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/ Publicado el 11 de febrero de 2022

Como as notícias falsas de saúde são geradas

O perigo oculto do “Dr. Google”

A maneira como coletamos informações de saúde pode dar origem a crenças errôneas, mesmo que consultemos fontes confiáveis

O problema está nos vieses das estratégias de busca, que tendem a dar peso errado aos dados, de acordo com um estudo experimental da Universidade de Deusto. Os pesquisadores apontam que esse fenômeno afeta especialmente aos antivacinas.

A Internet é uma das principais fontes de informação em saúde e existem páginas nas quais os profissionais de saúde confiam. Mas o enorme volume de informação –e desinformação– disponível exige filtragem de dados com estratégias de busca seletiva.

Pesquisadores de Fundamentos e Métodos da Psicologia da Universidade de Deusto estudaram a relação entre estratégias de busca e crenças errôneas sobre informações em saúde. Dependendo dos resultados do trabalho, essa desinformação pode surgir da forma como os dados são coletados e tendenciosos, apesar do fato de as fontes a que recorremos ou as informações coletadas estarem corretas.

No experimento, as estratégias de busca com viés confirmatório encontraram uma relação entre droga e doença que de fato não existia.

Manuela Moreno-Fernández, investigadora principal e doutora em Psicologia pela Universidade de Deusto, explica ao SINC que estas crenças erróneas podem surgir se não tivermos uma estratégia de pesquisa equilibrada: “Podemos recolher informação que sobre-representa um determinado evento e sub-representa outro. Se isso acontecer, podemos adquirir crenças que não são totalmente corretas, apesar de a informação ser verdadeira e confiável.

Esse viés pode gerar desinformação que não se baseia no conteúdo dos dados, cuja responsabilidade recairia sobre a pessoa que os publica, mas sobre o próprio comportamento do usuário e como ele coleta essa informação. “Na internet corre-se o risco de não coletar informações de qualidade, de fontes confiáveis ​​ou autorizadas; mas um risco alternativo é que, apesar de recorrermos a uma fonte confiável, possamos estar coletando informações tendenciosas, uma pequena parcela da realidade que não representa o todo”, detalha.

Para demonstrar isso, os pesquisadores trabalharam com uma espécie de videogame em que os participantes tinham que descobrir se uma droga fictícia causava uma doença inventada. Com a tarefa, observaram que quando as estratégias de busca estavam afetadas por um viés confirmatório – as consultas confirmaram uma crença -, os pacientes encontraram uma relação entre o medicamento e a doença, mesmo que essa não existisse.

“Se não sabemos quais estratégias os mecanismos de busca usam para fornecer informações, também não sabemos se eles nos oferecem dados isentos de viés”, alerta o pesquisador Moreno-Fernández

No estudo eles trabalharam, como explica Moreno-Fernández, com metodologia experimental de laboratório. “São situações fictícias que nos permitem muito controle da situação e das variáveis ​​que podem intervir no processo”, diz. Os cientistas sugerem incluir para estudos futuros situações típicas de buscas do mundo real, como o Google e o algoritmo de seu mecanismo de busca, que podem enviesar os resultados que oferece ao usuário.

“Se não sabemos quais estratégias os buscadores utilizam, também não sabemos até que ponto eles estão nos oferecendo dados isentos de viés, limitações, informações parciais ou informações que não representam fielmente a realidade”, alerta o investigador.

O fenômeno antivacina e sua relação com o viés

O estudo ressaltou que essas estratégias estudadas em laboratório podem ser muito semelhantes às realizadas por internautas que apoiam o fenômeno antivacina. “Eles podem sustentar crenças que não se baseiam na realidade e acabam se tornando verdadeiros problemas de saúde pública”, aponta Moreno-Fernández.

Figura 1: Ilustração da tarefa a ser realizada pelos participantes. / Moreno-Fernández & Matute/J Med Internet Res.

Para ilustrar isso, o médico dá o exemplo de pais muito preocupados com os efeitos colaterais da vacinação, que "podem tender a buscar informações que vinculem o uso de vacinas e esses efeitos, mesmo que estejam procurando em fontes confiáveis". Assim, essas pessoas podem acabar superrepresentando a magnitude desses efeitos ou a probabilidade com que podem ser encontrados, enquanto subrepresentam os benefícios de se vacinar.

“Poderíamos ter usado outro fenômeno, como a COVID, mas este é um exemplo muito conhecido. Todos conhecem o problema das antivacinas e as consequências que isso teve na saúde pública”, diz.

A primeira impressão na internet não é a que conta

Para não cair no viés, devemos assumir, como regra geral, que a primeira impressão ao pesquisar na internet pode ser uma versão limitada da realidade.

Para evitar cair nessa desinformação gerada por nossa própria estratégia de busca, Moreno-Fernández propõe, para começar, conhecer as limitações das buscas. “Saber o que pode nos levar ao erro pode nos ajudar a praticar estratégias que tentam mitigar a forma como nós, seres humanos, buscamos por padrão. Como regra geral, pode ser útil saber que, normalmente, a primeira impressão que temos ao pesquisar na internet é limitada”, destacou.

“Se o que vemos é que as pessoas estão tentando confirmar a relação entre dois eventos, devemos propor estratégias que visem evitá-lo, que compensem se houver uma tendência de superrepresentação da informação”, apontou como “primeira linha” de defesa contra essas possíveis fraudes. Embora este trabalho tenha estudado o fenômeno em um contexto muito específico de informação em saúde, a pesquisadora acredita que ele pode ser extrapolado para outros tópicos e com efeitos importantes: “Com certeza pode ser aplicado a muitos outros contextos, principalmente aqueles de relevância social como mudança climática ou política.”

Como último passo, recomendou ir ao profissional de saúde, "que é, afinal, o especialista".