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/ Publicado el 21 de septiembre de 2025

Conteúdo patrocinado por FQM S.A.

O uso de quetiapina em pacientes idosos

Conteúdo produzido pela Dra. Celene Pinheiro, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer - ABRAz.

Autor/a: Dra. Celene Pinheiro

A geriatria é a arte de administrar e reestabelecer o equilíbrio da saúde da pessoa idosa.  Com olhar amplo deve buscar, além dos aspectos biológicos, fatores que impactam positiva e negativamente esse equilíbrio. O envelhecimento não acontece de forma igual para todos; é um processo heterogêneo influenciado diretamente por questões da saúde física, do estilo de vida, além de emocionais e socioeconômicas.

Diante do desafio de prescrever tratamentos medicamentosos para essa população, é fundamental priorizar as metas a serem atingidas e como isso ocorrerá da forma mais segura.

Há que se considerar aspectos de farmacocinética e farmacodinâmica próprios do envelhecimento, além de outros fatores que influenciam o sucesso da prescrição, como nível funcional, comorbidades, risco de polifarmácia e condições sociais. A grande preocupação dos geriatras é obter o melhor tratamento sem incorrer no risco de causar iatrogenia (Quadro 1).1,2

Quadro 1. Alterações da farmacocinética em idosos

A quetiapina apresenta atividade antagonista em múltiplos neurotransmissores, em especial em serotoninérgicos (5HT2), noradrenérgicos (α1) e transportador noradrenérgico, o que  justifica o efeito positivo no humor.

A quetiapina é um antipsicótico de segunda geração aprovado pela Food and Drug Administration para tratar esquizofrenia e episódio agudo de mania e como terapia adjuvante para transtorno depressivo maior. É extremamente eficaz no controle de sintomas positivos da esquizofrenia3, no manejo da agitação do episódio de mania da depressão e no tratamento de manutenção do transtorno afetivo bipolar 4 por seu efeito estabilizador de humor, além de melhorar o sono desses indivíduos.

A quetiapina apresenta atividade antagonista em múltiplos neurotransmissores, em especial em serotoninérgicos (5HT2), noradrenérgicos (α1) e transportador noradrenérgico, o que justifica o efeito positivo no humor. As propriedades antidopaminérgicas D1e D2 promovem impacto em atividades motoras como agitação na depressão.5

A quetiapina apresenta metabolismo hepático, majoritariamente pelo CYP3A4, e 83% dela se liga a proteínas plasmáticas. O pico de ocupação de receptores D2 ocorre entre 2 e 3 h, com as concentrações caindo para menos de 30% em 12 h, o que ocasiona menos efeitos residuais no dia seguinte. A eliminação ocorre pelas vias renal (73%) e fecal (27%).5

No entanto, seu antagonismo H1 e de receptores 5HT-2A causa sedação. Por esse motivo, há um aumento crescente do uso off-label para distúrbios do sono, transtorno de ansiedade generalizada, estabilizador de humor, transtorno de estresse pós-traumático e tratamento de manifestações neuropsiquiátricas das demências.6 No Canadá, entre 2005 e 2012, houve um aumento de prescrições de 300%.7

Sono

O Consenso Brasileiro de Insônia de 2019 elencou benefícios da quetiapina em diminuir pesadelos em pessoas com transtorno de estresse pós-traumático, além de considerar que pode ser apropriada a pacientes que falharam em outra modalidade de tratamento e que apresentam uma condição de comorbidade, os quais poderiam se beneficiar da ação primária desse fármaco (com base em consenso de especialistas em medicina do sono).12

A administração possivelmente recomendada para tratamento da insônia é uma vez ao dia, próximo ao horário de deitar-se, entre 25 e 100 mg/dia.11 Após a administração oral, ocorre absorção rápida, atingindo-se o pico de concentração sérica 1,2 a 1,8 hora, não sendo sua biodisponibilidade afetada de forma significativa pela ingestão de alimentos. É metabolizada no fígado pelo CYP3A4 e sua meia-vida é de aproximadamente 6 a 7 horas. A eliminação ocorre pelas vias renal (73%) e fecal (27%).5-10,12-16

Alterações comportamentais das demências

Os sintomas comportamentais e psicológicos das demências (SCPD) atingem entre 60% e 90% pessoas com demências, aumentando com a gravidade da doença.17 Incluem um amplo espectro de condições, como apatia, depressão, ansiedade, distúrbios do sono, psicose, agitação, agressão, perambulação e manifestações motoras, desinibição e muitos outros. São notórios causadores de prejuízos cognitivo e funcional, estresse do cuidador, admissão em instituição de longa permanência e mortalidade.17-19

