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/ Publicado el 17 de marzo de 2026

Poluição e saúde

O impacto dos plásticos na saúde humana

Explore as evidências científicas sobre o impacto dos micro e nanoplásticos na saúde humana. Esta revisão técnica detalha as vias de exposição, mecanismos de bioacumulação e os riscos potenciais para o desenvolvimento de doenças sistêmicas e crônicas.

Autor/a: Ali, Nurshad et al.

Fuente: The Lancet Planetary Health, V. 9,N. 12, 2025 Microplastic and nanoplastic pollution and associated potential disease risks

Introdução

A poluição plástica consolidou-se como um dos desafios ambientais mais críticos da atualidade, apresentando riscos à saúde humana que, embora frequentemente subestimados, já estão associados à ocorrência de doenças e óbitos. A onipresença de polímeros como polietileno, polipropileno, cloreto de polivinila (PVC), poliestireno, politereftalato de etileno (PET) e policarbonato em itens de uso diário expõe a população a riscos que variam conforme a estrutura química e os aditivos de cada material. Exemplos notáveis incluem:

·       ftalatos presentes no PVC, reconhecidos por sua ação como desreguladores endócrinos;

·       bisfenol A no policarbonato, associado a distúrbios reprodutivos;

·       estireno, componente classificado como provável carcinógeno.

Esses materiais plásticos sofrem degradação contínua, resultando na formação de microplásticos (partículas <5 mm) e nanoplásticos (1–1000 nm), coletivamente denominados MNPs. Devido às suas propriedades coloidais e à elevada proporção entre área superficial e massa, os nanoplásticos possuem uma capacidade aumentada de adsorver substâncias químicas e penetrar membranas celulares. Essa característica permite que ultrapassem barreiras biológicas fundamentais, como o epitélio intestinal e pulmonar e, potencialmente, a barreira hematoencefálica, resultando em uma acumulação tecidual superior à observada com microplásticos maiores.

A exposição humana ocorre de forma sistêmica por meio da ingestão de alimentos e água, inalação de poeira e ar, e absorção dérmica, sendo que fontes comuns incluem têxteis sintéticos, resíduos municipais e até dispositivos médicos, como seringas de injeção. Tanto micro quanto nanoplásticos demonstraram capacidade de induzir estresse oxidativo e processos inflamatórios, podendo levar à morte celular e respostas imunes em concentrações elevadas. Contudo, as evidências diretas dos impactos na saúde humana ainda são escassas e baseiam-se majoritariamente em estudos observacionais. Para preencher essa lacuna, Ali e colaboradores (2025) realizaram uma revisão sobre as últimas descobertas sobre os potenciais riscos de saúde associados aos MNPs.

Como os MNPs podem causar perigo para o organismo?

Os MNPs são classificados como perigos tanto ambientais quanto à saúde humana devido à sua toxicidade latente e à marcada tendência de bioacumulação em diversos organismos. Um dos mecanismos de risco mais críticos discutidos é o efeito "cavalo de Troia", no qual essas partículas funcionam como vetores para o transporte de substâncias nocivas para o interior do corpo, incluindo poluentes orgânicos persistentes, toxinas e patógenos oportunistas associados a biofilmes. Evidências indicaram que os MNPs podem hospedar inclusive genes de resistência a antibióticos, vírus e fungos, os quais interagem de forma complexa com a microbiota do hospedeiro. Além do papel de vetor externo, os MNPs contribuem para a carga química sistêmica ao liberarem aditivos incorporados durante o processo de fabricação do plástico diretamente nos tecidos e células.

Ademais, os MNPs apresentam um papel dual. Eles não apenas exercem efeitos tóxicos diretos, como a indução de estresse oxidativo e processos inflamatórios, mas também atuam como facilitadores, aumentando a biodisponibilidade e a toxicidade de outros poluentes coexistentes no ambiente.

