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/ Publicado el 3 de mayo de 2026

Procedimentos estéticos

Peeling de fenol: indicações clínicas, manejo do paciente e principais complicações

Entenda as principais recomendações do peeling de fenol no rejuvenescimento facial, nos riscos de toxicidade cardíaca, no manejo clínico do paciente e os detalhes da recente proibição pela Anvisa.

Autor/a: Haddad GR, Gerolamo ACS, Sbrissa ND, Oliveira Neto JF, Marcelino RH, Novello I.

Fuente: Surg Cosmet Dermatol. 2025;17:e20250486 Peeling de fenol: indicações, complicações e manejo do paciente, uma revisão da literatura

O termo peeling refere-se à aplicação de agentes químicos sobre a pele para promover uma destruição controlada da epiderme e parte da derme, resultando em esfoliação química, seguida do estímulo à regeneração celular por meio da reepitelização. Esse procedimento é classificado conforme a profundidade atingida: superficial, médio e profundo.

O peeling de fenol enquadra-se na categoria do profundo, pois penetra até a derme reticular, oferecendo resultados mais evidentes, porém com maiores riscos e desconforto para o paciente. O fenol, ou ácido carbólico (C6H5OH), atua como um agente químico indutor do rejuvenescimento facial, promovendo a coagulação de proteínas cutâneas, além de possuir ação anestésica em terminações nervosas e propriedades bactericidas em concentrações superiores a 1%.

Historicamente, o uso do fenol para o tratamento de manchas e cicatrizes teve início após a Primeira Guerra Mundial. Na década de 1960, novos avanços deram início a era dos peelings, com o desenvolvimento de soluções modificadas de fenol. Em 1962, Baker e Gordon estabeleceram a atual formulação, na qual o fenol é diluído em concentrações de 45% a 55%. Devido à sua alta toxicidade e capacidade de absorção sistêmica pela barreira cutânea, o procedimento exige uma abordagem clínica rigorosa, incluindo anamnese detalhada e exames laboratoriais, visto que o fenol pode desencadear complicações locais, como edema e eritema, e efeitos sistêmicos graves, incluindo toxicidade renal, hepática, depressão do sistema nervoso central e, principalmente, arritmias cardíacas.

No cenário regulatório brasileiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em junho de 2024, a Resolução nº 2.384/2024, que proíbe o uso de produtos à base de fenol em procedimentos de saúde ou estéticos no país. Apesar dessa restrição, a literatura científica continua a relatar casos de eficácia e segurança do método. Nesse contexto, Haddad e colaboradores (2025) realizaram uma revisão com o objetivo de analisar a importância, a segurança e a eficácia dos peelings de fenol, abordando suas indicações, contraindicações, técnicas atuais e o manejo adequado das possíveis complicações relacionadas ao tratamento.

Formulação e aplicação

A fórmula de Baker-Gordon permanece como a composição mais utilizada nos peelings de fenol, sendo constituída por fenol (88% de fenol e 12% de água), água destilada, sabão líquido (hexaclorofeno 0,025%) e óleo de cróton. A presença desses aditivos é fundamental, pois, sem eles, a regeneração celular torna-se menos eficaz.

O óleo de cróton atua aumentando a vascularização local, o que intensifica a infiltração cutânea e a ação queratocoagulante do fenol. O sabão líquido desempenha um papel tensoativo, reduzindo a tensão superficial lipídica da pele e facilitando a emulsificação e a permeabilidade do agente químico. Esses componentes são essenciais para otimizar a difusão dérmica e garantir a resposta clínica esperada.

No que tange à aplicação prática, o protocolo exige a remoção rigorosa da barreira lipídica e dos pelos da face para assegurar uma penetração uniforme e minimizar o desconforto. A técnica consiste em dividir a face em seções, iniciando a aplicação pelas áreas de maior extensão com o auxílio de gazes ou algodão. O tempo de ação recomendado varia entre 10 e 15 minutos. É crucial que o profissional evite movimentos de fricção intensos, pois a absorção do fenol é diretamente influenciada pela pressão exercida e pelo tempo de exposição. Para mitigar os riscos de toxicidade sistêmica e elevar a segurança do método, a literatura recomenda a aplicação de forma fracionada e com intervalos entre as diferentes regiões faciais.

Indicações

O peeling de fenol mantém sua relevância clínica como o agente mais utilizado para a realização de peelings profundos, sendo valorizado por sua eficácia e relativa simplicidade de aplicação. A principal indicação para o uso da fórmula de Baker é o tratamento do envelhecimento facial severo, especialmente quando associado à exposição solar crônica e à presença de rítides profundas. Estudos clínicos que avaliaram o uso do fenol a 88% demonstram resultados significativos na melhora da qualidade da pele, promovendo uma reorganização histológica benéfica das fibras colágenas.