As melhores evidências incluem a instituição de medidas não farmacológicas isoladas ou concomitantemente com o uso de tratamento farmacológico que muitas vezes se faz necessário, mesmo com reduzidos níveis de evidência científica, sendo uma prática bastante comum.20

O uso de quetiapina em idosos, particularmente naqueles com psicose relacionada à demência, é associado a maior mortalidade. Tal fato vai ao encontro dos achados de estudos controlados por placebo que mostraram maior incidência de mortalidade por eventos cardiovasculares e infecciosos.13-15 Além disso, o uso de quetiapina, assim como o de outros antipsicóticos de segunda geração, associa-se a efeitos adversos cerebrovasculares, incluindo acidentes vasculares encefálicos, e casos de idosos com demência.13,14

Comparada com outras medicações da mesma classe de antipsicóticos, a quetiapina é menos associada a distonia e sintomas extrapiramidais, mas pode promover ganho de peso, síndrome metabólica e prolongamento do intervalo QT.16

Um grupo interdisciplinar de hospitais do Canadá criou um algoritmo baseado em evidências para o tratamento de alterações comportamentais das demências. Os algoritmos focaram no tratamento de agressão e agitação causado pelas demências da doença de Alzheimer e vascular, baseados na força de evidência, tempo de início de efeito, tolerabilidade, facilidade de uso e evidência de benefícios para outros tipos de SCPD também.21

Após avaliação criteriosa e suspensão de medicamentos potencialmente desencadeadores de agitação e agressividade, foram recomendados risperidona, aripiprazol ou quetiapina, carbamazepina, citalopram, gabapentina e prazosina. Foram propostas escalas de titulação e ajustes para pacientes frágeis (Figuras 1 e 2).2

Figura 1. Fármacos destinados ao tratamento de agressão e agitação causadas por demências relativas à doença de Alzheimer.21

Figura 2. Escala de fármacos relativa ao tratamento de demências.21

Outro estudo de revisão sobre agitação, entre as diversas etiologias de demência, como doença de Alzheimer, demência de etiologia vascular, frontotemporal e demência da doença de Parkinson, em estados agudos ou crônicos, sugeriu um algoritmo para a terapêutica farmacológica, sempre após cuidadosa avaliação e implementação de medidas não farmacológicas centradas na pessoa. Entre os antipsicóticos atípicos, a quetiapina figura como segunda opção em quadros agudos e nos quadros crônicos de agitação, como primeira opção na agitação de pessoas com doença de Alzheimer, segunda opção na agitação da demência vascular e da doença de Parkinson e terceira opção na agitação da demência frontotemporal (Figura 3).22

Figura 3. Algoritmo da terapêutica farmacológica nos quadros de agitação nos casos de demência.22

Efeitos adversos

Uma revisão sistemática evidenciou os eventos adversos mais comuns associados ao uso de quetiapina em idosos. Entre eles, pode-se citar sonolência, tontura, cefaleia, hipotensão ortostática e ganho de peso. A revisão também evidenciou aumento no declínio cognitivo, quedas e mortalidade em pessoas com parkinsonismo e não naquelas com demência (Figura 4).23

Figura 4. Eventos mais comuns associados ao uso de quetiapina.23

Manejo

Em idosos, a clearance média da quetiapina é reduzida em 30% a 50% comparada à de jovens, necessitando de titulação a partir de baixas doses e de forma mais lenta para evitar efeitos adversos (o famoso “start low, go slow”).

O monitoramento cauteloso se faz necessário em especial para a vigilância da ocorrência de hipotensão ortostática, mesmo que os estudos não demonstrem grandes diferenças de tolerabilidade entre jovens e idosos.13-15

Pode ser uma alternativa por ter meia-vida mais curta comparada à de outros antipsicóticos, tendo menos tempo para reversão de efeitos caso ocorram efeitos adversos.

Em pacientes que fazem seu uso, é recomendado monitorar o índice de massa corporal, o peso, a pressão arterial, a glicemia de jejum e o perfil lipídico antes de se iniciar o tratamento e seguir o controle regularmente.24

Orientação dietética, controle de peso e da constipação e lenta titulação das doses podem contornar os eventos adversos.

