Artigos

/ Publicado em 9 de fevereiro de 2022

Novas abordagens

Osteoartrite e a microbiota intestinal

Doença heterogênea de causa multifatorial

Autor/a: Marie Binvignat, Harry Sokol, Encarnita Mariotti-Ferrandiz, Francis Berenbaum, Jérémie Sel lam.

Fuente: Osteoarthritis and Gut Microbiome.

Índice
1. Página 1
2. Referências Bibliográficas
Introdução

A osteoartrite (OA) é uma desordem que leva ao envolvimento global da articulação (osso subcondral, ligamentos, cápsula articular, membrana sinovial e músculos periarticulares). Os locais mais acometidos são: joelho, quadril, coluna vertebral e mão. 7

No mínimo, 240 milhões de pessoas no mundo sofrem de OA. Trata-se de um dado alarmante, considerando-se a incapacidade, perda de qualidade de vida e os custos do sistema de saúde gerados pela enfermidade.

A osteoartrite é considerada uma doença heterogênea e tem causa multifatorial, como trauma, cirurgia, obesidade, desalinhamento articular, genética, envelhecimento e tabagismo. Sabe-se que o estilo de vida influencia a prevalência da doença. Nos dias atuais, a OA se tornou mais prevalente devido a dietas pouco saudáveis com baixo teor de fibras e alto teor de gordura e açúcar. Elas também estão relacionadas à ocorrência de inflamação de baixo grau da mucosa intestinal.

Há mais de 2000 anos Hipócrates teria dito que “todas as doenças começam no intestino”. Apesar da medicina ainda não poder confirmar a veracidade científica desta frase, vários estudos apontaram que a manutenção da microbiota nativa é importante para a homeostase do organismo. De forma geral, no intestino de cada pessoa existem microrganismos comensais de determinadas espécies em proporções mais ou menos constantes quando a pessoa está saudável. A disbiose consiste em um estado mal adaptativo do microbioma por haver desequilíbrio entre o número de bactérias comensais e agressoras, tornando o trato gastrointestinal mais vulnerável. Essa pode contribuir para o estabelecimento e/ou agravamento de uma variedade de doenças metabólicas, cardiovasculares e neurológicas, como autismo, doença de Alzheimer, ansiedade, depressão, e síndromes dolorosas. 2

Microbiota e osteoartrite

A influencia da microbiota na dor é uma área ainda pouco explorada, no entanto, pesquisas que demonstram o mecanismo dessa relação estão se tornando cada vez mais comuns.

Vários estudos expuseram uma ligação entre a OA e metabólitos ou biomarcadores relacionados à microbiota intestinal. Loef et al. (2020) demonstraram em uma coorte de 5.328 pacientes com OA de joelho ou mão a associação entre a concentração sérica pós-prandial de ácidos graxos plasmáticos e danos estruturais.1 Uma diminuição significativa na concentração sérica de triptofano em 12 pacientes com OA em comparação com 20 voluntários saudáveis foi apresentada por Huang et al. (2020).2

O lipopolissacarídeo (LPS), durante sua circulação sistêmica, pode causar ativação da imunidade inata através da ligação a diferentes receptores expressos por macrófagos, como o receptor Toll-like 4 (TLR4). Dois estudos destacam o papel do LPS na progressão estrutural e na dor na OA. O primeiro, Huang et al. (2016) encontraram uma associação positiva entre os níveis de LPS sanguíneo ou sinovial e a destruição articular em 24 pacientes com OA de joelho, bem como uma associação entre o nível de proteína de ligação ao LPS (LPB) no líquido sinovial e a intensidade da dor.3 O segundo, Daghstani et al. (2015) demonstraram uma associação entre o nível de CD14 solúvel no sangue ou no líquido sinovial, um marcador indireto da ativação de TLR4 por LPS, e dor em 184 pacientes com OA de joelho.4

Poucos estudos investigaram a análise direta da composição bacteriana da microbiota intestinal em pacientes com AO. O mais marcante, envolvendo 1.444 pacientes com OA de joelho ou quadril, identificou a abundância de algumas espécies pró-inflamatórias, como Streptococcus. Com isso, pode ocorrer um aumento da produção de metabólitos que atravessam a barreira intestinal e caem na circulação sanguínea ou através de produtos imunogênicos que estimulam macrófagos locais ou sistêmicos.5

Além disso, o fenômeno da translocação bacteriana também pode desempenhar um papel na OA. O DNA de certas bactérias foi encontrado na cartilagem, que geralmente é reconhecida como um tecido estéril por não ser vascularizado. A presença sugeriu que metabólitos e fragmentos bacterianos derivados da microbiota intestinal podem atingir a articulação. Dessa forma, Dunn et al. (2020) estudaram 42 pacientes com OA de joelho, 67 pacientes com OA de quadril e 20 controles. Usando uma abordagem de RNA ribossômico 16S, eles expuseram uma assinatura microbiana específica na cartilagem de pacientes com OA com uma proporção aumentada de constituintes gram-negativos, como Betaproteobactérias.6

Figura 1: Resumo do papel do microbioma intestinal na osteoartrite

Perpectivas terapêuticas

Existem diversas formas de modular a microbiota e o uso de probióticos é uma dessas. Os resultados são entusiasmantes, no entanto, são necessários mais estudos antes de recomendar esses na prática clínica. Luy et al. (2020) expuseram que administração oral de Streptoccocus thermophilus em 80 pacientes foi associado a uma diminuição da progressão da osteoartrite do joelho medida pelo biomarcador sérico e pela pontuação WOMAC.7 Além disso, o uso de Lactobacillus casei Shirota em 537 pacientes, mostrou uma diminuição significativa da pontuação WOMAC e dor após 6 meses.8

A alimentação também influencia na microbiota, podendo estimular a proliferação e/ou atividade de bactérias desejáveis no intestino. Dietas enriquecidas em fibras dietéticas também foram estudadas em coortes não intervencionistas e apresentaram uma relação entre a ingestão de fibras, particularmente em mais de 25 gramas por dia, e a redução da dor na osteoartrite, possivelmente através da produção de ácidos graxos de cadeia curta.9,10 O consumo de prebiótico, como a oligofrutose, pode ser uma nova via potencial de investigação na OA metabólica, como demonstrado por estudos realizados em animais.11

Conclusão

Apesar do conhecimento ainda limitado a respeito do real impacto da microbiota nos processos de saúde e doença do organismo, ela é considerada um componente essencial para a manutenção da homeostase, incluindo a modulação da dor, como na OA. Como é observada na maioria dos processos no organismo, a adequada função depende do equilíbrio, e no caso da microbiota, esse equilíbrio é determinado pelo balanço na sua composição. A disbiose pode desencadear ou agravar doenças, e, portanto, o seu reequilíbrio pode ser um alvo para sua resolução. Dessa forma, modular por meio de intervenção dietética e abordagens pré/probióticas pode representar uma nova estratégia para o controle da dor crônica.