Em 2021, 529 milhões de pessoas viviam com diabetes no mundo, e estima-se que esse número chegue a 1,31 bilhão até 2050. A epidemia resulta principalmente de hábitos alimentares inadequados e sedentarismo, agravados por fatores genéticos que comprometem a secreção de insulina e o armazenamento de lipídios, levando ao aumento do risco individual de desenvolver a doença.
Apesar de sua relevância, a massa, função e composição muscular esquelética têm sido subestimadas nessa condição, principalmente devido à baixa disponibilidade e ao alto custo de medições precisas. O músculo esquelético é o principal local de captação de glicose mediada por insulina, e sua redução — bem como a miosteatose — contribuem significativamente para o desenvolvimento da patogênese do diabetes tipo 2.
Com o envelhecimento, há diminuição progressiva da massa muscular e da força, aumentando o risco de quedas e fraturas. Esse processo também afeta pessoas com diabetes tipo 2, que estão mais vulneráveis à perda muscular. Além disso, dados do UK Biobank indicaram que baixa massa muscular e miosteatose foram associadas ao aumento da mortalidade independentemente.
Em pacientes com essa condição, perdas de peso entre 5–10% melhoram a hiperglicemia, enquanto valores entre 15 a 25% podem levar à remissão. Até recentemente, apenas a cirurgia bariátrica alcançava tais resultados; no entanto, estudos apontaram que agonistas do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) e co-agonistas de GLP-1/ polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) têm efeito semelhante a esse procedimento em indivíduos com obesidade.
Durante a perda de peso, tanto o percentual de gordura quanto a massa magra diminuem. Estudos mostraram que o volume muscular representa cerca de 25–39% da perda total com esses agentes, gerando preocupação sobre seus efeitos na saúde física. A avaliação por absorciometria de dupla energia (DXA), embora amplamente utilizada, estima a massa magra de forma imprecisa, por incluir outros componentes corporais além do músculo.
Por isso, Naveed Sattar e colaboradores (2025) realizaram uma análise pós-hoc do subestudo SURPASS-3 MRI, avaliando o impacto da tirzepatida (5 mg, 10 mg ou 15 mg) e da insulina degludeca titulada na composição muscular da coxa, com ressonância magnética antes e após 52 semanas de tratamento.
Foram calculados escores Z de volume muscular ajustados por sexo, altura, peso e IMC, comparando-os a dados do UK Biobank. A tirzepatida resultou em reduções significativas na infiltração de gordura muscular, volume muscular e escore Z, enquanto a insulina degludeca gerou aumento leve no volume muscular, sem alterações significativas nos demais parâmetros.
Comparando com estimativas populacionais de perda de peso não farmacológica, as reduções na infiltração de gordura muscular com tirzepatida foram maiores, sugerindo um efeito benéfico. As reduções no volume desse tecido foram compatíveis com mudanças esperadas pela perda de peso, sem indícios de perda excessiva de massa magra.
Em conclusão, o estudo de Naveed Sattar e colaboradores (2025) foi o primeiro a utilizar ressonância magnética para analisar os efeitos de terapia com incretinas na composição muscular em pessoas com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade. Os dados reforçaram uma resposta muscular adaptativa à perda de peso com tirzepatida, e indicaram benefícios potenciais na infiltração de gordura muscular, contribuindo para esclarecer preocupações sobre risco de sarcopenia com essa classe terapêutica.