Oeste, os indicadores foram significativamente mais baixos, com cerca de 70% das mulheres sem registro de exame de rastreamento. Quando se analisa cada grupo racial em contexto regional, mulheres brancas tiveram melhores coberturas no Sul (59,53%) e Sudeste (47,84%); entre mulheres não brancas, os melhores indicadores ocorreram no Nordeste (46,87%) e no Sudeste (44,43%); e entre mulheres indígenas, destacaram-se o Sul (54,13%), o Centro-Oeste (49,87%) e o Norte (42,83%).
Segundo Santos Junior, os dados podem orientar o planejamento de ações mais direcionadas, especialmente para alcançar mulheres que nunca realizaram o exame ou que estão com o rastreamento em atraso. Ele ressaltou que o avanço tecnológico recente, com a incorporação do teste de DNA do HPV no SUS, representa uma oportunidade para ampliar o alcance da prevenção. O teste tem maior sensibilidade que o papanicolau e permite intervalos mais longos entre as coletas, o que pode favorecer modelos de rastreamento organizado. No entanto, ele alertou que, para que essa incorporação reduza desigualdades, é fundamental adotar estratégias que incluam convocação ativa e priorização de grupos vulneráveis.
O pesquisador enfatizou ainda que o câncer do colo do útero é uma doença evitável e que seus desfechos dependem diretamente do acesso oportuno ao rastreamento e ao seguimento de casos alterados. Sem organização dos fluxos, financiamento adequado e foco na equidade, afirma, o país não conseguirá atingir as metas internacionais, mesmo dispondo de tecnologias mais avançadas.