A bioacumulação dos MNPs envolve a captação e o acúmulo progressivo dessas partículas ao longo do tempo, um processo influenciado por uma complexa interação de fatores biofísicos. A eficiência da internalização celular depende não apenas do tamanho e da forma das partículas, mas também de sua constituição química e, crucialmente, de sua carga superficial. Além disso, processos de intemperismo e envelhecimento ambiental modificam propriedades intrínsecas, alterando o comportamento biológico dos plásticos.

Os mecanismos pelos quais essas partículas cruzam as membranas biológicas são diversos e incluem a captação celular por fagocitose ou endocitose, difusão passiva, formação de poros e até alongamento mecânico das membranas, o que facilita a translocação sistêmica. Ademais, há padrões de distribuição distintos de acordo com a via de exposição: enquanto a administração intravenosa resulta em acúmulo predominante no fígado e baço, a exposição intratraqueal leva a uma maior captação pulmonar. Em contrapartida, microplásticos de poliestireno ingeridos oralmente tendem a permanecer majoritariamente no trato gastrointestinal, sendo eliminados de forma eficiente nas fezes em um período de aproximadamente 48 horas.

A cinética da bioacumulação é determinada pela taxa de ingestão, pela eficiência de assimilação e pela capacidade metabólica do organismo de processar ou eliminar tais partículas. As principais vias de depuração incluem a excreção pelas rotas renal e fecal, embora existam evidências de vias alternativas como o suor, as lágrimas e o leite materno. Embora a biodegradação possa contribuir para a depuração, muitos nanoplásticos exibem resistência à degradação natural, o que favorece uma internalização persistente no organismo.

Existe alguma maneira de detectar dos MNPs no organismo?

A detecção de MNPs em fluidos corporais e tecidos humanos representa um dos maiores desafios metodológicos atuais, devido à complexidade das matrizes biológicas (como sangue, urina e tecidos), à interferência de componentes como lipídios e ao risco de contaminação das amostras. A falta de materiais de referência universais e de padronização nos protocolos de coleta e análise dificulta a comparação entre estudos e a validação de métodos, especialmente para nanoplásticos. Apesar dessas barreiras, o biomonitoramento humano tem fornecido evidências diretas da presença de polímeros em diversos sistemas orgânicos.

No sistema respiratório, análises por espectroscopia identificaram microplásticos em tecidos pulmonares, com prevalência de polipropileno (23%) e politereftalato de etileno (18%). No sistema cardiovascular, microplásticos foram isolados no sangue de voluntários saudáveis e em tecidos cardíacos de pacientes cirúrgicos. Achados críticos demonstraram a presença de MNPs em trombos de pacientes com acidente vascular encefálico (AVE) isquêmico, infarto agudo do miocárdio e trombose venosa profunda, além de sua detecção em placas de ateroma carotídeo, onde a presença de polietileno e PVC foi associada a um maior risco de eventos cardiovasculares maiores.

A presença de MNPs estende-se ao sistema nervoso central, com relatos de acúmulo significativo no cérebro de indivíduos falecidos com demência, especificamente nas paredes dos vasos sanguíneos e em células imunes. Outros órgãos e tecidos também apresentam evidências de contaminação, incluindo a próstata (onde predominam poliamida, PVC e polietileno), articulações de quadril e joelho, e cálculos biliares, onde as partículas podem agravar quadros de colelitíase ao formar agregados com o colesterol. No âmbito da saúde reprodutiva e perinatal, microplásticos foram identificados na placenta humana, mecônio, testículos e sêmen.

Por fim, a excreção e secreção dessas partículas são confirmadas pela sua detecção em urina (com tamanhos entre 4 e 15 μm), escarro, fezes e leite materno. Os polímeros mais comumente identificados nessas amostras são o polipropileno, polietileno, PVC e PET.

Quais são as potenciais condições associadas aos MNPs?

