A classe de medicamentos conhecidos como agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1) foi originalmente desenvolvida para o manejo do diabetes mellitus tipo 2 (DM2). No entanto, nos últimos anos, o seu uso se expandiu para incluir a promoção da perda de peso. Esses medicamentos mimetizam incretinas, estimulam a secreção de insulina após uma carga de glicose e induzem saciedade precoce através do esvaziamento gástrico retardado.
O impacto dos GLP-1s na diminuição da motilidade gástrica levantou preocupações em pacientes submetidos a procedimentos endoscópicos altos. Isso se deve ao risco percebido de aspiração de conteúdo gástrico retido (CGR) em pacientes sedados e à diminuição da visibilidade da mucosa gástrica, o que pode reduzir o rendimento diagnóstico do exame.
Apesar dos dados limitados disponíveis, a Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA) recentemente emitiu diretrizes perioperatórias baseadas em consenso, sugerindo que os GLP-1s devem ser suspensos antes do procedimento ou cirurgia, independentemente da indicação (DM2 ou perda de peso), dose ou tipo de procedimento.
A Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) recomendou uma abordagem individualizada para o manejo de pacientes em uso de GLP-1s no contexto pré-endoscópico, citando a escassez de dados que apoiam essa política. A associação enfatizou a importância de não suspender a terapia em pacientes que não apresentam sintomas que sugerem CGR, como náuseas, vômitos, dispepsia ou distensão abdominal.
Ambos os documentos da sociedade sublinharam a necessidade urgente de dados clínicos para informar a prática clínica sobre este tópico crucial. Por isso, Facciorusso e colaboradores (2025) realizaram uma meta-análise para determinar o impacto clínico dos GLP-1s em pacientes submetidos a procedimentos de endoscopia alta.
Para isso, eles realizaram uma busca bibliográfica sistemática até maio de 2024. As estimativas agrupadas foram analisadas usando um modelo de efeitos aleatórios, com os resultados apresentados como razão de chances (OR) e intervalo de confiança de 95% (IC). O desfecho primário avaliado foi a taxa de CGR, enquanto os secundários incluíram as taxas de procedimentos abortados e repetidos, taxa de eventos adversos e taxas de aspiração.
De 177 estudos identificados, 13 com 84.065 pacientes foram incluídos. Diferentes GLP-1s foram usados, sendo a semaglutida utilizada em 2 estudos.
As taxas de CGR foram significativamente maiores em pacientes em terapia com GLP-1s. Uma análise de sensibilidade adicional restrita apenas a pacientes com diabetes (4 estudos com 7.287 pacientes) também confirmou esses achados primários. A análise agrupada de ORs ajustados com base em 6 estudos com 36.736 paciente e levando em consideração várias variáveis, incluindo sexo, idade, IMC, diabetes e outras terapias, confirmou a maior taxa de CGR no grupo de usuários de GLP-1s.
A taxa de procedimentos abortados foi relatada em cinco estudos com 1.748 e 34.793 pacientes no grupo GLP-1 e controle, respectivamente. Essa taxa foi de 1% no grupo que fazia uso do medicamento versus 0,3% em não usuários. Os resultados também foram maiores quando comparadas as taxas de procedimentos repetidos (2% versus 1% no grupo GLP-1 e controle, respectivamente), conforme três estudos.
Os eventos adversos e as taxas de aspiração brônquica foram relatados em quatro e seis estudos, respectivamente, no entanto, não houve diferença significativa entre os grupos.
Em conclusão, Facciorusso e colaboradores (2025) indicaram, que embora o uso de GLP-1 resulte em taxas maiores de CGR, o impacto clínico real parece limitado. Portanto, não há evidências fortes para apoiar a descontinuação rotineira do medicamento antes dos procedimentos de endoscopia alta. Além disso, a incidência de EAs, particularmente aspiração, é baixa e não difere significativamente entre os dois grupos. Portanto, prolongar a duração do jejum para sólidos poderia representar a abordagem ideal nesses pacientes, embora essa estratégia necessite de avaliação adicional.