A hipertensão crônica ou gestacional complica aproximadamente 7% das gestações, sendo que metade dessas alcançará 37 semanas; ainda assim, não há dados de alta qualidade que fundamentem o momento ideal do parto para essa população de alto risco.
Dados observacionais indicaram que o parto precoce (entre 37 e 38 semanas) pode diminuir a incidência de complicações maternas — como pré-eclâmpsia — além de reduzir cesarianas, natimortos e custos associados à vigilância materno-fetal mais prolongada. No entanto, esse benefício pode vir acompanhado de maior risco de morbidade neonatal.
Meta-análises indicaram que o parto antecipado pode beneficiar mulheres com distúrbios hipertensivos da gestação sem prejudicar os recém-nascidos. No entanto, esses estudos incluíram gestações pré-termo, o que pode alterar o equilíbrio entre riscos e benefícios, além de apresentarem amostras reduzidas e diferenças nos cuidados pré-natais, como o uso menos frequente de medicamentos anti-hipertensivos.
As diretrizes clínicas variam: no Reino Unido, recomenda-se que o momento do parto seja decidido entre a gestante e o obstetra responsável, enquanto orientações internacionais sugeriram o parto programado a partir de 37+0 semanas para hipertensão gestacional e 38+0 semanas para a crônica, embora com orientações fracas.
Diante disso, Magee e colaboradores (2024) desenvolveram o estudo When to Induce Labour to Limit risk in pregnancy hypertension (WILL) com o objetivo de estabelecer, com base em evidências, o momento ideal para indução do parto em mulheres com hipertensão crônica ou gestacional que atingiram a idade gestacional de termo e permaneceram clinicamente estáveis.
O ensaio clínico randomizado, aberto e multicêntrico, realizado em 50 centros no Reino Unido randomizou 403 mulheres com hipertensão crônica ou gestacional entre 36 e 37 semanas de gestação, com feto único e idade média de 30 anos. Foram divididas em dois grupos: 201 mulheres no grupo intervenção, com parto entre 38+0 e 38+3 semanas, e 202 no controle, com cuidados habituais até o termo completo.
Os dresultados primários foram: desfecho materno desfavorável (composto por hipertensão grave, morte materna ou morbidade materna; hipótese de superioridade) e internação em unidade neonatal por ≥4 horas (hipótese de não inferioridade). O secundário principal foi a taxa de cesariana. O acompanhamento foi realizado até seis semanas após o parto.
O parto planejado em termo precoce não demonstrou associação significativa com redução de cesarianas ou melhora no desfecho materno composto, em comparação ao cuidado usual até o termo completo. A taxa de cesariana foi de 29% no grupo intervenção e 36% no controle, com tendência atribuída à menor incidência de cesariana intraparto no grupo intervenção.
No grupo intervenção, observou-se uma redução significativa na ocorrência de pré-eclâmpsia (28% vs. 38%), com benefício clínico relevante (NNTB = 10). Não houve diferenças significativas quanto a hemorragia pós-parto, sepse ou admissão em UTI materna. Embora tenha sido identificado aumento na taxa de transfusão sanguínea no grupo intervenção, os dados apresentaram alta incerteza estatística e não foram acompanhados por aumento na ocorrência de hemorragia.
Para os recém-nascidos, não houve diferença entre os grupos em relação à necessidade de cuidados intensivos por ≥4 horas, problemas respiratórios ou aleitamento materno. O parto planejado foi considerado não inferior ao cuidado usual nesse aspecto, com eventos neonatais abaixo do esperado. Não foram registrados casos de natimorto ou óbito neonatal.
A intervenção foi associada à menor utilização de medicamentos anti-hipertensivos e à redução significativa no monitoramento clínico, como exames laboratoriais para pré-eclâmpsia e consultas ambulatoriais. Consequentemente, observou-se uma diminuição no tempo de internação (mediana de 10 vs. 16 dias) e redução nos custos totais de assistência, especialmente relacionados ao acompanhamento materno-fetal. Além disso, não foram registrados eventos adversos graves relacionados à intervenção.
Em conclusão, o parto precoce em mulheres estáveis com hipertensão crônica ou gestacional que alcançam a idade gestacional de termo mostrou-se uma estratégia segura, com redução significativa da pré-eclâmpsia e tendência à diminuição na taxa de cesarianas, sem aumento de complicações maternas ou neonatais. Além de preservar a saúde da mãe e do bebê, essa abordagem foi associada à menor utilização de recursos clínicos e custos assistenciais, oferecendo uma alternativa viável e potencialmente vantajosa para a prática obstétrica baseada em evidências.