O procedimento também possui indicações importantes para o tratamento de cicatrizes de acne, promoção do clareamento cutâneo e no manejo de lesões pré-malignas e malignas, com destaque para a eficácia na abordagem de queratoses actínicas.

Manejo do paciente

Pelo fato de atingir a derme reticular intermediária, o peeling de fenol é considerado um procedimento bastante doloroso, exigindo o uso de anestesia e analgesia. Alguns protocolos sugerem a utilização de drogas hipnóticas para a realização de sedação consciente, além da prescrição de analgésicos para o controle da dor após o procedimento.

A literatura ressalta que a dor intensa nas primeiras 12 horas após a aplicação permanece como um dos principais desafios, e seu manejo muitas vezes depende da experiência do profissional, visto que ainda não há uma padronização estabelecida para a analgesia nesses casos.

Imediatamente após o procedimento, é aplicada uma máscara oclusiva, geralmente composta por esparadrapo ou pomada de vaselina, que deve permanecer no local por 48 horas. Devido à profundidade da injúria química, ocorre a formação de crostas espessas, o que demanda o uso rigoroso de hidratantes à base de vaselina ou antibióticos tópicos para auxiliar na cicatrização. O prurido, um efeito colateral comum no pós-operatório, pode ser aliviado com compressas geladas e o uso de corticoides de baixa potência.

O processo de regeneração epidérmica tem início cerca de 48 horas após a aplicação, mas a recuperação total do paciente pode levar até três meses, sendo essencial o planejamento de retornos frequentes durante todo o período pós-operatório. Além dos cuidados locais, a segurança sistêmica do paciente exige monitorização contínua em ambiente clínico adequado, incluindo o uso de eletrocardiograma (ECG) para detectar possíveis arritmias cardíacas. Complementarmente, recomenda-se a hidratação endovenosa contínua durante o procedimento para facilitar a eliminação dos metabólitos do fenol e reduzir riscos de toxicidade.

Complicações

Embora as intercorrências sejam consideradas raras quando o procedimento é realizado por profissionais experientes, a profundidade do peeling de fenol impõe riscos significativos que devem ser monitorados. Devido ao comprometimento severo da barreira cutânea, o paciente torna-se vulnerável a infecções bacterianas secundárias e à reativação de erupções herpéticas. Além disso, há o risco de cicatrizes permanentes e inestéticas, especialmente em áreas críticas como pálpebras, lábios e mandíbula, o que torna a investigação prévia de histórico de queloides uma etapa essencial da anamnese.

Outras complicações dermatológicas comuns incluem a hipercromia pós-inflamatória, hipocromia, eritema persistente e o surgimento de milia em decorrência da rápida reepitelização da face.

No âmbito sistêmico, destacam-se as toxicidades cardíaca, hepática e renal. A cardiotoxicidade manifesta-se através de arritmias, taquicardia, fibrilação atrial ou ventricular e dissociação eletromecânica. É importante notar que arritmias cardíacas transitórias podem ocorrer mesmo em pacientes sem comorbidades prévias e adequadamente hidratados, não havendo uma relação direta estabelecida entre essas ocorrências e a técnica ou concentração utilizada. Para mitigar esses riscos, a literatura recomenda o monitoramento eletrocardiográfico (ECG) contínuo durante todo o procedimento, além da hidratação endovenosa rigorosa para facilitar a eliminação dos metabólitos e o fracionamento da aplicação em diferentes áreas faciais para reduzir a taxa de absorção sistêmica. Por fim, embora a relação do fenol com a carcinogênese ainda careça de evidências definitivas, o manejo preventivo e a vigilância clínica contínua permanecem como os pilares da segurança do paciente.

Conclusão

Apesar da crescente visibilidade que o peeling de fenol obteve nos últimos anos, a literatura científica ainda aponta uma escassez de estudos clínicos robustos e de longo prazo que aprofundem o conhecimento sobre sua segurança e manejo. O procedimento é caracterizado como uma abordagem terapêutica agressiva, porém com benefícios significativos e consolidados, especialmente no tratamento do envelhecimento cutâneo severo.

Entretanto, o risco intrínseco de complicações sistêmicas graves, como a cardiotoxicidade e o desencadeamento de arritmias, aliado aos recentes debates regulatórios que levaram à proibição do uso de produtos à base de fenol pela Anvisa em 2024, torna imperativa a adoção de protocolos de segurança rigorosos, monitorização clínica contínua e uma seleção extremamente criteriosa dos pacientes.