Na última década, aproximadamente 64,3 milhões de pessoas foram afetadas pela insuficiência cardíaca (IC), principalmente idosos, sendo a IC com fração de ejeção reduzida (ICFER) responsável por 50% dos casos. O envelhecimento é um fator de risco determinante para a doença, mas, enquanto a idade cronológica se refere apenas à passagem do tempo, a idade biológica (IB) é um indicador mais preciso da expectativa de vida, capturando melhor a heterogeneidade individual. Dentre diferentes métodos que medem esse parâmetro, o teste baseado em biomarcadores clínicos é uma opção mais acessível e eficaz na previsão do risco de mortalidade.
O treinamento aeróbico (TA) é uma abordagem não farmacológica recomendada no tratamento da ICFER. O estudo Heart Failure: A Controlled Trial Investigating Outcomes of Exercise Training (HF-ACTION), indicou que esse método melhorou significativamente os resultados relacionados à saúde e à mortalidade por todas as causas ou hospitalização, em comparação com os cuidados usuais. Além disso, outros estudos sugeriram que o exercício pode melhorar biomarcadores do envelhecimento, com benefícios ainda mais notáveis em indivíduos mais velhos ou que apresentam fragilidades.
No entanto, a relação entre IB baseada em biomarcadores e mortalidade, bem como o impacto do exercício aeróbico nessa associação, ainda não está totalmente esclarecida. Por isso, Huang e colaboradores (2025) utilizaram o método Klemera-Doubal (KDM) para calcular a IB, analisando sua associação com a mortalidade e o impacto do TA por meio de uma análise secundária post-hoc dos dados do HF-ACTION.
Para isso, a IB foi calculada utilizando o resíduo de um modelo linear entre esse indicador e a idade cronológica. Já as associações com a mortalidade por todas as causas, morte cardiovascular e hospitalização geral foram investigadas considerando a aceleração da idade biológica como uma variável contínua e dividida em quintis na coorte geral.
Esse cálculo foi derivado de biomarcadores como índice de massa corporal, pressão arterial, colesterol total, creatinina, nitrogênio uréico sanguíneo e hemoglobina glicada. A análise utilizou modelos estatísticos para avaliar a relação da IB com mortalidade geral, morte cardiovascular e hospitalização. Os resultados foram ajustados para diversas variáveis, como idade, sexo, fragilidade, comorbidades e medicações. Além disso, testes de interação e análise de sensibilidade foram conduzidos para verificar o impacto dos exercícios aeróbicos sobre a relação entre a idade biológica e mortalidade.
O estudo analisou 1.732 participantes, onde 861 foram tratados com treinamento aeróbico e 871 pertenciam ao grupo controle. A idade média foi de 58,8 anos, 27,3% eram mulheres e 33,4% eram negros. Aqueles com maior aceleração da IB apresentavam mais comorbidades, incluindo piores condições cardiometabólicas, físicas e renais.
Durante um acompanhamento mediano de 31,5 meses, 301 participantes faleceram. Um aumento na IB e na sua aceleração foi associado a um risco significativamente maior de mortalidade por todas as causas. Além disso, aqueles no quintil mais alto de aceleração tiveram risco aumentado de morte e hospitalização.
O impacto da aceleração da IB na mortalidade foi reduzido pelo treinamento aeróbico. Em pacientes com cuidados habituais, o aumento da IB elevou significativamente o risco de morte, mas essa associação não foi relevante no grupo de treinamento aeróbico, sugerindo um efeito protetor do exercício físico.
Por outro lado, os mecanismos específicos que explicam como o TA atenuam os efeitos do envelhecimento biológico nesses pacientes ainda precisam ser mais investigados. O estudo sugeriu que os benefícios do exercício podem estar relacionados à melhora do metabolismo, redução da sarcopenia e alívio do estresse oxidativo, fatores que impactam diretamente na fragilidade e no prognóstico desses indivíduos.
Em conclusão, o estudo de Huang e colaboradores (2025) reforçou o papel da IB baseada em biomarcadores como um forte preditor de mortalidade e hospitalização em indivíduos com ICFER, sendo mais eficaz do que a idade cronológica isolada. Além disso, evidenciou que o TA pode estar associado à redução da mortalidade por todas as causas, além modular os efeitos negativos do envelhecimento biológico, oferecendo uma abordagem terapêutica eficaz. Esses achados reforçaram a importância da atividade física na melhora do prognóstico e na redução da mortalidade desses pacientes, podendo influenciar futuras diretrizes clínicas.