Muita atenção deve ser dada durante a administração concomitante de fármacos inibidores potentes da CYP3A4 (como antifúngicos azóis, antibióticos macrolídeos e inibidores de protease), pois as concentrações plasmáticas deles podem estar significativamente aumentadas, conforme observado em pacientes nos estudos clínicos.16

Considerações finais

Não foi exagero nomear a geriatria de arte. O manejo dos desafios impostos pelas condições de saúde do idoso, incluindo quadros neurodegenerativos, requer muita habilidade e conhecimento. A necessidade do uso de fármacos, como a quetiapina, em idosos muitas vezes não conta com evidências muito consistentes, e podem estar associadas a eventos adversos importantes. Portanto, é essencial avaliar riscos e benefícios e monitorar atentamente pacientes idosos, em especial aqueles com doenças cardiovasculares e neurodegenerativas.

Referências bibliográficas:

1. Thompson W, McDonald EG. Polypharmacy and deprescribing in older adults. Annu Rev Med. 2024;75:113-27.

2. American Geriatrics Society. Disponível em: http://geriatricscareonline.org/

3. Ramos LR, Tavares NUL, Bertoldi AD, et al. Polifarmácia e polimorbidade em idosos no Brasil: um desafio em saúde pública. Rev Saúde Pública. 2016;50(suppl. 2).

 4. Srisurapanont M, Maneeton B, Maneeton N, et al. Quetiapine for schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev. 2004(2);CD000967.

 5. Hardoy M, Garofalo A, Carpiniello B, et al. Combination quetiapine therapy in the long-term treatment of patients with bipolar I disorder. Clin Pract Epidemiol Ment Health. 2005;1:7. 

6. Baune B.  New developments in the management of major depressive disorder and generalized anxiety disorder: role of quetiapine. Neuropsychiatric Dis Treat. 2008;4(6):1181-91.

7. Pringsheim T, Gardner DM. Dispensed prescriptions for quetiapine and other second-generation antipsychotics in Canada from 2005 to 2012: a descriptive study. CMAJ Open 2014;2(4):E225-E232.

8. Lin CY, Chiang CH, Tseng MM, et al. Effects of quetiapine on sleep: a systematic review and meta-analysis of clinical trials. Eur Neuropsychopharmacol. 2023;67:22-36.

9. Hui RL, Lee AL, Lee EA, et al. Safety of low-dose quetiapine for insomnia in older adults. Drugs Aging. 2025;42(2):127-33.

10. Højlund M, Andersen K, Ernst MT, et al. Use of low-dose quetiapine increases the risk of major adverse cardiovascular events: results from a nationwide active comparator-controlled cohort study. World Psychiatry. 2022;21(3):444-51.

11. Tassniyom K, Paholpak S, Tassniyom S, et al. Quetiapine for primary insomnia: a double blind, randomized controlled trial. J Med Assoc Thai. 2010;93(6):729-34.

12. Consenso Brasileiro de Insônia de 2019.

13. Food and Drug Administration. Seroquel 2017.

14. Food and Drug Administration. Seroquel 2025.

15.  Food and Drug Administration. Seroquel 2025.

16. Modesto-Lowe V, Harabasz AK, Walker SA. Quetiapine for primary insomnia: consider the risks. Cleve Clin J Med. 2021;88(5):286-94.

17. Lyketsos CG, Steinberg M, Tschanz JT, et al. Mental and behavioral disturbances in dementia: findings from the Cache County Study on Memory in Aging. Am J Psychiatry. 2000;157(5):708-14.

 18. Siafarikas N, Selbaek G, Fladby T, et al. Frequency and subgroups of neuropsychiatric symptoms in mild cognitive impairment and different stages of dementia in Alzheimer’s disease. Int Psychogeriatr. 2018;30(1):103-13.

19. Bränsvik V, Granvik E, Minthon L, et al. Mortality in patients with behavioural and psychological symptoms of dementia: a registry-based study. Aging Ment Health. 2021;25(6):1101-9.

20. Ballard C, Youakim JM, Coate B, et al. Pimavanserin in Alzheimer’s disease psychosis: efficacy in patients with more pronounced psychotic symptoms. J Prev Alzheimers Dis. 2019;6(1):27-33.

21. Davies SJC, Burhan AM, Kim D. Sequential drug treatment algorithm for agitation and aggression in Alzheimer’s and mixed dementia. J Psychopharmacol. 2018;32(5):509-23.

22. Carrarini C, Russo M, Dono F, et al. Agitation and dementia: prevention and treatment strategies in acute and chronic conditions. Front Neurol. 2021;12:644317.

23. El-Saifi N, Moyle W, Jones C, et al. Quetiapine safety in older adults: a systematic literature review. J Clin Pharm Ther. 2016;41(1):7-18.

24. Richelson E, Souder T. Binding of antipsychotic drugs to human brain receptors focus on newer generation compounds. Life Sci. 2000;68(1):29-39.



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