Art & Culture

/ Published on April 17, 2026

Escolha da especialidade

O que você quer ser quando crescer?

Uma reflexão de Emma M. Cooke (2026) sobre identidade, estereótipos e a difícil tarefa de escolher uma especialidade na medicina.

Author: Emma M. Cooke

Fuente: JAMA. Published online March 05, 2026.

Geralmente, após o seu nome e o ano de formação, os chefes perguntam: “O que você está fazendo da vida?”, “Em que você tem interesse?”. A forma varia, mas as respostas possíveis parecem sempre limitadas. A versão que eu achava mais deprimente, e que persistiu até a residência, era: “O que você quer ser quando crescer?” Mesmo dita em tom de brincadeira, carregava a ideia implícita de que, apesar das dívidas, dos empregos em tempo integral e das responsabilidades adultas, estudantes de medicina ainda não eram vistos como adultos de verdade.

Quando comecei as rotações clínicas, fui avisada de que a resposta certa para essa pergunta era sempre a especialidade pela qual você estava passando. No início, não acreditei nisso, o que me causou alguns problemas. Logo no começo do terceiro ano, um residente de ginecologia e obstetrícia perguntou se eu já tinha pensado na especialidade dele. Respondi honestamente: “Não, quero fazer cirurgia.” Ele se irritou: “Você acha que eu não sou cirurgião?” Minha avaliação vinda dele foi, digamos assim, pouco generosa.

Aprendi rapidamente a lição. Não queria mentir, então passei a responder com ambiguidade: “Ainda não sei”, sempre acompanhado de um leve dar de ombros. Mais tarde, ocorreume que talvez essa postura de falsa ambivalência fosse uma forma de encobrir a minha ambivalência real e crescente em relação à escolha da especialidade. Finalmente, chegou minha rotação em cirurgia, e um dos fellows cirúrgicos me fez a pergunta de sempre. A essa altura, eu estava tão confusa que provavelmente fiquei uns 10 segundos em silêncio antes de responder. Ele retrucou: “Está vendo? Pela forma como você falou, parece que você só está tentando me agradar.” Eu estava tão imersa em minha crise existencial que nem cheguei a me ofender. Mas uma parte de mim pensava: “Se você acha que eu só estou tentando te agradar, por que está me perguntando, então?”

Claro que nem toda interação era hostil. Muitas vezes a pergunta vinha por educação, mas ela também servia para classificar as pessoas. Dermatologia? “Você parece inteligente.” Ortopedia? “Tem cara de atleta.” Medicina de família? Depois de uma pausa: “Que bom, sempre precisamos.” Nós, estudantes, fazíamos o mesmo entre nós: “Claro que ela vai fazer pediatria. Ela é tão alegre e animada o tempo todo.” Quando as escolhas de alguém nos surpreendiam, isso também gerava comentários. “Neurocirurgia? Mas ela é tão doce e quieta!”. Havia conforto em entender quem ia para onde, em um ambiente hospitalar muitas vezes confuso e intimidante.

O problema é que essa categorização tornava a escolha da especialidade ainda mais complicada. Será que eu estava escolhendo a área por eu realmente gostar dela ou pela identidade que vinha junto com ela? Quando contei que não aplicaria para cirurgia, muitos se surpreenderam. “Mas você é tão confiante!” Eu não havia mudado, mas a forma como me viam, sim.

Na residência, passei para o outro lado. Eu fazia a mesma pergunta aos estudantes. Cansada, era mais fácil organizá-los por categoria do que conhecê-los de fato. Entre eles, os estereótipos continuavam: cardiologia, doenças infecciosas, atenção primária — cada área vinha com seu rótulo.

Com o tempo, comecei a me perguntar se minhas avaliações não eram influenciadas pelas respostas deles. Estudantes interessados em áreas mais técnicas acabavam vendo casos mais simples: qual era o sentido de fazê-los ver algo mais complicado, algo que não lhes interessava e que provavelmente nunca encontrariam de novo? Por outro lado, aqueles que diziam querer clínica ou pediatria, áreas da minha formação, eu julgava com mais rigor. Eu esperava que minhas avaliações fossem consistentes para todos, mas como ter certeza de que meus vieses não estavam agindo?

No fim da residência, resolvi parar de perguntar. Sem a especialidade como assunto central, surgiram outros assuntos. Descobri mais sobre a vida dos estudantes fora da medicina, seus interesses, suas histórias com pacientes. Sem expectativas prévias sobre quem meus estudantes poderiam ser, consegui aprender mais sobre quem eles realmente eram.

Hoje, como chefe, tento manter essa postura, embora o tempo curto com eles dificulte. Mesmo quando os estudantes mencionam seus interesses, gostos, desgostos e assim por diante, fico me perguntando quanto disso é cuidadosamente calibrado para parecer “certo” para aquele chefe e para aquela especialidade. Eu sei que fazia isso quando era estudante, então como posso culpá-los por fazer o mesmo? Escolher uma especialidade já é difícil o suficiente, acompanhar todas as personas necessárias torna tudo ainda mais complicado.

Afinal, na medicina, a escolha da especialidade é apenas um único ponto de dados entre muitos que formam quem somos. Existem tantos outros componentes da identidade, e às vezes sinto que perdemos isso de vista. Fico imaginando o que aconteceria se os chefes conversassem com os estudantes sobre suas famílias, seus interesses, suas vidas fora do hospital. Talvez eles, e nós, começássemos a nos sentir menos como membros de uma categoria e mais como adultos.


Fonte: When I Grow Up | Humanities | JAMA | JAMA Network