A deficiência de ferro é uma condição diagnosticada comumente, e pode levar a sintomas como fadiga crônica, dificuldade de concentração, desempenho reduzido em atividades físicas e queda na qualidade de vida. Embora seja uma condição prevalente, os tratamentos orais de ferro disponíveis têm eficácia limitada e são frequentemente associados a efeitos colaterais. Isso ocorre devido ao sistema regulador de ferroo, que prioriza a prevenção a longo prazo da sobrecarga, dificultando a correção rápida da deficiência por meio da terapia oral. Nesse contexto, Lo e colaboradores (2022) discutiram a fisiopatologia da absorção do ferro e seus potenciais efeitos colaterais, além de revisarem as evidências mais recentes sobre as estratégias ideais para a reposição oral de ferro.
| Fisiopatologia da absorção de ferro |
O ferro ingerido pode ser dividido em duas categorias: ferro heme (proveniente de fontes animais) e ferro não heme (vegetais e não biológicas). A absorção do primeiro é menos compreendida, mas parece ocorrer de maneira não competitiva com o ferro não heme, possivelmente por vias separadas. A absorção do segundo é mais baixa e ocorre no duodeno e jejuno superior através do transportador DMT1. Para ser absorvido, o ferro precisa estar em sua forma ferrosa (Fe 2+) ou ligado a uma proteína. O pH ácido no estômago facilita a conversão do ferro férrico (Fe 3+) em ferroso, tornando-o mais absorvível.
Após a absorção, o ferro é transportado para a circulação através da ferroportina, presente nos enterócitos, hepatócitos e macrófagos, que também estão envolvidos na regulação e armazenamento do ferro. A hepcidina é um regulador chave da homeostase do ferro, inibindo a ferroportina e limitando o transporte de ferro quando seus níveis são elevados, o que pode resultar em sobrecarga desse metal. Estudos clínicos mostraram que a suplementação de ferro oral aumenta a produção de hepcidina, o que limita a absorção do elemento.
| Efeitos colaterais do ferro oral |
Uma metanálise com 6.831 adultos revelou que a suplementação de sulfato ferroso aumentou significativamente o risco de efeitos colaterais gastrointestinais (GI) em comparação ao placebo ou ferro intravenoso. Os sintomas mais comuns foram constipação, náusea, vômito e diarreia. Outra metanálise envolvendo mais de 10.000 pacientes indicou altas taxas de efeitos colaterais GI para todas as formulações orais de ferro, com destaque para o fumarato ferroso, gluconato ferroso e sulfato ferroso. Dois fatores principais explicam esses efeitos: (1) a geração de radicais livres no intestino, que pode causar inflamação, e (2) alterações na microbiota intestinal.
| Uso clínico do ferro oral |
> Instrução para o tratamento com ferro oral
Devido à escassez de evidências conclusivas, recomenda-se orientar os pacientes sobre as diversas opções de ferro disponíveis, permitindo que escolham ou experimentem diferentes formulações com base em fatores como sabor e efeitos colaterais. A absorção do ferro oral, exceto no caso do ferro quelado, pode ser comprometida por substâncias como fitatos, polifenóis, proteínas de soja e medicamentos que reduzem o pH gástrico, como antiácidos e inibidores da bomba de prótons.
Pacientes que consomem proteínas animais devem ser informados de que componentes presentes em carnes, como peixe e carne bovina, auxiliam na absorção do ferro não heme, independentemente da presença do ferro heme. Dessa forma, a ingestão de ferro oral em conjunto com refeições ricas em proteínas pode potencializar sua absorção. Adicionalmente, a vitamina C é amplamente recomendada como um coadjuvante na absorção do ferro oral, uma vez que cria um ambiente mais ácido no estômago e previne a oxidação do ferro ferroso. No entanto, estudos adicionais são necessários para confirmar sua eficácia.
Não há consenso sobre a duração ideal para avaliar a resposta ao ferro oral antes de considerar um paciente refratário. Recomenda-se monitorar os níveis de ferritina entre 6 e 12 semanas após o início do tratamento com ferro oral. Aqueles que não apresentarem reposição adequada dos estoques de ferro nesse período devem ser considerados para terapia com ferro intravenoso.
> Tratamento com ferro intravenoso ao invés de ferro oral
O uso do ferro intravenoso (IV) é recomendado para indivíduos que realizaram cirurgia intestinal anterior ou possuem doenças ativas do intestino, como doença inflamatória intestinal (DII), pois não se beneficiam da suplementação oral de ferro devido à má absorção gastrointestinal. Além disso, pacientes com DII, o ferro oral pode agravar a qualidade vida aumentando a inflamação gastrointestinal e afetar negativamente a microbiota. O ferro IV deve ser oferecido a pacientes que não conseguiram repor os estoques de ferro após 6 a 12 semanas de tratamento oral ou que não toleraram os efeitos colaterais dele. Adicionalmente, o ferro intravenoso é igualmente considerado em pacientes idosos anêmicos, em casos de anemia pré-operatória ou anemia ferropriva grave.
Conclui-se que há uma necessidade significativa de desenvolver formulações orais de ferro mais eficazes, considerando que a absorção do ferro é limitada e frequentemente comprometida por efeitos colaterais. Nesse contexto, a educação sobre o uso adequado e eficaz do ferro oral torna-se fundamental para otimizar os benefícios do tratamento. Por fim, a suplementação rotineira de ferro oral, quando bem orientada, tem o potencial de melhorar significativamente a qualidade de vida de adultos em escala global.