No âmbito dos distúrbios metabólicos, evidências emergentes indicaram que os MNPs contribuem para o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2 e doença inflamatória intestinal (DII). Estudos in vivo com modelos murinos demonstraram que a ingestão de partículas de poliestireno resulta em aumento da adiposidade e hiperglicemia, fenômenos associados a mudanças profundas na microbiota intestinal, especificamente no aumento da proporção Firmicutes/Bacteroidetes. Em seres humanos, observou-se uma correlação positiva entre a concentração de MNPs nas fezes e o status da DII, com o politereftalato de etileno (PET) identificado como o polímero predominante nessas amostras. Além disso, a exposição prolongada pode exacerbar quadros de colite ao aumentar a permeabilidade intestinal e desencadear inflamação sistêmica via via de sinalização TLR4/NF-κB/COX-2.

Em gestantes e lactantes, os microplásticos levaram à disbiose da microbiota intestinal materna e à disfunção da barreira intestinal, além de aumentarem o risco de distúrbios metabólicos. Ademais, essa exposição induziu efeitos intergeracionais e consequências metabólicas a longo prazo na prole. Ainda, alguns estudos indicaram a possibilidade dos MNPs causarem retardo no crescimento fetal e no comprometimento da transferencia de nutrientes da mãe ao feto.

No sistema respiratório, a inalação de MNPs é uma via crítica, podendo causar inflamação crônica, danos pulmonares e fibrose devido à biopersistência dessas partículas. Pacientes com asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica demonstram maior suscetibilidade a danos no epitélio nasal por fibras de poliamida, o que pode exacerbar processos inflamatórios Th2 e estresse oxidativo. Historicamente, a toxicidade ocupacional por fibras de nylon, polipropileno e polietileno já foi associada a doenças pulmonares intersticiais e bronquiolite folicular em trabalhadores da indústria têxtil. Paralelamente, a pele atua como uma barreira protetora, mas danos preexistentes ou partículas ultrapequenas permitem a penetração de nanoplásticos, induzindo estresse oxidativo mitocondrial e acelerando o envelhecimento celular, o que pode agravar condições como eczema e psoríase.

Os impactos no sistema cardiovascular são clinicamente significativos, com a detecção de polietileno e PVC em placas de ateroma carotídeo associada a um risco significativamente maior de eventos cardiovasculares maiores. Modelos animais sugeriram que essa toxicidade ocorre por meio de fibrose miocárdica, apoptose de cardiomiócitos e arritmias induzidas por estresse oxidativo e ativação do inflamassoma NLRP3. No fígado, pacientes com cirrose apresentam concentrações elevadas de diversos microplásticos, e estudos com organoides hepáticos humanos confirmam que mesmo concentrações ambientalmente baixas podem induzir hepatotoxicidade, esteatose e distúrbios no metabolismo lipídico. No sistema renal, a deposição de MNPs pode comprometer a integridade da barreira renal e aumentar o risco de lesão renal aguda através da indução de autofagia e depleção de proteínas de junção celular.

No campo dos distúrbios neuroendócrinos, partículas de nanoplásticos demonstraram capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, causando danos neuronais, prejuízos cognitivos e potencial agregação de alfa-sinucleína, um marcador da doença de Parkinson. No sistema reprodutor, a exposição foi ligada à redução da fertilidade, disfunção ovariana e prejuízos à espermatogênese em modelos animais. Quanto ao risco de câncer, embora os dados em humanos sejam limitados, MNPs foram detectados em diversos tumores (pulmonares, gástricos, colorretais e pancreáticos), onde podem induzir instabilidade genômica e mutagênese. Por fim, os MNPs parecem facilitar doenças infecciosas, potencializando a entrada e replicação viral (como no caso do Influenza A) e comprometendo a imunidade antiviral inata do hospedeiro.

Em conclusão, embora os MNPs possuam o potencial de afetar adversamente múltiplos sistemas orgânicos, contribuindo para diversas condições, as evidências diretas de riscos à saúde humana ainda são escassas. Espera-se que avanços em tecnologias analíticas para a detecção de MNPs em fluidos e tecidos humanos ajudem a preencher essas lacunas nos próximos anos.