Um estudo inédito realizado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP revelou que o ambiente pós-natal — em especial o período de amamentação — exerce influência significativa sobre a microbiota intestinal e o desenvolvimento da hipertensão arterial. Os resultados, publicados na revista Pharmacological Research, demonstram que alterações na microbiota intestinal ocorrem já nas primeiras semanas de vida, antes mesmo da elevação da pressão arterial, desafiando a ideia de que esse desequilíbrio seria apenas uma consequência da doença.
Utilizando um protocolo de amamentação cruzada, os cientistas observaram que ratos com predisposição genética à hipertensão arterial — os SHR — amamentados por mães com pressão arterial normal (normotensas) apresentaram uma redução de cerca de 5% na pressão arterial quando adultos, em comparação aos SHR que foram criados por suas mães biológicas hipertensas.
Além disso, essa redução ocorreu sem que o animal deixasse de ser hipertenso. Ainda assim, uma queda de 10 mmHg (milímetros de mercúrio) na pressão arterial foi suficiente para reduzir significativamente o risco de danos a órgãos como coração, rins e retina.
Além da pressão arterial, o estudo investigou a composição da microbiota intestinal durante as primeiras semanas de vida. Mesmo antes de desenvolverem hipertensão, os SHR já apresentavam disbiose. Embora não tenha havido aumento da diversidade bacteriana, os SHR amamentados por mães normotensas apresentaram uma microbiota mais “refinada”, com composição mais próxima à dos animais normotensos.
O estudo também observou que filhotes normotensos, quando amamentados por mães hipertensas, sofreram alterações na microbiota — mas sem alteração nos níveis de pressão arterial na fase adulta. Isso reforçou que a hipertensão resulta de uma interação complexa entre microbiota e outros fatores biológicos.

Figura 1: Filhotes com pressão normal amamentados por mães hipertensas sofreram alterações na microbiota que não afetaram os níveis de pressão arterial, com modificações na diversidade bacteriana – Imagem retirada de Jornal da USP.
O estudo também investigou compostos produzidos pelas bactérias intestinais que afetam diretamente a saúde do hospedeiro, como o butirato e o sulfeto de hidrogênio (H₂S). O primeiro é um ácido graxo de cadeia curta (SCFA) com reconhecida ação anti-inflamatória e capacidade de contribuir para a regulação da pressão arterial.
Nos ratos com predisposição genética à hipertensão (SHR) a produção de butirato já estava reduzida nas primeiras semanas de vida, antes mesmo da elevação da pressão arterial — indicando que alterações funcionais na microbiota ocorrem precocemente e podem estar envolvidas com o surgimento da doença.
Esse padrão de produção não foi revertido com a amamentação por mães normotensas. No entanto, observou-se uma melhora na absorção dos SCFAs no intestino desses animais, resultado da maior expressão de transportadores específicos influenciada pelo ambiente de amamentação.
O trabalho ainda quantificou, pela primeira vez, o H₂S presente nas fezes dos animais. Ao contrário do que sugeriam pesquisas anteriores, os SHR apresentaram maior produção desse composto, associado ao aumento das bactérias produtoras. Embora o H₂S possa ter efeitos benéficos em baixas doses — como o retardo do aumento da pressão —, em concentrações elevadas pode promover inflamação e disfunção vascular. Esses achados reforçaram a complexidade da relação entre microbiota, metabolismo e hipertensão, e apontaram novas rotas para futuras investigações.
Ao mostrar que a disbiose intestinal antecede a hipertensão, o estudo sugeriu que intervenções precoces, como a modulação da microbiota ainda na infância, podem abrir caminhos para estratégias de prevenção da doença.
Publicado el 7 de mayo de 2025
Saúde cariometabólica
Período da amamentação é fundamental para atenuar hipertensão no futuro
Pesquisa em animais apontou que desequilíbrios na microbiota surgem antes mesmo da hipertensão
Fuente: Jornal da USP Período da amamentação é fundamental para atenuar hipertensão no futuro
Um estudo inédito realizado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP revelou que o ambiente pós-natal — em especial o período de amamentação — exerce influência significativa sobre a microbiota intestinal e o desenvolvimento da hipertensão arterial. Os resultados, publicados na revista Pharmacological Research, demonstram que alterações na microbiota intestinal ocorrem já nas primeiras semanas de vida, antes mesmo da elevação da pressão arterial, desafiando a ideia de que esse desequilíbrio seria apenas uma consequência da doença.
Utilizando um protocolo de amamentação cruzada, os cientistas observaram que ratos com predisposição genética à hipertensão arterial — os SHR — amamentados por mães com pressão arterial normal (normotensas) apresentaram uma redução de cerca de 5% na pressão arterial quando adultos, em comparação aos SHR que foram criados por suas mães biológicas hipertensas.
Além disso, essa redução ocorreu sem que o animal deixasse de ser hipertenso. Ainda assim, uma queda de 10 mmHg (milímetros de mercúrio) na pressão arterial foi suficiente para reduzir significativamente o risco de danos a órgãos como coração, rins e retina.
Além da pressão arterial, o estudo investigou a composição da microbiota intestinal durante as primeiras semanas de vida. Mesmo antes de desenvolverem hipertensão, os SHR já apresentavam disbiose. Embora não tenha havido aumento da diversidade bacteriana, os SHR amamentados por mães normotensas apresentaram uma microbiota mais “refinada”, com composição mais próxima à dos animais normotensos.
O estudo também observou que filhotes normotensos, quando amamentados por mães hipertensas, sofreram alterações na microbiota — mas sem alteração nos níveis de pressão arterial na fase adulta. Isso reforçou que a hipertensão resulta de uma interação complexa entre microbiota e outros fatores biológicos.
Figura 1: Filhotes com pressão normal amamentados por mães hipertensas sofreram alterações na microbiota que não afetaram os níveis de pressão arterial, com modificações na diversidade bacteriana – Imagem retirada de Jornal da USP.
O estudo também investigou compostos produzidos pelas bactérias intestinais que afetam diretamente a saúde do hospedeiro, como o butirato e o sulfeto de hidrogênio (H₂S). O primeiro é um ácido graxo de cadeia curta (SCFA) com reconhecida ação anti-inflamatória e capacidade de contribuir para a regulação da pressão arterial.
Nos ratos com predisposição genética à hipertensão (SHR) a produção de butirato já estava reduzida nas primeiras semanas de vida, antes mesmo da elevação da pressão arterial — indicando que alterações funcionais na microbiota ocorrem precocemente e podem estar envolvidas com o surgimento da doença.
Esse padrão de produção não foi revertido com a amamentação por mães normotensas. No entanto, observou-se uma melhora na absorção dos SCFAs no intestino desses animais, resultado da maior expressão de transportadores específicos influenciada pelo ambiente de amamentação.
O trabalho ainda quantificou, pela primeira vez, o H₂S presente nas fezes dos animais. Ao contrário do que sugeriam pesquisas anteriores, os SHR apresentaram maior produção desse composto, associado ao aumento das bactérias produtoras. Embora o H₂S possa ter efeitos benéficos em baixas doses — como o retardo do aumento da pressão —, em concentrações elevadas pode promover inflamação e disfunção vascular. Esses achados reforçaram a complexidade da relação entre microbiota, metabolismo e hipertensão, e apontaram novas rotas para futuras investigações.
Ao mostrar que a disbiose intestinal antecede a hipertensão, o estudo sugeriu que intervenções precoces, como a modulação da microbiota ainda na infância, podem abrir caminhos para estratégias de prevenção da doença.