Publicado el 16 de febrero de 2025
Deficiência nutricional mais comum
Papel do ferro oral no tratamento de deficiência de ferro em adultos
Desafios e estratégias na terapia oral para deficiência de ferro em adultos
Autor/a: Lo, J. et al. (2022)
Fuente: European Journal of Haematology The role of oral iron in the treatment of adults with iron deficiency
A deficiência de ferro é uma condição diagnosticada comumente, e pode levar a sintomas como fadiga crônica, dificuldade de concentração, desempenho reduzido em atividades físicas e queda na qualidade de vida. Embora seja uma condição prevalente, os tratamentos orais de ferro disponíveis têm eficácia limitada e são frequentemente associados a efeitos colaterais. Isso ocorre devido ao sistema regulador de ferroo, que prioriza a prevenção a longo prazo da sobrecarga, dificultando a correção rápida da deficiência por meio da terapia oral. Nesse contexto, Lo e colaboradores (2022) discutiram a fisiopatologia da absorção do ferro e seus potenciais efeitos colaterais, além de revisarem as evidências mais recentes sobre as estratégias ideais para a reposição oral de ferro.
O ferro ingerido pode ser dividido em duas categorias: ferro heme (proveniente de fontes animais) e ferro não heme (vegetais e não biológicas). A absorção do primeiro é menos compreendida, mas parece ocorrer de maneira não competitiva com o ferro não heme, possivelmente por vias separadas. A absorção do segundo é mais baixa e ocorre no duodeno e jejuno superior através do transportador DMT1. Para ser absorvido, o ferro precisa estar em sua forma ferrosa (Fe 2+) ou ligado a uma proteína. O pH ácido no estômago facilita a conversão do ferro férrico (Fe 3+) em ferroso, tornando-o mais absorvível.
Após a absorção, o ferro é transportado para a circulação através da ferroportina, presente nos enterócitos, hepatócitos e macrófagos, que também estão envolvidos na regulação e armazenamento do ferro. A hepcidina é um regulador chave da homeostase do ferro, inibindo a ferroportina e limitando o transporte de ferro quando seus níveis são elevados, o que pode resultar em sobrecarga desse metal. Estudos clínicos mostraram que a suplementação de ferro oral aumenta a produção de hepcidina, o que limita a absorção do elemento.
Uma metanálise com 6.831 adultos revelou que a suplementação de sulfato ferroso aumentou significativamente o risco de efeitos colaterais gastrointestinais (GI) em comparação ao placebo ou ferro intravenoso. Os sintomas mais comuns foram constipação, náusea, vômito e diarreia. Outra metanálise envolvendo mais de 10.000 pacientes indicou altas taxas de efeitos colaterais GI para todas as formulações orais de ferro, com destaque para o fumarato ferroso, gluconato ferroso e sulfato ferroso. Dois fatores principais explicam esses efeitos: (1) a geração de radicais livres no intestino, que pode causar inflamação, e (2) alterações na microbiota intestinal.
> Instrução para o tratamento com ferro oral
Devido à escassez de evidências conclusivas, recomenda-se orientar os pacientes sobre as diversas opções de ferro disponíveis, permitindo que escolham ou experimentem diferentes formulações com base em fatores como sabor e efeitos colaterais. A absorção do ferro oral, exceto no caso do ferro quelado, pode ser comprometida por substâncias como fitatos, polifenóis, proteínas de soja e medicamentos que reduzem o pH gástrico, como antiácidos e inibidores da bomba de prótons.
Pacientes que consomem proteínas animais devem ser informados de que componentes presentes em carnes, como peixe e carne bovina, auxiliam na absorção do ferro não heme, independentemente da presença do ferro heme. Dessa forma, a ingestão de ferro oral em conjunto com refeições ricas em proteínas pode potencializar sua absorção. Adicionalmente, a vitamina C é amplamente recomendada como um coadjuvante na absorção do ferro oral, uma vez que cria um ambiente mais ácido no estômago e previne a oxidação do ferro ferroso. No entanto, estudos adicionais são necessários para confirmar sua eficácia.
Não há consenso sobre a duração ideal para avaliar a resposta ao ferro oral antes de considerar um paciente refratário. Recomenda-se monitorar os níveis de ferritina entre 6 e 12 semanas após o início do tratamento com ferro oral. Aqueles que não apresentarem reposição adequada dos estoques de ferro nesse período devem ser considerados para terapia com ferro intravenoso.
> Tratamento com ferro intravenoso ao invés de ferro oral
O uso do ferro intravenoso (IV) é recomendado para indivíduos que realizaram cirurgia intestinal anterior ou possuem doenças ativas do intestino, como doença inflamatória intestinal (DII), pois não se beneficiam da suplementação oral de ferro devido à má absorção gastrointestinal. Além disso, pacientes com DII, o ferro oral pode agravar a qualidade vida aumentando a inflamação gastrointestinal e afetar negativamente a microbiota. O ferro IV deve ser oferecido a pacientes que não conseguiram repor os estoques de ferro após 6 a 12 semanas de tratamento oral ou que não toleraram os efeitos colaterais dele. Adicionalmente, o ferro intravenoso é igualmente considerado em pacientes idosos anêmicos, em casos de anemia pré-operatória ou anemia ferropriva grave.
Conclui-se que há uma necessidade significativa de desenvolver formulações orais de ferro mais eficazes, considerando que a absorção do ferro é limitada e frequentemente comprometida por efeitos colaterais. Nesse contexto, a educação sobre o uso adequado e eficaz do ferro oral torna-se fundamental para otimizar os benefícios do tratamento. Por fim, a suplementação rotineira de ferro oral, quando bem orientada, tem o potencial de melhorar significativamente a qualidade de vida de adultos em escala global.